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Para além de não me apetecer, e isso foi determinante, dar oito euros para vir para casa. Aparentemente ninguém tinha telemóvel ou estava perto do telefone. Para alguém me vir recolher. Há boleias que não esperam. E fazem bem. Quem precisa tem que estar a horas, se estiver em condição disso, evidentemente. 

Vim por aí fora a remoer umas raivas (dessas que são impossíveis de obter vacinas inoculadoras, enquanto fingia interessar-me pela natureza e por alguma sardanisca a esgueirar-se. 

Podia ter ficado numa esplanada, armado em Cossery, a registar. A reflectir no que via. No entanto uma hora não é nada para um estudo desses, até chegar às entrelinhas é necessária muita observação, muitas horas de estudo não convencional. 

Nesse estudo alguém se encarregaria de me dar boleia. A boleia que me dei conta que não ia precisar porque queria ir a pé, porque isso me daria prazer e me acalmaria da tensão.

Estava uma maravilhosa colheita de nêsperas à minha espera, a tirar da árvore, como convém. Sabem-me melhor porque fui eu que a vi e a trouxe para ali. É uma árvore que não dá trabalho nenhum. Deve estar é onde não incomodem espalhando folhas para eu varrer, como uma que tinha aqui ao lado, e quanto muito, dava umas amostras de nêsperas, como a cerejeira. Aquela só dava folhas.

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Hoje sinto-me mais confuso, errático, desnorteado, do que é habitual. Daqui a bocado já me passa. Quando tenho visitas a quem expor toda a mundividência dos meus pontos de vista, e ouvir os pontos de vista deles. Visitas físicas e pouco usuais. Mais esclarecidas em muitos temas que eu próprio. Memórias mais frescas e mais exercício mental. 

O meu segmento é diferente, é por isso mesmo menos ditado por conhecimentos profundos de história, ou de qualquer outra disciplina. Certamente teria mais cuidado em escrever muitas dessas patacoadas que escrevo, que atestam bem a minha ignorância. 

Isso não me tem afectado de maneira nenhuma a prosseguir teclando. Sem um sentido definido, sem nenhuma história envolvente. Sem destino. Com um bilhete na mão, sem dizer Contenças ou Lisboa-Santa Apolónia. Sendo o que posso fazer nos serões azuis, se bem que a pancada, seja a na cabeça que me fez desembocar aqui, ou a pancada que dou, quando é apenas encontrar o tal caminho.

Ainda tenho decisões importantes para tomar. Ainda nem estou tão velho, nem tão sábio, que já não valha nada o que sei. Daqui a uns tempos direi saber o que sei, agora, e não o que saberei. 

Como o bilhete não indica o destino, o revisor deixa-me andar por aqui sempre. Se aparece uma máquina automática de validação de bilhetes posso ficar tramado.

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- Ainda perguntas? - indignou-se o guarda. - Não vês que estás a dormir debaixo da estátua do Despertar da Nação? Respeitinho, ouviste? No rosto sujo e cheio de rugas do homem, apareceu uma expressão de cansaço, como a admoestação do guarda lhe chegasse de uma distância incomensurável, sendo necessário um esforço sobre-humano para compreendê-la e assimilá-la. Fechou o olho e respondeu com morosa gravidade:- Temos tempo. Quando tiveres acordado toda a nação, vem-me dizer. Porque é que eu havia de ser o primeiro? E voltou a adormecer.

Uma Conjura de Saltimbancos
Albert Cosserypág. 153 - Edições AntígonaTradução Ernesto Sampaio



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É apenas mais um entardecer, um lusco-fusco, que aqui se desenvolve há mais tempo do que consigo imaginar ou situar. Nem sempre esteve aí esse castanheiro e vai continuar aí, a encher o horizonte da janela de verde. Vejo-o obliquamente daqui. Uma nesga perturbada pelo piar do pássaro e das variedades televisivas.

Preocupar-me com mundanidades ou com stress pós traumático de guerras passadas. Nunca fiz nada para me desprender. Passei a vida a prender-me. Talvez me pudesse ter convencido que a prisão seria o local onde conheceria a felicidade, sendo mais que certo, que nada sei acerca disso, do que é a felicidade. Sei que a felicidade é não esperar nada de nada de ninguém.

Não porque não existam pessoas que me dão o que podem dar. É apenas para resguardar dos desapontamentos.

Onde há pessoas há problemas, onde há muitas pessoas há muitos problemas. Disse-me alguém por experiência própria de vida. Evoco-o porque me parece ser quase uma pessoa feliz sem história.

Não há pessoas felizes sem história. Há uma história que começa a ser contada cedo, para não haver história, e nem grandes traumas abalam um equilíbrio de vida. Há quem saiba o que quer e para onde vai. Não admira que permaneça no trilho.

Tenho que me preocupar com aquilo que posso celebrar da vida. Fazer brindes de votos não faz sentido. Faz sentido celebrar.

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Não sei se demorei demasiado tempo a perceber a maneira de lhes resistir. Eu não vou fazer sozinho nenhuma revolução. O povo também não a fará. Foram raros os momentos em que o povo se ergueu para se libertar da opressão. E fazer-lhes frente não vale de nada. Seria esmagado tão eficazmente que nem davam por nada. Nem dizia um ui! 

Também sei isto. Sei  que o que digo nada vale e não incomoda sequer quem devia incomodar. Eles estão a borrifar-se para mim e para todos como eu. O facto de ainda poder verter tudo isto aqui prova bem que sou inofensivo.

Que ladro muito e nunca mordo. Também não tenciono nem queria verdadeiramente, morder. Deitar o dente a um livro é bem melhor que morder. Até porque esse contacto pode envenenar-me ainda mais. 

E como tenho medo de sair da gaiola dourada onde tenho vegetado, trabalhando afadigadamente, para que os interesses públicos, os interesses privados e os interesses público-privados me comam não só o espírito, como a carteira, terei que os continuar a aturar, enquanto legalmente me tento libertar. Digo legalmente, porque eles até o papel de decidirem tem, de nomear os peritos, para fazerem avaliações para eles e com eles. E como é legal.

Estranho é que estão todos concentrados em mim neste momento. Não é nenhuma conspiração. É apenas o que fazem na vida. Não cheiram mal expressamente para mim. Cheiram mal. Cheiram-me mal. 

A estratégia era simples: esperava que, com a minha desvalorização, na bolsa da conformidade, não reparassem tanto em mim. Repararam. Vão continuar a reparar em mim. Eu nunca quis esta atenção toda. Sou avesso a popularidades e o que penso de tudo começa a não ser conforme o que todos pensam. Não esperava tanta popularidade. 

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Hoje vi um título na biblioteca. Tenho que entregar dois livros aos quais não me apeteceu enfiar o dente. A confusão, visível ao efectuar a pesquisa entre Yeats e Yates ainda me deu um pouco de trabalho. Não me lembrava do nome do título do romance. Sei fisicamente onde o encontrar na biblioteca. Ao menos isso. Enquanto via tudo menos um tipo que tivesse escrito aquele romance específico que quero cheirar, para ver se lhe deito ou não o dente. Não há assim tantos tão garantidos, é por isso que alguns se mantêm no seu estatuto de livros de cabeceira, mesmo não estando na cabeceira. Durante muito tempo o Livro do Desassossego não esteve lá, nem os outros todos estão lá. São tantos que teria que fazer uma cabeceira estante. Ou não, ficar com os essenciais, isso até me é fácil.

Muitos dos livros não os tenho na minha estante, não deixando de ser importantes. Muito importantes são os poucos que aqui tenho, porque são os que tenho, porque lhe posso enfiar o dente quando me apetece, ou numa emergência.

Há mesmo alguns de que não me separarei de bom grado, e não me lembro bem do que tratava O Poeta Assassinado, de Mallarmé - (?). É pequeno, por fica sempre entre aqueles que poderia eleger como de cabeceira. Nem sei onde ele está neste momento, teria que ir à procura de uma lombada escura, sem efeitos, com o título.

Sorte a minha, ter como companheiro de viagem um tipo como aquele egípcio. A fazer-me dançar a ponto de tentar perceber que para além de fazer sentido o futuro, porque pode ser mais próximo desse passo. Subir a montanha é isso mesmo. É abdicar e prosseguir com tudo o podemos levar sem ser na mochila. Nesta montanha não há sherpas a guiar-me e a transportar a carga, dos objectos que posso considerar imprescindíveis? O imprescindível sou eu, não todos os objectos que me rodeiam. Subir à montanha é sair da gaiola de conforto. Sair apenas; subir apenas; ir. 

Mesmo que o mérito não seja todo meu. São desígnios superiores, incontrariáveis enquanto constar da lista de pagamentos. Tento apenas que o que se vai passar não seja assim tão traumático quanto possa parecer. Todos os ângulos analisados. As perspectivas esmiuçadas, até onde é possível espreitar o futuro. O futuro sempre foi incerto. Se não fosse estava tudo muito satisfeito.

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The final cut

26.05.14



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O Ebay, respeitável site para compras, sobretudo se quisermos ir a uma loja de chineses, sem lá ir. Há um cheiro característico dos produtos lá comercializados, que parece perpassar todas as mercadorias. De todo o género. 

Demoram é muito tempo a chegar, as mercadorias. Por isso da última vez que comprei aqueles leds que se acoplam ao chapéu para uma voltinha ou para correr à noite (há quanto tempo foi isso?), mandei vir logo 2 ou 3. Até tive um amplificador que ficou retido na alfândega. Costum Verification. Ou algo do género. Devo ter guardado o envelope. Gosto desta bizarrices. Guardo os envelopes almofadados com os objectos necessários que não há nas lojas autóctones. É sempre free shiping. Em caracteres chineses.

Alguns destes equipamentos não há simplesmente há venda por perto. Nem sequer em Viseu ou Coimbra. 

O Ebay foi atacado e tive que mudar a palavra passe. Ando por lá a tirar saudades de máquinas fotográficas usadas, por uma pechincha. Por uma pechincha? Ainda há disso? Deve haver. Conheço pessoas que estão sempre a dar com pechinchas. 



O desgosto vem de não conseguir tirar uma foto como deve ser ao meu cadeirão. De tal maneira me sinto satisfeito com ele que, quando olho para ele, penso que quando me sentir um falhado, o que ocorre sempre que me sinto assim, terei nele um motivo para não ser um completo falhado, por assim dizer. 

Não quero empolar nada disto. A importância do cadeirão é apenas a que lhe dou por o ter construído melhor do que tinha pensado conseguir. De o ver daqui, por trás, e me sentir satisfeito. Bastante. Também só foi estreado ontem, é natural que, com o tempo, se não lhe começar a dar o destino para que o construí, então desfaleça este entusiasmo.

Como sempre, exposto às malhas que o império tece, entre não querer coisa nenhuma e gostar de tantas que tenho porque fui eu que as fiz. As ideias são o mais fácil de ter com paletes. O que custa verdadeiramente, podem as mãos e os braços e até o resto do corpo, dizer-me a mim. Não o dizem a mais ninguém que apenas vê o resultado final. 

Posso vender o cadeirão, mas este foi feito para mim, e isso motivou-me bastante. Motivou-me para ter paciência e ser persistente em eliminar todas as imperfeições que lhe encontrei. Hoje encontrei algumas. Apenas imperfeições de quem aspira à perfeição num determinado acabamento. Foi a perfeição do disponível. Dos abrasivos e do tempo.

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A estrear-me com uma maquineta chamada pirogravador, que pedi emprestado para gravar o nome do cadeirão. Nisto faço mesmo questão. 

Nunca tinha trabalhado com nenhum, sabendo o que realiza. Sendo uma maquineta barata, pode ser que a acrescente às minhas ferramentas. Escuso de fazer assinaturas com a Rebarbadora.

Uma vez que a sua utilidade se pode estender a outras utilizações para decorar as madeiras. Já escrevi Cossery no cadeirão, num local de fácil remoção. Falta Hamlet'í.

Não é tão fácil como pensava. É preferível fazer uso do mesmo quando estiver mais relaxado, ou mais disposto. Há sempre um tempo muito próprio para dominar, quer as ferramentas, quer a técnica que usamos com ela, que nasce do seu uso.

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Os entardeceres mais que frescos, bem vejo a neve no cume da serra da Estrela. Os divertimentos de Teymour e dos seus amigos, agora que se esqueceu do emprego na fábrica de açúcar, e se pode dedicar ao conhecimento profundo da sua cidade natal. Cairo provavelmente. Uma qualquer Cairo escrita em Paris. 

Todas as dores de todas as más posições e este ar respeitável de cidadão que se deita à meia noite, só pode dar em poesia errática ou em prosa errática. Sei lá onde me vai levar o próximo parágrafo, nem este... eu nunca sonho, ou quase nunca, quando durmo. Gasto a quota disponível com devaneios, a escarunfunchar ao redor e em mim mesmo; pranchas de saltos, e salto delas sempre sem saber se dá para um mortal ou apenas para me lançar em modo de bomba, para fazer estardalhaço.

É por isso que aqui é preciso um som de fundo de estado de espírito. Não deve ser isto a arte total; neste canto da Sweet Jane; E comer à pressa até que já não haja pressa, como agora. E de repente os tudo se consome mais depressa de novo, um novo som no horizonte, os caça tornados em frente ao fenómeno. O fenómeno é não haver fenómeno, pelo menos enquanto espero que entrem com a espiral, em preparativos para uma qualquer corrida de jogos. Percebem um pouco de música, para me desinquietarem assim a uma hora destas, em que já resvalava para o torpor que continuo a sentir, apenas abano a cabeça com o rock 'n roll, sempre a aparecer a hora improváveis, quando se não espera, apenas os olhos semi-cerrados em busca de uma absolvição que apenas eu posso ministrar e não sou ministro para nada.

Comecei mesmo para me divertir, numa cidade onde também aparentemente nada acontece. Sobretudo para quem procura sombras. Sentado num qualquer banco, é apenas necessário estar desocupado para começar, por causa do esvoaçar dum pombo; dum seixo transplantado para um jardim público, debaixo dos chorões, a chocar os desencontros com todos os que não querem apenas ser encontrados. 

O acto número um de um acto único; informal. Permaneço sequestrado por tudo e sem vontade nenhuma de sair. A alegoria do maldito inglês? Ele diz que não queremos sair, não preciso de sair já, a porta vai continuar aberta.

 

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