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Pudesse eu tornar os meus passos furtivos. Silenciosos. Em vez de andar a caçar votos. Com canseiras. Suponho que a contemplação não gasta muitas energias. Por isso os Cartuxos só comem uma refeição por dia.
    Eles vivem num despojamento de objectos materiais. Tem sido uma grande injustiça da minha parte nunca me ter referido eles e preferir sempre os monges Tibetanos

    Vivem fora do mundo. Isso facilita o despojamento, que seria mais difícil se vivessem dentro do mundo.
    Se para os monges penso ser difícil ser despojado, dentro do mundo em que vivemos, porque quero eu melhor sorte para o meu despojamento nele?

    Em determinadas circunstâncias posso desfazer-me de alguns. Doutros penso precisar para necessidades úteis. Não tenho necessidade de andar a catar pedras e tentar fazer com elas bonecos. Mas isso dá-me prazer e alegria. E os livros?

    Há sempre uma catrefada de objectos que pensamos que nos são imprescindíveis. Se pudéssemos passar algum tempo longe deles, de quais teríamos saudades?

    Não tenho objectos inúteis, muitos deles são ferramentas de trabalho. Comprei-as para realizar eu mesmo determinadas tarefas. Se essas tarefas desaparecerem do quotidiano... um homem como eu é capaz de prescindir do berbequim ou do mini-berbequim, ou da rebarbadora?

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    Tinha um casaco vermelho, nunca tinha estreado. Levei-o um destes dias, no entanto não se justificou o seu uso e coloquei-o dobrado sobre uma bolsa que transporto a tiracolo. O dito casaco, quando o procurava nesse local, não o encontrando... 

    - Perdes-te alguma coisa?

    - Parece que sim! Um casaco.

    - Vermelho?

    - Sim.

    - Vi uma pessoa apanhá-lo ali mais ou menos naquela árvore.

    Consolo-me em pensar que aquela pessoa que apanhou o casaco precisava mais dele que eu. Se assim foi foi feita a costumada justiça.

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    Existe muita gente para quem a evocação dum cemitério é de evitar. Passei por um. Passo lá imensas vezes, a qualquer hora. É grande e o acrescento que lhe fizeram está quase todo ocupado.

    Fui ver os anjos, os Cristos-Rei, os desenhos das campas. Vi também alguns conhecidos que para lá levaram. Evocamos sempre as pessoas e o que significaram para nós e o que significaram para quem quis deixar uma última (?) mensagem. 

    Para mim nada daquilo que lá alguma vez foi visto por quem teve que partir. Faz sentido que os vivos, à falta de melhor, se possam consolar com isso. Quando ali mesmo me comecei a interrogar sobre o significado de todas aquelas sepulturas, ficou-me uma na retina: é um arbusto. Em vez de mármores e granitos, um arbusto vivo. 

    Não é meu desejo prejudicar os que vendem campas. Todo aquele mármore antigo, que se vai enchendo de nódoas que não se lavam, em contraste com o granito das novas campas. Nota-se uma evolução na qualidade estética. 

    O arbusto ou uma campa rasa, sem nome, como as que vi lá, seriam o melhor lugar para um dia para lá me levarem. Se assim o entenderem. Depois de ir preenchido o certificado de óbito, já fui. O que quer que seja que isso signifique. Já não estou cá, não adianta fazerem-me mais nada, senão não me deixarem a incomodar os vivos. 

    Por respeito das crenças não estou a perorar nada daquilo que ali está visível. Compreendo a necessidade higiénica de se proceder assim com um cadáver. Compreendo a dor das pessoas. 

    A campa onde está sepultado o meu pai está noutro continente. E está bem. Ficou na terra que amava. Nunca precisei de campas para o evocar, apesar da recordação pouco nítida dele. A dor da sua partida, tinha eu cinco anos, manifestou-se ao longo do tempo, quando pensei precisar dele. 

    A falta que me fez poderia imaginá-la, mas não é saudável ter este tipo de raciocínio. Ele perpetua-se nos genes que me passou, para escrever e para utilizar a cabeça com tudo isto que partilho convosco.

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    Não devia ter começado a gabar uma cicatriz que ainda não existe. Não deve ter sido por isso que a cicatrização voltou ao principio, depois de mais um acidente na área acidentada. Ou talvez sim. Os grandes planos, as grandes expectativas, que nela depositei, não tendo ainda saído goradas, foram adiadas. Será para completar a obra. Para a elevar ao nível desejável. Afinal sou um coleccionador de cicatrizes. Quero sempre melhorar as minhas obras.

    Nem sei para que será, nem bem porque foi, a não ser que acidentes, os erros, as distracções acontecem. Só quem se empenha a concretizar algo é que lida com estes dissabores. Ninguém erra de propósito. E se se desse conta do erro, não haveria erro. Não temos que estar arrependidos dos erros que cometemos sem dar conta que os cometíamos.

    Dos outros valerá a memória para não os cometermos de novo. Nada disto é seguro: podemos até cometer erros piores, mais devastadores, nos seus resultados. Tantos de nós que levaram uma vida sem que se possa apontar um erro grave, são surpreendidos. 

    Não podemos esperar que toda o conhecimento da vida nos prepara. Tenho aprendido imenso com os meus erros. Continuo a errar. Será para finalizar a minha aprendizagem da vida? De que vale esse conhecimento quando as decisões importantes da nossa vida já estão tomadas?

    Toda a censura que possa fazer-me não terá o menor valor. Por isso prefiro pensar que em cada momento tomei as melhores decisões. Tomei as decisões com o conhecimento que tinha. Estão tomadas. Muitas delas tomei-as porque me agradavam, outras por serem aconselháveis. Estou cá  para arcar com o resultado.

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    A partir do final do verão, e durante o Outono e no Inverno o estorninho-preto pode formar bandos de grandes dimensões constituídos, muitas vezes, por milhares de indivíduos que se reúnem em grandes dormitórios. No inverno forma bandos mistos com os estorninhos-malhados. Durante o dia pode ser vista com frequência pousada em fios e em telhados, com uma postura erecta, ou a alimentar-se nos campos associada muitas vezes a bandos de abibes e tarambolas-douradas.
    Estorninho Preto - CERVAS-Centro de Ecologia, Recuperação da Vida Selvagem

    Dos estorninhos pouco mais sei que são pássaros pretos e que atacam figueiras em bando. Nunca os vi atacarem a figueira aqui ao lado. Não sei se por ser distraído, se por eles não atacarem figueiras quando estou a olhar. Para uma figueira de figos pretos, a única que ouvi relatos de ser atacada desse modo. Ou por se parecerem muito com outra respeitável espécie residente, os melros. Há cada melro!

    Se aos estorninhos é permitido tal (não é um banquete para poucos, é uma figueira para um bando...), é porque certamente o mereceram. Ou não? Cai por terra a teoria das refeições de borla? Por não serem migratórios e esta refeição ser uma das que tomam para sobreviver, já não precisam? Tem que procurar figueiras com figos comestíveis, para os comer. Elegerão as melhores, ou vão varrendo a zona?


    Porque se reúnem no Verão em bando e comem toda a produção duma figueira? Em vez de a comerem toda, de igual modo, mas mais pausadamente, distribuindo-se pelas figueiras existentes?

    Deve ser por bem mais do que me dar assunto. Embora me dê muito assunto. Assunto para os estorninhos que se habituaram assim a ter refeições na figueira. Contam encontrar as figueiras cheias de uma maravilhosa colheita de figos pretos, grandes, como é aliás, dever de uma figueira. 

    Julgar-se-ão injustiçados se as figueiras não ostentarem tais iguarias? Quem lhes criou a ideia de que os sustentava com uma bela colheita de figos tem que continuar a fazê-lo. Foi isso que os estorninhos aprenderam quando eram pequenos, na idade em que se aprende facilmente tudo.

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    ainda não é

    30.04.14
    o rumo certo
    onde está o rumo certo?
    o que é o rumo certo?
    o que vais fazer amanhã?
    o que fizeres amanhã
    por si
     vale duomilionésimos 
    não tenho paciência
    para aquela poesia
    acho-a rebuscada
    toda a gente sorve 
    néctares 
    fica macambúzio
    não há moscas
    no seu assustador
    voo sujo
    nos poemas só me doem
    os braços
    não tenho ninfas
    não tenho musas
    gabo-me de um cicatriz
    que ainda não é
    e de correr 
    descalço

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    Devia ter assim uns textos de reserva para estas ocasiões, em que vontade é a de sempre, mas ... e permaneço aqui nas reticências, completamente vegetal, sem esperar nenhum raio que me ponha a escrever a muitas palavras por minuto.

    Arrastam-se as palavras, sem encontrar um rumo, sem saltar de assunto, sem me entusiasmar e tal acontecimento produzir mais frases, até à vitória final. Qual vitória final? Não é nas vitórias que conhecemos as pessoas...

    Aventuro-me a vir aqui, e vindo, ter que publicar. Espero que as frases me possam transportar para um novo local, onde ainda não tenha estado, e tal descoberta me encher de satisfação, nem sempre. Por vezes. Menos vezes do que desejo.

    Posso dar conta da sensaboria, da desinspiração? Estou a utilizar critérios muito pouco objectivos. Estou a dizer que o que escrevo sob determinado entusiasmo é melhor do que isto. Não tem que ser. Eventualmente não é isso que determina a felicidade do texto. Já tenho escrito muitos que não dou grande valor e são mais apreciados que outros.

    Ainda bem que todos podem fazer a sua escolha e o seu juízo. O resto são confissões de  

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    Desculpem lá! Interrompi alguma coisa? Eu queria era ir lavar os dentes. Agora tenho que encher o espaço? Uma regra nova? Quando se entra num draft tem que se ... e com letras legíveis e com ideias claras? A esta hora? Ideias claras só me ocorre a lixívia, mas ficam a faltar na mesma as ideias. Ideias para quê? Para te empanturrares de tiradas, para exerceres o livre espírito? Apenas por isso? Se é para te divertires então vai para a cama, vai. Já lá devias estar a não dar umas gargalhadas com a sorte daquela tropa fandanga na ilha de Pianosa, que aquilo não é sempre diversão. Morrem pessoas nas guerras. Mesmo sendo personagens fico triste. Imagino muitas pessoas que contribuíram para aquelas personagens, com a mesma sorte. Hoje estou assim. Com pena deles. Nunca tinha tido pena deles. Até agora tinha sido um divertimento. Quem me manda vir para aqui? E agora com essa regra estúpida de não se poder voltar para trás, ser obrigatório escrever, senão fica publicado um post em branco. Porra! Não se pode escrever estúpida e porra, aconselhamos o uso de uma linguagem menos informal. O que é que isto me faz lembrar? Não é nada a censura, é pior, é um corrector com a mania das grandezas. Dizem que isto de se ter que publicar é para não gastar o rolo. Que isto não é como penso e é para usar à vontade. Eles é que sabem.

    Pronto! Estão satisfeitos? Não fico à espera de resposta.

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    Acabo de baptizar o inominado. Acabo de beber um chá verde com mel. Acabo a noite. Quando mais um dia tiver sido riscado desta versão de tempo, que me fatia o tempo deste modo. Não vai ficar registado que foi segunda-feira. Uma a sério. 

    O mundo não girou de forma diferente. Nada de relevante passou por mim. A síndrome da segunda-feira é isto? Ou é telha? São a mesma sensação? deturpada pela linguagem?

    Não está na minha vontade escolher este estado de espírito. Ainda não foram inventados aparelhos para isso. E o prozac? passa-me ao lado isso. Para uma segunda-feira. 

    Não se fica zangado sem motivo, voluntariamente. Tenho que me defender. Não me agrada nada este assunto. É o meu lado pior, visível. Quem me conhece sabe.

    São os sons que me perturbam. Determinados sons. Um ar que deve ser do piorio. Ar de muito para fazer e de segunda-feira. Irritadiço. Sensações físicas objectivas, de mal-estar. 

    Um mal que se propaga e pode tomar contar até da maneira como raciocino? 

    Depois das acções do primeiro parágrafo senti o acalmar próprio de quem (?!)...

    A zoeira e tudo o resto que nem consigo em mim identificar continuam por aí. Queria uma saída airosa. Não foi assim tão mau. Até estou por cima. Controlo as telhas (?!!!)...pronto, tento disfarçar quando me dou conta...

    Triste sina de quem aspira a controlar só com o olhar...se nem as telhas mantém no seu devido lugar.


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    A assinatura do Hamlet'i foi hoje aposta num conjunto, estranho, abstracto. Não foi à primeira que ficou pronto. Sofreu algumas transformações. Lá está, sítio discreto, a baixo relevo: H'i

    Não tem nome. Ainda não me surgiu nenhum nome para o boneco. Quando surgir fica baptizado(a). Tenho peças que permanecem nesse limbo. Só agora percebo que tais peças correm o risco de não ir para o Céu... 

    E não é pela gravidade, nem pelo peso, que isso pode acontecer. É porque não estão baptizados, os bonecos. Não baptizados numa fé, mas ao menos ser-lhe dado um nome. Má criação minha?

    Por causa disto dou comigo a confundir conceitos de peso e gravidade. Se a gravidade é a força que nos atrai para a terra (não para a realidade), então o que é o peso? O peso de um objecto não engloba uma percentagem dessa força? A força da gravidade perde eficácia com a altitude? 

    Ainda não é hoje que vou resolver isto, nem a questão de ser possível colocar ou não um ponto final em itálico...

    No entanto, o tal conjunto inominado e com imensas probabilidades de não ascender ao paraíso (nem o das pedras, foi cancelado pelos elevados custos da ascensão). Aproveitei para expor uma situação teológica, a do destino imediato das crianças que não foram baptizadas, dada a sua efémera vida.

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