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Dia memorável. Para além duma expressiva vitória sobre o Vitória e consequente conquista do quarto campeonato seguido, para além de Portugal contar com mais dois santos* a quem recorrer em horas de aflição, que nos podem compreender melhor as súplicas e as aflições, ganhou-se finalmente o caraças do festival. 

 

Parte da auto-estima perdi-a justamente em tempos, quando na altura das votações do festival rezava para que os países latinos nos dessem alguns votos, para não ficarmos a zero. Desconfiava da qualidade das canções, mas naquele momento isso não interessava, urgia não sermos completamente arrasados. Mendigar por uns votos era invocar um milagre, sem se ter consciência disso.

 

Não há obviamente nenhuma relação entre a entrada do Francisco e da Jacinta para a galeria dos santos e a vitória do Sobral, acontecida por inteiro mérito de quem escreveu a canção e de quem a interpretou como se fosse sua. Na votação do júri estivemos sempre à frente. Na do público vencemos igualmente, depois do Salvador (outra estranha coincidência) ter sido escolhido para nos representar.

 

Também não me parece que na conquista do tetra tenha havido alguma interferência divina, mas aqui começou apenas a eterna discussão do mérito, porque se suspeita de interferências mais humanas e os lances que supostamente foram sendo mal ajuizados,   o combustível para todas as discordâncias, para todas as desconfianças. Milagre será quando acabar um campeonato e todos concordarem com o merecimento do vencedor. Apesar de ainda  haver esperança, pois a equipa de santos foi reforçada com mais dois Lusitanos, mais sensíveis aos problemas nacionais e não parece haver registo de falta de desportivismo nos canonizados.

 

* Dez, quase uma equipa de futebol

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Entardecer

20.04.16

 

Atalho para o blogue original

 

Entardecer

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Depois das justas dedicatória a todos, este dedico-o a mim, a tudo o que interessa na vida e a tudo o que me pode interessar, neste momento. Ambivalente desejo de hedonismo e necessidade do homem tranquilo, a aspiração a um homem sábio. O esforço para suprir as mudanças com o sentido que elas têm. O fruto amadurecido de uma cara que é o reflexo do seu interior devastado por mil batalhas. As cicatrizes físicas o testemunho da vertigem. O Mäelstrom que ainda não terminou. O barril onde me agarro e sustenho com toda a vontade de sobreviver.

O Caso Luís Sedas

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«Para quem credita em maldições específicas e personalizadas? Feitas de propósito para nos caberem na perfeição, fazerem parte de nós, não se verem na nossa sombra.»

 

 

Daqui vou para a indiferença, para planuras de violas, para vozes sofridas. Para além disso. Separado de tudo menos dos órgãos indispensáveis para continuar, interrogando-me sobre tudo o que se passa cá em cima. Tudo se resume a isso.

 

É possível funcionar. É possível descarrilar. Avariar. Tresmalhar. Condenado a ser-se o que se é, pois então. Não há apelação. Sei lá o que se passa, e não quero saber porque não é possível saber. Eles não sabem. O resultado sou eu, isso interessa-me, ao de ponto de me angustiar. Ao ponto de me retractar. Ao ponto de me perdoar sem que isso evite quaisquer consequências. 

 

Cuspir tudo cá para fora? O quê?

A aparente banalidade dos acontecimentos. As peripécias bem-sucedidas. Nada objectivamente a correr mal. O que corre bem não vale nada. Rotina de correr bem? O copo esvaziou rápido. Com a sede toda ao pote. Já não desdenho da desdenhada sabedoria popular. As sardinhas em novo são outra questão.

 

É a sede toda que continua, que se pode intensificar quando se pode recordar a natureza cristalina da água. A água agulha da cascata. A vontade de repetir. Sem acesso a ocultas fontes. A vontade de evoluir de novo graciosamente. Pedir paciência é pedir o impraticável. Uma pasmaceira montada, nesta solidão nocturna de tenda de montanha a fingir. Em meditações pouco concentradas.

 

Bem sei que não é maneira de me preparar. Mas não é preciso nenhuma preparação, basta ser directo e ir ao assunto sem rodeios. Bater na mesma tecla vezes sem conta, construir uma casa com esse empilhar dos mesmos tijolos. Uma casa para quê?

 

Para celebrar o passado?

Para me embriagar de futuros que não acontecem?

A sustentar versões? Livre do ónus de me estupidificar doutra maneira, com outros modos. As forçosas comparações darem-me no lugar certo. Eu a dar-me no lugar certo. O que não dá certo? 

 

Que peditório pode ser este, mesmo ao lado dos vitrais funerários. Uma torre de clausura, como a que fornecem aos presos por conspiração. Saio regularmente da toca, mas ninguém me toca. Vendavais atmosféricos. Esta turbulência natural, mas assustadora.

 

A auto-disciplina, o Francês e as boas maneiras às urtigas. Prefiro o recreio deste Entardecer tranquilo. A falhar com as horas de sono, a não me esquecer convenientemente de tudo o que pode ser deitado fora. Será uma purga? Fará parte da cura? De quantas curas preciso? 

 

 

Queria ir para indiferença, fui para ao confessionário, mas não é para pedir absolvição, é um lugar recatado, bom para descansar.

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Olhar para trás. Identificar uma série de eventos extraordinários. Dos chamamentos da tumba. Estar aqui incólume a tudo devia bastar para me reconfortar. Hoje soube-me a nada. Começa agora a saber-me a especiarias empacotadas. Nem a meio termo de qualquer satisfação. Um segunda de luto. A perder-me em terrenos movediços da existência. A angústia concomitante do tempo. A alegoria da situação. Há aqui drama. Há aqui muito mais do que isso.


Bowie e a (in)felicidade

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Os dias da tenda improvisada, de cafés fumegantes, de irrisórias alegrias, sem que o passado ou o futuro tenham assim tanta importância, um porque já passou, o outro porque vai acontecer, impossível de prever, ao arrepio de vontades expressas, por linhas travessas. Conta a idade?

O Caminho Incerto das Comparações

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 Como é que é possível que tenha passado tão rápido?
E tanto ter mudado por fora e por dentro.
 As cicatrizes são bem-vindas. As dores sublimadas. Gloria Mundi. O que faltava de significativo saber está controvertido. Quem aí vem não sabe o que lhe vai cair em cima. A energia em que se prepara com mais mestria a vinda, confirmada por oráculos duvidosos, toda a possível.

    Eu estou bem. Se a felicidade é a ausência do medo. Medo de quê? O esforço despendido tem a sua recompensa. Os trabalhos não foram em vão. Este é o vão para as outras margens. Aquilo que é agradável de fazer. A paz. Namastê.


Prenúncios do Norte

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Emilia apercebera-se do que se tinha passado. Não sabia que podia sentir aquele prazer. O prazer prolongado que Luís lhe tinha proporcionado não podia ser advir apenas da forma como ele se deu a si. Ela já não tinha nenhuma substância a toldar-lhe as comunicações neuronais, estava apta a gozar tudo o que a sensibilidade que a natureza a provera podia provocar em si. Era imenso. Era uma catástrofe do ultravioleta. Uma revelação. Uma república de sensações desenterradas do interior de uma mente antes bloqueada para as sentir e reproduzir. O êxtase. 

 

11 - O Interior Revelado

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Para a solidão daquela cúpula misteriosa de poder, que até ele, plenipotenciário, não conhecia, a pergunta que o corroía desde há muito tempo: se fossem abolidos os Estados de Espírito o que aconteceria seria voltar aos Velhos Tempos, mas os Novos Tempos serviam o quê? De que servia ter uma sociedade estável, se era à custa da sedação? Para que servia essa sociedade com as máquinas todas de que ela se rodeou, que registam todos os parâmetros para que foram programadas. Que castra os mais indomáveis. Na lógica humana a alguém ou a algo isto devia interessar. A humanos? Para que quereriam as máquinas que produzissem riqueza se elas não tinham como aproveitar dessa riqueza? Quem as tinha programado assim e quem se escondia continuando a aproveitar a situação?

11 - O Interior Revelado

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10 – O Psicólogo Cupido 

 

A ordem expedida pelo Psicólogo fora remetida, encriptada, pelo canal normal e burocrático, com o seguinte teor:

Deverão ser cessadas as influências do Estado de Espírito, versão Executiva, ao Cidadão Luís Manuel Lourenço Sedas. Deverá comunicada a realização da presente ordem, com informação sobre a data e hora em que foi executada, bem com data e hora previstas para a libertação total do Estado de Espírito.

O Colaborador que procedeu à leitura da ordem emitida deu conta que provinha de uma Entidade desconhecida, mas como a criptografia reconheceu o remetente e a sua autoridade para a emitir, deu início nessa mesma noite, aos procedimentos necessários para libertar o cidadão do Estado de Espírito. Constava das opções oficiais do programa, por isso e apesar de nunca ter feito aquela operação verdadeiramente, sabia como a fazer por ter sido instruído para isso. 

 

Respondeu ao Remetente daquela mensagem a data e hora da libertação e informou que não constava do programa a informação sobre a previsibilidade da total remoção do Estado de Espírito.

 

O Psicólogo foi interrompido no seu charuto pela mensagem de retorno, à qual tinha atribuído a importância de Total, por isso o interrompia. Não contava com ela senão pela manhã. Estava abandonado ao balão de conhaque, num devaneio de fumo na sua sala de leitura, ao som de uma peça ópera dos Velhos Tempos, A Cavalgada das Valquírias. Ficava satisfeito com a eficiência do sistema por assim já ter cumprido a sua ordem. 

 

A resposta breve e seca sobre a hora e data da ocorrência da libertação, deixava-o à mercê da comunicação do Luís. Sabia que ele não contactaria, embora suspeitasse que a libertação total iria ocorrer durante a noite, mas ele estaria certamente noutro mundo sem esperar aquela eficiência, com tudo o mais para viver do que se preocupar com a entrada em vigor da libertação. Ele saberia quando isso acontecesse. Tinha confiança nele, sabia que ele iria colaborar porque sabia que tinha em si uma fonte de informação para as perguntas que fazia e podia aprender com esta experiência. Não era um ser desvairado, senão pela paixão que sublevava para outros territórios do sentir. Os mais perigosos deles, na óptica do Psicólogo. Os mais capazes de transcender um cidadão, os mais capazes de os transformar em melhores seres humanos, não necessariamente nos melhores Cidadãos.

 

Um devaneio existencial do Psicólogo. A sua experiência de vida e as suas experiências pessoais, a sua distância, o seu colaboracionismo naquele vulcão que ele sabia prestes a explodir entre aqueles dois seres humanos. Um tinha a possibilidade de viver na plenitude um sentir dos mais grandiosos da existência, mas o outro, embora estivesse sob o mesmo efeito, tinha a abafar-lhe o Estado de Espírito. Era uma situação nova que se lhe colocava e que o tirava daquele torpor, a sua cumplicidade, a sua adesão ao estado de espírito do Luís Sedas, como se o recompensasse de não viver sob esse estado de espírito relativamente a nada, senão a este caso. A sua cumplicidade começava a ser preocupante pois agora incluía na equação, como benesse, declarar a cessação do Estado de Espírito da companheira, para melhor fruírem o amor que os atrai. 

 

Parecia-lhe injusto negar esse prazer à companheira do seu cúmplice, aquele que estava a viver no lugar dele. Que o fizesse da melhor maneira possível. Colocar aqueles compinchas em igualdade de circunstâncias parecia-lhe a melhor maneira de lhes providenciar uma experiência como nunca tinham tido na vida. Não tinha que se preocupar se em resposta àquela mensagem ordenasse a cessação imediata à Cidadã Emilia do Estado de Espírito. Sem requerer qualquer estimativa quanto a data e hora da libertação total. Deixava tudo à ordem natural dos eventos, enquanto ele ia ouvir o resto da ópera e acabar de saborear o conhaque. 

 

Seguidamente iria deitar-se na cama preparada pelo seu mordomo pessoal, um cidadão muito reservado e esquivo, que o servia na perfeição sem quase nunca ser visto, como se adivinhasse todos os desejos dele. O que ele lamentava profundamente, mas não tinha motivo para dispensar aquele mordomo magnífico só porque não o acompanhava para uma conversa filosófica em torno de um conhaque. Não lhe podia exigir isso, embora lamentasse que não aparecesse mais. 

 

Estavam lançados dados adicionais nesta iniciativa. Tinha a curiosidade de saber de que modo sentiram que o Estado de Espírito se tinha desvanecido em ambos. Do significado profundo daquela dádiva a ambos. E do modo como a evolução do seu relacionamento podia ou não colocar em risco o secretismo daqueles procedimentos. Ele não tinha que prestar contas a ninguém. Se eles chamassem à atenção, as autoridades competentes tratariam do assunto. Eles estavam por sua conta e risco. Ele apostara neles concedendo-lhes uma possibilidade única, continuava a ser incerto o que poderia acontecer com eles e como reagiriam a uma circunstância adversa.

 

A adversidade de ambos se terem que apresentar nos seus postos de trabalho cedo e do café ter durado uma eternidade de olhares de sedução, de alusões a ser tarde, embora não fosse tarde para nada, senão para olheiras que podiam levantar suspeitas. Olheiras e um ar inconvenientemente distraído como atitude externa, a gozar ainda o calor da noite. Sabiam o que o jogo de olhares, de meneios do corpo, tinha uma promessa de romper com tudo, com o resto que faltava esclarecer convenientemente. Luís queria fazê-lo porque sabia que tinha outra maneira de demonstrar tudo o que sentia por ela. Também sabia que ela desejava que o fizesse e ela desejava fazer exactamente o mesmo. Luís queria fazê-lo num dia em que estivessem mais descontraídos quanto a horários, queria poder preparar um ambiente para que isso acontecesse, mas estava a soçobrar naquele jogo enleante que se estabelecera entre eles ao entardecer, sem TV ligada, sem sons que os de uma estação pirata, os a gostarem daquela aceleração. Aproximou-se dela e iniciaram um gesticular de roupas removidas, de carícias sem qualquer pressa, exploratórias, mútuas, sem que o chão de madeira em que executavam aquela dança, em que se preparam para estabelecer uma órbita gravítica inquestionável, em que se exploram e embrenham antes de se conhecerem finalmente, já sem o obstáculo da gravidade. Sem defesas. Em perfeita combinação de vontades.

 

Luís notara a alegria dela. Ficara com a suspeita do que pudera ser. Ele estava extasiado com isso. Estava mais extasiado por ter provocado tudo aquilo do que com o próprio deleite. Aquilo era o prolongamento do deleite. Cobriram-se com uma manta e ficaram agarrados um ao outro, sem falar, até adormecerem.

 

Para além das substâncias que doseiam o humor dos cidadãos, existe igualmente uma frequência de onda que as activa. Ou desactiva, de uma maneira relativamente rápida e indolor. Quase imediata. Executada por entidades cibernéticas quando o Colaborador prime a escolha da acção a realizar. As ordens recebidas naquela Repartição eram executadas de imediato. O que se acabara da passar na intimidade dos dois amantes eram o consumar dum desejo do Psicólogo. Uma transferência de vida para aqueles dois seres que lhe mereciam a oportunidade de serem felizes, como ele já fora em tempos. Era também um acto de amor numa sociedade com as janelas certas para olhar. Sem piedade por aqueles que dirigia quimicamente para servir entidades que ninguém conhecia, uma sociedade que nada questionava. Mergulhada nas ordens de obediência dos Estados de Espírito, amordaçada na sua capacidade de amar os outros, espiritualmente e carnalmente. Aqueles dois eram uma esperança para o Psicólogo.

 

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