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Segundas-feiras

30.06.14
As segundas-feiras são sempre tramadas. Sobretudo porque de antemão sabia, que são tramadas. Dois dias bastam para o colocar a leste daquilo tudo. A segunda-feira é um retrocesso à realidade. A uma realidade que convém esquecer nos dois dias de descanso. Foi assim que formataram o tempo. Há pouco tempo acrescentam um hora de trabalho. Dão mais tempo para se fazer o que já se faz. A relação entre a produtividade e os gastos do que se produz nessa hora ,provavelmente não compensam. Foi uma maneira, entre outras, de dizerem que não gostam de deles. São secundados por todos aqueles que tem razões de queixa das instituições e confundem a núvem com Juno. Eles fazem o que lhes mandam fazer e se não o fazem melhor é porque não têm condições para isso. 

Só perceberá este síndrome da segunda-feira quem dele padecer por força deste formato de tempo de aluguer a uma profissão. É o formato mais generalizado. Que atinge maior número de trabalhadores. Não há maneira de escapar a este sentimento. Não se nota de igual maneira, poderia ser feito um gráfico com a intensidade do síndrome. A principal característica deste síndrome não oficial, é que custa muito mais fazer tudo o que se faz. Pior ainda quando as segundas-feiras tem mais acontecimentos para tratar. Do fim de semana. Os tais comportamentos devidos a elementos químicos que nunca se deviam misturar, mas que se misturam a toda a hora e não há soluções fáceis para estes convívios.

Passar roupa a ferro numa segunda-feira pode ser um feito notável, se não tivesse sido uma armadilha. Enquanto esperava por um compromisso entreteve-se a fazê-lo. O compromisso demorou o tempo de o fazer. Apesar de ser capaz de o fazer como todas as outras actividades, esta tinha sido uma que força do acontecimentos, nunca tinha praticado muito. Como é preciso ter paciência, acabou por ter paciência para o fazer sem isso tivesse significado alguma tortura. Mesmo o síndrome de segunda-feira não tinha sido um ponto alto no tal gráfico. Os gráficos são apenas ilustrativos. As segundas-feiras também.

A solução para este síndrome é fácil: bastava determinar que nunca se vai trabalhar, depois de um dia de descanso. Muito menos depois de dois dias de descanso (mudança de actividade).

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Podia dar-se o devido destaque à invenção do corta-unhas, dividindo o tempo antes e depois da sua invenção. Exagerar a importância do corta-unhas pode parecer ridículo. Mais ridículo de que ter que voltar atrás e corrigir a pontuação da palavra. Se não tivesse nascido com aquela língua nunca a aprenderia na íntegra. Sempre se tinha portado como um inepto gramatical. O ridículo disso pretende ser cómico, ao dar cabo da noção da importância de algo tão imutável como o calendário. Como se o calendário não pudesse mudar. Os corta-unhas são uns instrumentos de capital importância quando temos as unhas grandes. De que maneira eram cortadas as unhas antes da sua invenção? Acresce a meu desconhecimento absoluto em história prática. Jamais saberei toda a extensão da invenção do clipe. Toda a história do agrafador jamais a contará, mesmo que os bocejos sejam o aviso do regresso breve ao breviário de tudo o que não é simples. Receitas imponderáveis. Confusões evitáveis. Que faz ele tanto tempo a escrever para uma televisão? Não há ainda quaisquer notícias da frente que decide a contenda. Faz por não esperar impaciente. A impaciência de querer mudar tudo quando ainda nada mudou. Só a iminência da mudança. Não vai ser uma mudança para aliviar o andamento, mesmo sendo o terreno constituído por diversos relevos. Nem o olá aos relevos lhe fez mudar um alfinete em todos os clipes e agrafos que tomam decisões. A única decisão recente que tinha tomado tinha sido, por isso, cortar as unhas. Porque tal se tornava necessário. Apenas por isso. Para se livrar dos óleos e dos silicones de sobra, mesmo não sendo nenhum trabalho a devolver-lhe uma umas unhas de escrivão de teclados. Para além de dentes precisava de olhos novos um dia qualquer. O teste vencido de passar uma linha preta pelo buraco da agulha. Também tinha que passar pelo buraco da agulha. 

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Durante aquele jogo, de intensificação do esforço, sem motivo, em que se via empenhado. Sem uma vontade consciente. O hábito antigo de querer dar o máximo. Querer dar o máximo, porque só quando se está a dar o máximo se está a progredir. Para se dar conta disso quando o relevo começava a subir um pouco mais. Descontrair, pedalar com menos furor. Com menos tensão. Até de novo se empenhar em pedalar o máximo. O contador não tem importância para este acto. Quaisquer marcas que registe, nunca regista o verdadeiro esforço que vai a fazer. Fórmulas químicas de combustão rápida de açúcar. Respiração pesada. Gotas salgadas de suor na fronte. O azul das águas a entrever-se. O cheiro do eucalipto. Vai e volta, as curvas são suaves. O piso em alguns pontos permite ser rápido. Tudo isso em vez de se sentar naquela esplanada, sem reacções químicas tão exageradas. A observar a beira rio de um ponto geográfico qualquer. Não é um homem novo. É um ciclista. Veste-se como ciclista e pedala uma bicicleta. Não é um rio de delícias nem de agruras. É apenas um momento de escape. De sacrifício inferior ao deleite. Podia expressar-se com deleite dos passeios, dos bons caminhos florestais. Com terreno acidentado e dócil. Com o sol inebriante a reflectir-se no espelho das águas. Sozinho apenas por falta de comparência de todos os que poderiam vir.

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Destensa. Várias vezes repetida a frase. Alto em som ou em pensamento. Em vários momentos daquele piso cheio de xisto, a fazer tremer o selim. Ou pedras soltas a alterar o rumo do volante. Retirar tensão. Ímpeto. Quando dava o máximo possível, sem olhar para contador (recuperado por um golpe de vista. Guardado ao seco durante o inverno). Passar a pedalar regularmente, sem sobre-esforço. Um braço de água. De um lado ao outro são duzentos metros de água. No caminho florestal que circunda essa língua de água. Primeiro rolou para lá e retrocedeu quando o caminho começa a subir. De novo o jogo de Destensar, de vez em quando. Sentou-se naquela esplanada. No único local onde se senta para beber uma cola. O vento abana as folhas das árvores, parecem primos dos carvalhos, o chão é em calçada portuguesa. Ouve-se falar inglês. Podia ter trazido um livro e ficar por ali. Impossível permanecer mais tempo, olhar para as pessoas que por ali permaneciam. De novo o caminho florestal e aquela subida, que era menos íngreme que o alcatrão por onde tinha vindo. Uma subida a escalar bem, feita sem recurso à avozinha. Em esforço controlado. Com troços mais íngremes. Termina numa pocilga. Pensa nas costeletas dos supermercados, que não cheiram aquilo que está a cheirar. Os antigos e emocionantes caminhos florestais levem-no para um que tem uma ponte bastante forte para a importância daquele caminho. Cujos acessos lhe lembraram uma Via Romana. Numa bifurcação optou pela novidade e à terceira bifurcação descobriu um novo caminho, mais a oeste. Vem desembocar em bom sitio. Quando se pedala por gosto todos os caminhos desembocam em bom sitio. Ainda foi fazer mais uns quilómetros para compor o contador. 

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Talvez fosse possível reduzir aquele frémito de descontentamento,  a uma série encadeada e/ou simultânea de reacções químicas. O aborrecimento provocado pela contrariedade acontecida. Uma contrariedade banal. Daquelas que acontecem a toda a hora, como esquecer-se de um talher na marmita, ou não encontrar o parafuso certo para apertar, ou o lápis, ou não ter o ingrediente para cozinhar.

São uma sucessão infindável de reacções químicas. Complexas e simples. As simples são fáceis de entender para uma escolaridade obrigatória, embora possa não provocar resultados simples. Nem seja simples reduzi-las a essas reacções químicas. O mesmo acontecimento provoca diferentes resultados em diferentes pessoas. Cada um possui, portanto, as suas próprias reacções químicas ao mesmo acontecimento. Um químico com veia literária podia contar as histórias dos romances em reacções químicas, uma espécie de braille para cérebros científicos.

A personalidade daqueles tipos todos, mesmo os que perguntam as horas, pode ser expressa em símbolos de elementos da tabela periódica, são parecidos com aquelas experiências em laboratório das professoras de física-química. Daí que todos os que eram problemáticos e saem da norma sejam apenas reacções acidentais de elementos que nunca se deveriam tocar. 

Esta maneira de olhar para os comportamentos lembra-lhe outra panaceia, para explicar o que a falta de conhecimentos teóricos, lhe impediam de poder explicar. Os algoritmos, sobretudo aqueles desenhados para estudarem e guardarem o que fazes na caixa mágica. Um telefonema pode abrir uma caixa de pandora. As caixas mágicas podem ser caixas de pandora. 

Um biografo-químico teria muito trabalho para fazer ao descrever uma paixão amorosa. Seriam páginas de intensas reacções químicas. E cuja imprevisibilidade e rapidez de sucessão são estonteantes. Demasiado complexas para esse escritor de fórmulas químicas do ser humano, as pudesse com alguma fidelidade, reduzir a escrito. Seriam organogramas de reacções, algumas em cadeia, a ocorrerem em vários centros nevrálgicos da complexa rede de acontecimentos químicos, de que eram feitos. 

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Fabio Viale - Mona Lisa de esferovite, em mármore
Andava por ali a pairar, na manhã de sol que se tinha tornado macilenta, uma nova personagem. Começava a ser uma galeria de personagens interessante. Todos eles sempre em contra ciclo com alguns valores inquestionáveis, como o trabalho (a família do Vale Fértil e o pândego da Conjura de Saltimbancos, que não aceitou o lugar na única fábrica de cimento) ou até toda a maneira de olhar para a civilização. A sociedade de consumo molda as acções humanas há tanto tempo que se deve ter inserido no ADN e apenas alguns felizardos lhe conseguem escapar. O próprio ... lembra-me o autor ter um pai cuja importância que dava a isso era pouca, embora vivesse disso. De ser proprietário. Seria um individuo conformado com os rendimentos que tinha, sem interesse por os aumentar, sem se afadigar por isso. Não terá ficado surpreendido por o filho querer ser escritor, desejo manifestado aos dez anos. Há muito de biográfico naquilo que escreveu. O quotidiano da vida que viveu foi de acordo com aquilo que pensava. 


Fabio Viale 
Há até entre os que estão no outro lado, um secreto desejo de que tenham sucesso, os conspiradores. Há quem esteja dentro de um sistema de valores e lhe seja fiel, e admire quem ande em outros.

Por isso Gohar, o professor universitário que decidiu ser mendigo, era a tal personagem que se começava a insinuar. Neste altura dos acontecimentos, já há bastante gente no salão, e nenhuma dessas personagens se esquece facilmente. Não prevejo altercações porque nenhum deles deve achar que as suas opiniões valham um desentendimento sério. É uma confraria de cépticos.  

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Máscaras

28.06.14

“Devido ao poder metafísico relacionado às máscaras, sua posse tem fortes implicações políticas. A posse do crânio de um inimigo, [sua] pele ou todos os trajes de um culto estrangeiro (incluindo a máscara) significa a sujeição e expropriação das filiações sobrenaturais de um grupo, deixando-o efetivamente sem defesa. Na América Central, portanto, a função primária das máscaras não parece ter sido nem apagar nem revelar, mas servir como vasos ou repositórios nos quais o númen era momentaneamente contido, para ser colocado em contato com o corpo dos vivos ou dos mortos. As vezes, esse contato transmitia suficiente poder espiritual para que as próprias máscaras fossem consideradas relicários. As máscaras simbolizavam a complexa coexistência de ‘rostos’ possível na fisionomia humana” (9) (imagem acima, detalhe da máscara em mosaico de turquesa a que se atribui representar, entre outros, Quetzalcaotl, Mixteca/Asteca 1200-1519).

Mascaras Astecas, Maias e Incas - Blogue Corpo e Sociedade

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Já tinha conseguido escolher o tipo de letra. Há horas que aquilo estava ali. A trabalhar silenciosamente. A gastar electricidade, por hábito, daquela janela estar aberta, embora nenhuma aragem entrasse por ela. Apenas se escoava electricidade. Podia ter o som ligado. Duas selecções sul americanas e o relato esplendoroso por ora bastavam. Todos aqueles nomes, Zapata, Quadrado, Baca, Cavani, Armero, lhe surgiam suficientemente estranhos, exóticos, para que ouvi-los pudesse ser um relato fora do normal. Algo que em cinema podia ser Mogambo. A forma apaixonada de jogar dos sul americanos agrada-lhe. Para começo de noite era o suficiente. As bicicletas estavam arranjadas e o automóvel tinha levado uma barrela geral, interior e exterior. Como compensação para excessos de zelo. Para não baixar a auto estima aquele cruzamento de ferros com plásticos. De anilhas e parafusos. Mecanismos. 

Tinha olhado para o símbolo, em baixo relevo, na parte traseira. Tinha-o imaginado tapado, tinha começado a suprimir plásticos. A retirar futilidades. Não tinha ido muito longe nessa imaginação, tendo em conta que se apercebeu da sua inutilidade e de que nunca iria fazer semelhantes modificações. Era até um pouco presunçoso pensar nessas possibilidades, tendo em conta que havia modificações mais necessárias a fazer, em primeiro lugar. Era por essas que ali estava, encostado ao barracão, enquanto esperava que tudo fosse verificado.

Modificações aliás não faltavam no horizonte, em outras áreas de negócio. Por isso até seria um exercício fútil. Aquela chuva matinal é que não era fútil. Tinha um propósito qualquer. Natural. 

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Bem me valeu madrugar. Não aconteceu nada como esperado. Ainda por cima não tinha madrugado. Para aquilo que precisava de dormir. Levantou-se três quartos de hora mais tarde que o habitual. Com essa sensação. Servir de despertador é pior ainda. A chuva não o incomodava. Teria sempre que fazer, mesmo que chovesse. São necessárias mais correcções. É para isso que servem. Para verificar o que há para verificar. Por vezes implicam com pormenores de menor importância. Nesses ficamos com a sensação de excesso de rigor. De qualquer modo fica registado. Tem que deixar de ficar registado. Corrigindo.

Nesta modalidade é mais um fim de semana para sujar as mãos de óleo, ainda que suposta ajuda, seja mais companhia. Os disparates que se dizem são por conta do entretenimento. A música, bem distribuída e audível em todas as enfermarias, seria impossível em casa. Ou muito pouco provável. Ali nem o incomoda. Como não o incomoda tudo o que, em casa, o incomodariam. Não vive na clínica...

É o preço, para além do combustível inflacionado com impostos, para ir visitar praias fluviais e vales glaciares. E de poder ir trabalhar todos os dias. Para poder ir ao supermercado (onde por norma há sempre lugares de estacionamento). Toda a organização da sua vida dependia do automóvel. Bem podia pensar em alternativas, mas ficava sempre a perder. Ali, ficava sempre a perder. 

São os pássaros o que ouve. Mal dava pela presença de pessoas. Logo de manhã também ouviu pássaros, e automóveis, pessoas que passam a trinta metros, cujas caras se divisam. Tudo aquilo era diferente dos fins de semana rotineiros. Toda aquela presença humana, embora não interagisse directamente com ele, era notada por ser pouco habitual. Aquilo era mesmo diferente.

Não desaparecia a sensação de ter madrugado. Embora não tivesse sido em vão. Se é uma obrigação para se cumprir, cumpre-se. Nem que seja fora de horas.

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