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Government Bureau, George Tooker, 1956

Está tudo inventado. Ainda me lembro de ir a repartições com estes postigos. Tive que ir procurar a palavra portuguesa. A mim lembra-me, uma repartição militar, em Coimbra, ou até o meu local de trabalho ter destes vidros.

Hoje, estamos todos habituados a não dar com esta separação. Com esta opacidade. Continua lá, no entanto, sem postigo. Permanece nesta relação do cidadão com as repartições governamentais toda a opacidade.

Ninguém lê todos os códigos e regulamentos, a não ser quem os faz e quem os corrige. Ou melómanos. Não sabemos nada do que se passa nos corredores, na mesma. Eu, estando atrás daqueles postigos, posso confirmar tudo isso. Não posso ir além disso. Toda a opacidade permanecerá sempre para os eventuais. Apenas os que todos os dias se debruçam sobre isso, podem almejar perceber tal opacidade. Percebendo-a, sou parte dela. Passo a ser eu próprio, opaco? 


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«De modo que, depois das prostitutas, dos vendedores que operavam nas esplanadas dos cafés, dos apanha beatas e doutra malandragem menor, decidira atacar os pedintes, aquela raça tão pacífica mas tão enraizada que nenhum conquistador, antes dele, conseguira exterminar. Era como se quisesse varrer a areia do deserto.»
pág.8A VIOLÊNCIA E O ESCÁRNIOAlbert CosseryTradução de Júlio HenriqueEdições Antígona

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Uma conversação de duas moscas ao canto do ecrã é acontecimento de registo. Uma delas entretanto desistiu, alertada de perigosidade. Da toxicidade. Da mistura do suor com o riso. Voltou. Parece que tenta convencer a que cá ficou ir-se embora. Isto não é local de frequência para uma mosca. Nem eu o devia estar a frequentar a esta hora. Deve ser por isso que não me importo muito com as olheiras, nem com o fim da linha da lista de músicas. As moscas permanecem por ali, já não sei se não estarão em meditação transcendental. Tento atrair a sua atenção com o apontador do rato; permanecem quietas embora uma delas coce as patas e movimente as asas. finalmente engalfinharam-se e umda delas abandonou de novo o terreno do jogo, não sei se a mesma de há pouco.

Quando me preparava para me regozijar com o facto de serem menos duas moscas a esvoaçarem um pouco, a chatear-me a superfície sensitiva da minha pessoa, pouco apessoada. Bem ouço uma, de vez em quando, irascível...

Voltou a restabelecer-se um par de moscas, nem me deixam reflectir nas consequências transcendentais da espécie humana. Lutam num estranho bailado, visto nada saber de bailados em geral, muito menos de moscas. Não sei se o símbolo do blogger é que as está a atrair. Pode ser um algoritmo escondido. Para que as mosca ali se reúnam, para me deixar a mim em paz. 

Há muito poucos especialistas públicos de moscas em Portugal. E os que há nem sequer dão a cara. Deviam dar conselhos práticos para evitar tal companhia. Dar treino de fogo real para as pessoas que estivesse mais desesperadas. Com uma vertente de soluções ecológicas. E reclames de mata-moscas; é um ramo da produção que não evoluiu nada. Os mata-moscas continuam a ser um objectos de plástico pouco belos, embora eficazes, para o fim nobre de manter em sossego esvoaçante. 

Deviam utilizar o acelerador de partículas para inventar um ultra-som eficaz, que as afastasse da vista e sobretudo do contacto com a nossa pele e o cabelo.

De qualquer modo eu tive um vislumbre durante a descrição que acabo de fazer, que me escapou, tão rapidamente como a outra mosca que agora desapareceu dos radares. Nunca por muito tempo, há sempre uma mosca disposta a tomar o lugar da que acabou de esvoaçar dali. 

Deve ser uma estranha atracção de luz ou outra simples explicação, que se pode encontrar ao lado numa pesquisa. Tenho a esperança de que ao reler esse vislumbre me ocorra de novo. Foi antes de falar sobre (lamento, parece até que se passam por aqui obscenidades deste lado do ecrã, neste submundo). Este ano há imensas moscas. Não fui treinado para esta demonstração de força de um elemento, aparentemente de desprezar. Ouso até interpretar gestos dessa espécie como se estando a borrifar para o que o se passa aqui e sobretudo sobre o que é dito sobre elas. Podem-se até sentir-se ofendidas. Mesmo minúsculas, tenho que as continuar a matar, apenas porque me vem aborrecer. É uma estupidez! Eu tenho sempre a auto-defesa como argumento.

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Há mesmo frases que se destinam a não ser ouvidas. São aquelas que nunca são ouvidas. As outras que se destinavam a tal fim, quando ouvidas, estão definitivamente arredadas. É tão comum que lhe chamam oportunidades perdidas para estar calado. E quem nunca passou por uma oportunidade dessas e não foi capaz de resistir, mesmo sabendo que iria ser isso mesmo. Uma oportunidade para estar calado. Eu próprio dou testemunho da quantidade de tretas que se podem inventar, para entreter a malta. Está tudo inventado, o que faço é apenas cair na ilusão que invento algum pensamento novo. E logo pensamentos. Desses que suponho que são novos. Com tanta gente a pensar desde que pensamos, como pode alguém presumir isso? 

Há imensas proposições que faço, convencido de que são dos tais pensamentos inovadores, que venho a verificar, que outros daqueles que registaram alguns dos seus, por si ou por interposta personagem, ou pseudónimo, dizem o mesmo. Não tenho a culpa de ter lá chegado, até porque chegar a essas proposições me parece ser de todo alcançável a quem dedique algum tempo ao assunto.

Será a maneira como o dizemos e o tempo em que o dizemos. Dos que dizem o que não devem, desde a aurora do pensamento humano, deveria haver até uma estátua, como a do soldado desconhecido. É da mesma realidade e duma dimensão maior que posso estar a falar. Sem falar de números oficiais de extermínios.

Não passo de uma personagem, dessas perfeitamente catalogadas, que remoem ódios. Lhe dedico tempo suficiente para que frutifiquem. Não será assim que não os vou levar a sério.
Pode mudar no meu íntimo tudo, sem que isso transpareça? Em tipos como eu, nem bigode tenho para me esconder, nem um bordão que divida as águas, para prosseguir sem estrilho. Posso tentar esconder mostrando tudo. Deixar perplexidades e perguntas.

Não percebo, como Yossarian, porque me querem atingir.

Os papeis escritos nas cápsulas de morfina, que deviam ter aliviado o cabo Snowdden, que de resto apenas se queixava do frio, em vez da morfina, são partidas de que me posso rir; romanescas. Rir-me de mim próprio está cada vez mais fácil, na teoria. É que nem me estou rir para dentro. Estou numa espécie de transe atento a tudo o que seja o essencial.

O resto é que há um Yossarian perplexo, sem conhecimentos de socorrista, que faz o que pode para aliviar o cabo Snowden, embora duvidando imenso de que estivesse a fazer algo de muito útil ao pobre cabo. Escrever é o plano B não planeado? Daquele que correm mal? Eu que só gosto mesmo é dos não planeados que correm bem. Agora já não há planos. O respectivo gabinete foi extinto, apenas porque verifiquei que não serviam de nada, aplicados a mim, esses planos. Tantos planos. Até todos os planos frustrados me deixam nesta indiferença sorumbática. Uma cara de serviço. Uma pose de serviço. E depois o quê? Um cafezinho na Brasileira ou da Brasileira ao entardecer resolve tudo? Versos esgalhados a caderno puído, mesmo sem pose. Entontecer de sono a tentar sobreviver de filosofia romanesca. De exemplos pouco recomendáveis. De combates pouco edificantes. De rotinas compulsivas. Onde me levará a compulsão. Resta-me não temer pelo futuro destes cadernos puídos, como os livros de cabeceira que não tenho fisicamente, embora nunca me abandonem.

De não ser preciso apenas a nossa alma solitária para permanecer nesse canto. Nunca tive a mínima possibilidade. Falei das borboletas da (in)felicidade. Nunca falei do percurso de todos os eventos que, desse voo minúsculo e insignificante, uma bola de neve de equívocos me levam para onde.

As paredes dos ministérios estão tão bem protegidas como as dos mosteiros, do sono profundo do seu esquecimento. As paredes dos conventos hospitais para loucos esqueceram tudo o que presenciaram. Toda a gente tem que dormir para esquecer. Tenho que dormir mais para mais esquecer?

Dou como adquirida toda esta proposição do apagamento. Melhor apagamento do que um bicho furtivo, que se furta ao convívio com as pessoas, a viver na sombra, a invejar os bandidos.

Há muita coisa arrumada que podia jamais ter sido arrumada. Que triste e patética colecção de riquezas. Talvez num bazar de caridade, frequentado por míopes, fosse um sucesso. Talvez fosse a Sintra. Posso ir onde quiser, numa frase. Grande realização.

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Bastou ler aquelas linhas na contra-capa para ficar de novo a dançar. Enquanto ele escrevia pausadamente. Tanto veneno demora mesmo muito tempo a destilar. Porque se trata de um veneno, no sentido em que levado ao extremo, poder, transtornar uma alma.

Almas transtornadas é o que poderá por ai haver em tanta abundância que transtornar uma alma seja banal, no seu resultado. Quem falou de transtorno foi Cocteau, certamente influenciado pela desintoxicação. Faltar ao emprego no dia seguinte é uma consequência muito difícil de conseguir, até para grandes escritores, ou para escritores que admiramos muito.

Faltar ao emprego é uma consequência mais concreta do transtorno de alma provocado pela leitura de um livro. Ninguém pode pedir tal preço por gostar de um livro. Passaria mais tempo no desemprego.

Não os levar a sério não é assim tão fácil. Para mim não é. Não vivo de certezas, é bem certo. Estou apenas naquele momento em que, dado o empurrão, embora não tenha sido efectivamente dado, treino não me estatelar no chão. Nem todo o treino mental para isso me fará evitar qualquer resultado. O resultado já está feito. Faltam os pormenores.

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As badochadas do costume nos locais do costume. Dos livros que decoravam a estante saíram os que lá vão ficar e os livros de cabeceira. Todos os outros, que nunca li, ou que não tenho vontade nenhuma de ler; muitos dos que não leria nunca segunda vez. 

Que valem eles senão fazerem peso? Um alfarrabista, se conhecesse algum, talvez me pudesse ficar com eles. Isso só há longe daqui, por isso ficam ai à espera de um destino. Ficam no embarcadouro.

Há realmente uns quantos livros que já não sei quantas vezes reli ou retornei. Leio de vez em quando o O Livro do Desassossego, como leio outros. Esses estão naturalmente escolhidos, como de cabeceira.

Afinal, trago tantos livros em mim que, para além daqueles, poucos, que me podem valer,  numa aflição, que jamais os poderia ter todos fisicamente.

Comigo só está a marca deixada. Embora nunca tenha faltado ao emprego, no dia seguinte, por isso.

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Podia encher isto das moscas reais que aqui esvoaçam. Não pousam para se instruírem, ou para se envenenarem. Espero que não me sigam para o quarto para espreitar A Violência e o Escárnio, um dos oito livros de Cossery. Foi o primeiro que apanhei a preço módico.

-São talvez as que eu próprio sei.
-Sem dúvida. É por isso que aqui estou, e é por isso que podemos falar com toda a franqueza.
-Diz-me então a primeira dessas coisas. Sou todo ouvidos.
-A primeira é que o mundo onde vivemos é regido pela mais ignóbil quadrilha de tratantes que alguma vez pisou o chão deste planeta.
-Subscrevo por inteiro essa afirmação. E a segunda?
-A segunda é esta: acima de tudo, convém não os levarmos a sério; é isso que eles querem, que os levemos a sério.

A. Cossery “A violência e o escárnio”

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29.05.14
Um feriado mais cansativo do que os fins de semana. Viajar com propósito e sem propósito. À espera de pândegos que já não viriam, depois de se terem inteirado. Esclarecimentos simples e necessários. A face humana e respeitável.

Jack Buttler Yeats - O Connel Bridge

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A seco e num amanhecer em tudo igual aos demais, não fora não ter que ir trabalhar num dia em que os outros vão quase todos. A Terra Média não é o Vale Fértil, não existiria como existe se dormisse em vez de me levantar bem mais cedo do que hoje, tantas vezes ainda de noite, com a ânsia de construir, de embelezar.

Como todas as boas armadilhas, muitos desses trabalhos de pedreiro, de agricultor de trazer por casa, de inventor de meia tigela, só trouxeram novos trabalhos, a efectuar periodicamente, que se foram avolumando e tomaram o meu tempo.

Até ter começado a libertar-me de algumas dessas preciosidades. Não queria ficar tão triste ante a perspectiva de abandonar a Terra Média; quem se liberta de algo a que se deixou, em certa medida, escravizar (como o vejo agora), ou apaixonar (como o vivi na altura), é sempre ser traumático despedir dos quadros que construí, das árvores que plantei, dos cantos que embelezei. Daí talvez aquela poesia toda em torno de uma maravilhosa colheita de nêsperas.

A única certeza é de que o empurrão dado me obriga a ir para a frente, a tentar equilibrar-me, para não dar com as fuças no chão. De preferência equilibrar-me o melhor possível, sem me estatelar. Não gosto de quebrar ossos, como ninguém gosta.

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A música aquieta os loucos. Ou os sobressaltos da mente. Se aquieta loucos e me aquieta será porque desejo aquietar-me. Não é por ser louco A esta hora é de todo meu desejo aquietar-me. Música em estado liquido, com todo o peso do dia a ser menorizado pela água. Podemos boiar um pouco, esquecidos de nêsperas e de cerejas, apenas preocupado com os dentes e a limpeza dos espaços inter-dentários. 

Depois daqueles íngremes quilómetros, que apenas me parecem isso pela falta de comparência. Já subi aquela subida em muito bom andamento. Era até um dos locais onde era mais confortável subir mais velozmente. Quando estava em boa forma. Agora são horas de lavar os dentes.

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