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10 – O Psicólogo Cupido 

 

A ordem expedida pelo Psicólogo fora remetida, encriptada, pelo canal normal e burocrático, com o seguinte teor:

Deverão ser cessadas as influências do Estado de Espírito, versão Executiva, ao Cidadão Luís Manuel Lourenço Sedas. Deverá comunicada a realização da presente ordem, com informação sobre a data e hora em que foi executada, bem com data e hora previstas para a libertação total do Estado de Espírito.

O Colaborador que procedeu à leitura da ordem emitida deu conta que provinha de uma Entidade desconhecida, mas como a criptografia reconheceu o remetente e a sua autoridade para a emitir, deu início nessa mesma noite, aos procedimentos necessários para libertar o cidadão do Estado de Espírito. Constava das opções oficiais do programa, por isso e apesar de nunca ter feito aquela operação verdadeiramente, sabia como a fazer por ter sido instruído para isso. 

 

Respondeu ao Remetente daquela mensagem a data e hora da libertação e informou que não constava do programa a informação sobre a previsibilidade da total remoção do Estado de Espírito.

 

O Psicólogo foi interrompido no seu charuto pela mensagem de retorno, à qual tinha atribuído a importância de Total, por isso o interrompia. Não contava com ela senão pela manhã. Estava abandonado ao balão de conhaque, num devaneio de fumo na sua sala de leitura, ao som de uma peça ópera dos Velhos Tempos, A Cavalgada das Valquírias. Ficava satisfeito com a eficiência do sistema por assim já ter cumprido a sua ordem. 

 

A resposta breve e seca sobre a hora e data da ocorrência da libertação, deixava-o à mercê da comunicação do Luís. Sabia que ele não contactaria, embora suspeitasse que a libertação total iria ocorrer durante a noite, mas ele estaria certamente noutro mundo sem esperar aquela eficiência, com tudo o mais para viver do que se preocupar com a entrada em vigor da libertação. Ele saberia quando isso acontecesse. Tinha confiança nele, sabia que ele iria colaborar porque sabia que tinha em si uma fonte de informação para as perguntas que fazia e podia aprender com esta experiência. Não era um ser desvairado, senão pela paixão que sublevava para outros territórios do sentir. Os mais perigosos deles, na óptica do Psicólogo. Os mais capazes de transcender um cidadão, os mais capazes de os transformar em melhores seres humanos, não necessariamente nos melhores Cidadãos.

 

Um devaneio existencial do Psicólogo. A sua experiência de vida e as suas experiências pessoais, a sua distância, o seu colaboracionismo naquele vulcão que ele sabia prestes a explodir entre aqueles dois seres humanos. Um tinha a possibilidade de viver na plenitude um sentir dos mais grandiosos da existência, mas o outro, embora estivesse sob o mesmo efeito, tinha a abafar-lhe o Estado de Espírito. Era uma situação nova que se lhe colocava e que o tirava daquele torpor, a sua cumplicidade, a sua adesão ao estado de espírito do Luís Sedas, como se o recompensasse de não viver sob esse estado de espírito relativamente a nada, senão a este caso. A sua cumplicidade começava a ser preocupante pois agora incluía na equação, como benesse, declarar a cessação do Estado de Espírito da companheira, para melhor fruírem o amor que os atrai. 

 

Parecia-lhe injusto negar esse prazer à companheira do seu cúmplice, aquele que estava a viver no lugar dele. Que o fizesse da melhor maneira possível. Colocar aqueles compinchas em igualdade de circunstâncias parecia-lhe a melhor maneira de lhes providenciar uma experiência como nunca tinham tido na vida. Não tinha que se preocupar se em resposta àquela mensagem ordenasse a cessação imediata à Cidadã Emilia do Estado de Espírito. Sem requerer qualquer estimativa quanto a data e hora da libertação total. Deixava tudo à ordem natural dos eventos, enquanto ele ia ouvir o resto da ópera e acabar de saborear o conhaque. 

 

Seguidamente iria deitar-se na cama preparada pelo seu mordomo pessoal, um cidadão muito reservado e esquivo, que o servia na perfeição sem quase nunca ser visto, como se adivinhasse todos os desejos dele. O que ele lamentava profundamente, mas não tinha motivo para dispensar aquele mordomo magnífico só porque não o acompanhava para uma conversa filosófica em torno de um conhaque. Não lhe podia exigir isso, embora lamentasse que não aparecesse mais. 

 

Estavam lançados dados adicionais nesta iniciativa. Tinha a curiosidade de saber de que modo sentiram que o Estado de Espírito se tinha desvanecido em ambos. Do significado profundo daquela dádiva a ambos. E do modo como a evolução do seu relacionamento podia ou não colocar em risco o secretismo daqueles procedimentos. Ele não tinha que prestar contas a ninguém. Se eles chamassem à atenção, as autoridades competentes tratariam do assunto. Eles estavam por sua conta e risco. Ele apostara neles concedendo-lhes uma possibilidade única, continuava a ser incerto o que poderia acontecer com eles e como reagiriam a uma circunstância adversa.

 

A adversidade de ambos se terem que apresentar nos seus postos de trabalho cedo e do café ter durado uma eternidade de olhares de sedução, de alusões a ser tarde, embora não fosse tarde para nada, senão para olheiras que podiam levantar suspeitas. Olheiras e um ar inconvenientemente distraído como atitude externa, a gozar ainda o calor da noite. Sabiam o que o jogo de olhares, de meneios do corpo, tinha uma promessa de romper com tudo, com o resto que faltava esclarecer convenientemente. Luís queria fazê-lo porque sabia que tinha outra maneira de demonstrar tudo o que sentia por ela. Também sabia que ela desejava que o fizesse e ela desejava fazer exactamente o mesmo. Luís queria fazê-lo num dia em que estivessem mais descontraídos quanto a horários, queria poder preparar um ambiente para que isso acontecesse, mas estava a soçobrar naquele jogo enleante que se estabelecera entre eles ao entardecer, sem TV ligada, sem sons que os de uma estação pirata, os a gostarem daquela aceleração. Aproximou-se dela e iniciaram um gesticular de roupas removidas, de carícias sem qualquer pressa, exploratórias, mútuas, sem que o chão de madeira em que executavam aquela dança, em que se preparam para estabelecer uma órbita gravítica inquestionável, em que se exploram e embrenham antes de se conhecerem finalmente, já sem o obstáculo da gravidade. Sem defesas. Em perfeita combinação de vontades.

 

Luís notara a alegria dela. Ficara com a suspeita do que pudera ser. Ele estava extasiado com isso. Estava mais extasiado por ter provocado tudo aquilo do que com o próprio deleite. Aquilo era o prolongamento do deleite. Cobriram-se com uma manta e ficaram agarrados um ao outro, sem falar, até adormecerem.

 

Para além das substâncias que doseiam o humor dos cidadãos, existe igualmente uma frequência de onda que as activa. Ou desactiva, de uma maneira relativamente rápida e indolor. Quase imediata. Executada por entidades cibernéticas quando o Colaborador prime a escolha da acção a realizar. As ordens recebidas naquela Repartição eram executadas de imediato. O que se acabara da passar na intimidade dos dois amantes eram o consumar dum desejo do Psicólogo. Uma transferência de vida para aqueles dois seres que lhe mereciam a oportunidade de serem felizes, como ele já fora em tempos. Era também um acto de amor numa sociedade com as janelas certas para olhar. Sem piedade por aqueles que dirigia quimicamente para servir entidades que ninguém conhecia, uma sociedade que nada questionava. Mergulhada nas ordens de obediência dos Estados de Espírito, amordaçada na sua capacidade de amar os outros, espiritualmente e carnalmente. Aqueles dois eram uma esperança para o Psicólogo.

 

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