Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Para Fanecas Eustáquio, a arte de bem viver tinha no expediente de saber aproveitar uma das suas mais altas criações. No geral e para todas as circunstâncias. Se ia a um local distante e tinha que resolver dois assuntos, não ia duas vezes, tentava ir uma vez e resolver os dois, de preferência satisfatoriamente. Ou três, os que requeressem a sua resolução. Os que fosse possível resolver. 

 

Assim procedia no aproveitamento dos lixos domésticos, aproveitando o orgânico do lixo para compostagem. A arte da vida numa vida enfeitada e rotinada para encaixar em princípios de equilíbrio. Se tinha um ramo de flores para entregar a alguém que não estava, não o ia deitar fora, valia o sorriso de outra pessoa. Fanecas gostava de ser magnânimo. Era capaz de ceder um pouco do seu conforto para compensar algumas das trapalhadas que fizera na vida. Não sendo as decisões que contam, terá sido a maneira como as terá executado, que foi atabalhoada e aumentou a extensão dos danos. Tomara resoluções firmes quando já era esperado que não o fizesse, embora o horizonte dessa decisão tivesse pairado desde sempre. O Fantasma que atormentava Antígona. A quem atribuía toda a culpa dos seus dessa decisão. Uma Antígona de empréstimo, para dar respeito à personagem e lhe conferir a aura de importância que passa a desempenhar, merecidamente, nesta história.

 

Na procura do caminho desconhecido para a felicidade, ou para a perdição, Fanecas procurava as leis não reveladas dessa arte de viver, como o caminho para ela. Maximizar o proveito. Proveitos não materiais. Na sua ânsia de descobrir traía-lhe as previsões. Esqueceu-se que os sarilhos, as confusões, os imbróglios, também se juntariam por defeito de para lhe travarem a paz de espírito. Agora tinha-os todos ao mesmo tempo a pedir aquilo que julgam ser o seu quinhão.  Agora tinha diante de si, não uma amador do proveito, como ele, mas um verdadeiro profissional, de linhagem, para lhe cobrar um Sonho que lhe havia cedido. Aquele mundo que Deus tinha inventado para se divertir estava ali a pedir-lhe contas. 

 

Foi quando se viu assim num imbróglio que conheceu o outro lado dos resultados desta proposição do aproveitamento. A sua vida imitava a literatura? De repente era a sua vida que podia inspirar  uma opereta, com todas as contradições que se apresentam aos homens e mulheres. Com todas as teias de fatalismos de pessoas cientes dos seus propósitos. Pessoas capazes, no entender dele, de passar fome para manter algo que considerem precioso. Afinal ele era mais desprendido mesmo do que julgava. Da fome desprender-se-ia sem dificuldade. No entanto, não podia naquela opereta, deixar que o papel fosse o de ficar recordado como o estroina, o bronco, ou como alguém que fora magnânimo com aquilo que não tinha ganho com o seu esforço. Antígona culpava o Fantasma de lhe arruinar o Sonho.

 

Fanecas não insensível ao ponto de não reconhecer que a forma como executava as suas decisões causava grandes desgostos aos outros. Querer ser magnânimo seria a forma encontrada por ele de demonstrar o verdadeiro desejo de paz, de resolver tudo. De ficar quite a quem tinha reconhecido causar mal. Mas isto é uma opereta e fazê-lo ia ter o efeito contrário em outras pessoas a quem tinha igualmente causado desgosto no passado. Contradições entre o que sentia e pensava, insanáveis. 

 

Não existe a possibilidade de alterar o modo como as outras personagens sentem os desgosto que lhe provocou. Nem a leitura que fazem dos seus comportamentos. Ele é apenas uma personagem. Apenas o Autor tem possibilidade de o fazer. Esse nunca fala com ninguém e pedir-lhe uma alteração de uma linha no guião não é provável. 

 

Antígona vê a janela de oportunidade de causar dano ao fantasma. Numa luta tão feroz quanto subtil. Ataca de surpresa, usa de prerrogativas conseguidas pela aliança com o Vencedor. Aquele que vence sempre, por isso tem esse nome. Ao mesmo tempo aproveita e atinge Fanecas arrebatando-lhe o Sonho, quando ele o mostrava para o tentar passar a alguém capaz de o sonhar. Ele que oferecera de boa fé o que tinha em prol dele, e agora via a amabilidade transformada em golpe de teatro, a personagem atingida pelo desgosto tentava voltar, reclamando o que não era dela, ou cobrando a afronta. O seu aparecimento súbito faz parte da trama genial do espectáculo que é a vida. O actor convocado para suprir a falta, o Porteiro, ou o Ponto, não sabem o guião, como habitualmente, sabelo-ia o Actor se fosse a participar deste espectáculo hoje. A sua contribuição para a trama será sempre condicionada pela suas próprias limitações de não-actor. 

 

Aquilo que parecia ser um acto simples de desprendimento e de mudança do curso da vida, assumia os tais contornos complicados que dão profundidade a esta narrativa. Eleva-se à categoria de ópera pela intensidade dos sentimentos primordiais que convoca, mistura o material e o intangível. E tem o ritmo dramático certo para que as personagens sintam a gravidade do momento. Nem que seja por respeito ao Fantasma, não aqueles que guiam noite fora Fanecas na procura de uma solução para o bem de todos e adormecer na angustia do insucesso, mas um Fantasma que só existe nos relatos indirectos de Antígona, no qual Fanecas não crê, embora leve muito a sério que ela acredite.

 

Poder ressarcir os ofendidos podia ser um acto de libertação, se o poder para isso residisse na sua vontade. Fanecas temia que o seu comportamento futuro, no papel que desempenhava, fizesse dele cada vez mais o tipo que mantém o interesse em alta, que provoca terramotos com as decisões. Quando nunca tinha pedido tal poder. O Ponto fora repescado à última da hora para desempenhar este papel, ainda estava atónito pelo rumo do guião. Não augurava bom futuro àquela personagem, no sentido de acabar redimido do sofrimento causado devido à sua inabilidade para se adaptar ao mundo, nomeadamente este da ópera. 

 

Ele quando muito gostaria de ser o Ponto ou de fazer limpezas. Ver-se assim cooptado de surpresa para tão altas performances. Ter que enfrentar o poder renovado de Antígona, que reclamava compensação pelos danos sofridos, conivente com o Vencedor, o impávido de serviço. Aquele que não altera a beática atitude de descontracção, sereno assistente a toda a trama, porque sabe que qualquer que seja a sorte do personagens, fica sempre sempre a lucrar. É por haver assim personagens nas óperas e indivíduos, na vida real, que alguns florescem tanto e há tanto tempo. 

 

Fanecas sentia-se duplamente penalizado. Por pertencer aos que iriam sempre perder e ter a consciência amarga disso. E por saber que naquela conjura o Vencedor iria por trair igualmente o sonho dela, depois de darem cabo do Sonho de Fanecas. Desconhecia neste ponto do enredo todas as motivações de AntígonaAs que estavam para além das  que eram notórias e não precisavam de ser anunciadas. Daquelas que nem ela teria consciência de animarem os seus firme propósitos. Sendo uma situação com várias incógnitas, chegava a temer que o Autor lhe destinasse um acto tresloucado, para conferir emotividade à narrativa. 

 

Fanecas podia ficar refém da motivação de lavar a sua honra. Embora não fosse muito dado a dar importância a alguns chavões, o facto de se sentir atacado de surpresa e do inimigo ganhar vantagem por ora levava-o a defender-se como podia, esperando que Antígona não quisesse com aquilo que considerava lavar a sua honra, despoletar nele um desejo insensato  de deixar aquela vida de arrumador de pessoas atrasadas para figurar entre os homens ridículos que se desgraçam com atitudes imprensadas, em que deitam tudo a perder, vítima da capacidade que o mal tem para animar as pessoas para si de maneira inopinada. Temia pela sua capacidade de resistir. De não ser capaz de manter-se na órbita da racionalidade e da auto-preservação. Já que não capaz de levar por diante nenhuma filosofia de vida, prática, que o conduzisse a uma existência pacata de coleccionador de cicatrizes. Conformava-se, cansado já desta trama, nesse destino de velho cão briguento que lambe as feridas, no descanso de ter abandonado as aventuras em que se metia, passado o tempo em que as energias desordenadas o tinham como presente em todas as batalhas, valessem ou não a pena. Precisará este cão de ter memórias para se distrair, enquanto lambe as feridas. 

 

Neste ponto, em que todos os cenários estão lançados, Fanecas permanece ainda assim confiante de que escapará a um desfecho dramático. Que não tem o poder de remir um mal sem desencadear outra sorte de acontecimentos, de indefiníveis contornos, a perpetuar danos irreparáveis com a sua conduta. Sente-se no meio de uma luta que não convocou, para a qual não se preparou. Os seus sentidos estão apurados agora, uma vez que as ameaças são ameaças reais, daquelas que provocam sensações indesejáveis nas tripas (ou arrepios de frio violentíssimos), e não quer fornecer ao mundo o espectáculo da sua idiotia. O facto de sentir aquele ataque como traiçoeiro, pica-lhe o orgulho que ainda sente. Um orgulho que lhe parece legitimado pelo esforço árduo de enriquecer aquele Sonho que é última réstia de verdade que existe nele. Terá que impedir que façam do seu Sonho uma arma.

 

Querer à viva força um Sonho, na sua essência, legítimo e verdadeiro, para o transformar num pesadelo era, ainda assim, coisa que os fracos recursos de que Fanecas podia empregar, tentava utilizar para impedir, custando-lhe não a honra, mas mais dissabores mais prosaicos. Fanecas convocara a sorte. Tentara ainda passar o testemunho do Sonho para alguém o sonhar como ele desejaria ter sonhado. E ao mesmo tempo livrar-se de vez dessa tirania do pesadelo que agora se avizinhava. Pudesse ele não ter medo de pesadelos. Quem tem medo de Antígona?

Autoria e outros dados (tags, etc)

Saloio

31.08.14

« Eu! eu que me sagrei mago, que me disse anjo, que me outorguei dispensa de toda a moral, fui atirado ao chão, com deveres a cumprir, com uma ensarilhada realidade a viver! Saloio!» 

 

Adeus
Une Saison en Enfer

Jean Arthur Rimbaud
Tradução de Mário de Cesariny
Assírio e Alvim 

Autoria e outros dados (tags, etc)

...

31.08.14

Tendo então Deus, para gozar do duro trabalho da criação, achado tudo tão maravilhoso e perfeito, sabotou o próprio plano para se divertir. Deus gosta de se divertir. Se ainda não fomos varridos da face da terra, será porque continuamos a divertir o Criador de forma competente. Não conhecendo eu os Seus critérios, pelos meus o desempenho é excelente. 

 

Esta lógica da batata temporã pode conhecer outras interpretações. Talvez a ociosidade daquele sétimo dia e o modo como se manifestou tivesse condenado Deus a aturar-nos para sempre, em vez de se divertir.

 

Dirvertir-se um dia, depois da semana de trabalho, é reconfortante. Fazê-lo todos os dias subsequentes da criação até agora pode ter-se tornado tortura de Poe. 

 

Tem ainda o poder de nos arrasar e acabar com a tortura do extravagante espectáculo que lhe oferecemos, que pode divertir um dia, mas cansar depois disso.

 

Esqueço-me que Deus se gosta de Divertir e que depois de ter alcançado a beleza, a perfeição, mergulhou no tédio e sabotou a perfeição com esse propósito. Não quero que pensem que tento dizer que o belo e o divertido não se conjugam.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Para alguns florescerem tem que existir tipos como eu. Certamente que sim. Mas para ostentarem tanto poder não pode ser apenas à minha custa. Tem que se basear na existência de incontável gente como eu. Daqueles que nunca fazem bons negócios. E se alguma vez fizeram algum, do ou dos que puderam ter feito, foi por sorte. Por acaso. É por esta universal inabilidade para negócios que grassa desde sempre, a acreditar nos relatos, que resulta a desigualdade entre a sociedade. Embora haja outras. Esta dos negócios não foi sempre assim reconhecida numa classe, mas a rapaziada esfalfou-se a fazer negócios com o trabalho dos outros e conseguiu ganhar nome de classe própria. Também pode ser a isto que Darwin se referiria com o determinismo, agora não em bicos de pássaros, mas na geral condição humana. Abuso do que não sei para invocar e cuspo nomes para dar crédito às minha palavras. Para isso parece que tenho algum jeito. Todo o crédito do Pancadaria poderá ser assacado ao facto de não me render um tostão. Conserva a pureza intocada das fantasias. Das maluqueiras. Em vez de fazer canoagem ou para-quedismo. 

 

Já me conformei com esta inabilidade há muito. É por isso que fujo dos negócios mais que o diabo da cruz. Todos esses números da grande farsa que decorre, os folhetins são diários. Tornou-se tudo uma complicação. É sempre assim. Números são doces para bolsos gulosos. Atraem gente de todo o lado. Os abutres já se notam ao longe, já lhe senti o esvoaçar despreocupado. Ele há-de cair. Está maduro, pensarão eles; não pensando como nós, mas voando despreocupadamente, sabendo que é apenas uma espera, como tantas, em busca de alimento. Estes abutres tem esta conotação negativa porque se referem a outros, que embora esperem que a presa caia de madura, apenas se querem saciar. Estes querem um banquete. Quereria eu um banquete destes? 

 

Não tenho nada ensaiado para a circunstância. Depois de ficar maduro para o bico deles nada do que diga terá qualquer importância. Não vieram por aquilo que eu digo, vierem em busca de me debicar sofregamente as cartilagens. Talvez me comam os olhos.  Tudo porque não me adaptei às novas condições do progresso material, do dinheiro de plástico, dos nomes pomposos que significam mais um assalto ao bolso. E tudo porque cada vez mais abomino a opressão material, quando ela se materializa em pecado capital, eu que não acredito em tais pecados como capitais, apenas como insanidade ou como defeitos da criação, seja quem for que possa reclamar a autoria. 

 

Se fossem Deus mesmo, poderiam reclamar directamente a humanidade como criação, sem se envergonharem de alguns maus funcionamentos. Eu não reclamava e até sou um pouco desleixado nisso. E nos negócios, dirão outros, cuja sacra aura dos negócios deixa em sentido. Com os sentidos em pleno alerta. Deve ser por ser distraído que me arruíno nesses negócios em que intervenho. Não que queira retroceder ao caminho do Bem, dos negócios, dos naperons, dos sorrisos de conveniência. Sem ser por nenhuma razão em especial. Por ser mau dançarino em certos ritmos e nos outros não valer nada. Triste e patético. Pau mandado de si. 

 

As mortes que sucedem na vida assustam enquanto não as encarar de frente e com o mínimo de dignidade, uma vez que ela é certa, ter medo dela é apenas o gozo supremo que lhe poderia proporcionar. Estou aqui com os abutres já não muito longe, mas esse gozo de me debicarem os olhos aterrorizados de medo, não lhes vai ser concedido. Se algum dia cair na mendicidade vou ser Altivo, muito mais altivo do que alguma vez fui até então.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A imagem é a velha mira técnica da RTP. Lembro-me que nos anos setenta ocorriam interrupções da emissão, em que tal imagem permanecia. Já então dizia que se pedia desculpa pelo programa, a interrupção seguiria dentro de momentos.

 

Aquela imagem da velha mira técnica é o fantasma de uma justiça célere. De movimentações grotescas e frágeis de processos judiciais. De movimentações ainda mais grotescas de pessoas, em aglomerados especializados de serventes, a tratarem de tudo. Cada vez mais distantes dos cidadãos. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

«...-, foi o próprio Deus que, no termo do seu trabalho, se deitou sob a forma de uma serpente debaixo da Árvore do Conhecimento: foi assim que se recuperou de ser Deus... Fizera tudo demasiado belo... O Diabo é apenas a ociosidade de Deus naquele sétimo dia...»

 

Ecce Hommo - Como se chega a ser o que se é

Frederic Nietzsche

Edições Europa-América

Tradução da versão Inglesa, Ricardo Saló

Autoria e outros dados (tags, etc)

Acendo uma vela insensata para tudo seja pelo melhor, seja isso o que for...deverá acontecer tudo da pior maneira como sempre, houve demasiada gente que confiou num pantomineiro ingénuo e bronco e de todos os massacres, permanecem as feridas expostas como uma cicatriz que não sara, mesmo não lhe tocando doem de olhar, vou ficar a lamber a feridas como um velho cão, a última dignidade que me resta, e na qual sinto um conforto para me adormecer, como sempre, a acreditar que aquela árvore jamais vai secar, que o anjo se mantém por aí para as piores circunstância. Um anjo que inventei para mim próprio a partir do filme O Céu sobre Berlim, anjos que julguei ver insuflados de algum carisma desconhecido, para explicar eventos mirabolantes. Não gosto de ajudas, nem para lixar sonhos às pessoas nem os meus próprios. Isto são sonhos? Ter-me apropriado desta palavra a feito dela a obsessão por querer assim, de pé para a mão, um génio, sem sofrer nada, sem ficar com dores no rabo, num polipropileno de recurso, a vela continua acesa em pavio curto e cera premedita mente finita. Não se ouve nada lá fora, até os grilos já se calaram. A esta hora ocorrem nos cérebros estremunhados das pessoas toda a sorte de sonhos ou pesadelos. Vence-me a dor nas costas, os olhos secos e o olhar fixo em caracteres de traição e de desordem. É hora de conspirações e de amantes empedernidos, condenados ao sigilo da noite, em que os telemóveis ficam sem bateria num estertor sem última bênção. Em que todos dormem  e posso sentir-me mais livre, desinibido para reconhecer que afinal eles tinham mesmo razão, estupores! Eu a julgar que contavam histórias inventadas para me divertir e aquilo era mesmo a sério, vou perdendo o pio, engasgo-me, porra! estou fodido!!! estão tão que escrevo palavrões, pois não, isto é mesmo a sério, pá. Nós cá não gostamos de mandriões, nem de vidas dissolutas. Era só a brincar aos filmes de série B. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

O Sr. Lérias sentia-se um pouco incomodado naquela cadeira. Mexia-se para além das conveniências. Apesar de ser ter este nome, sabia fazer contas de cabeça. Na sua cabeça estava uma moradia unifamiliar que sempre lhe parecera um pouco demais para as suas pretensões. Mezanino e área técnica para caldeira. Árvores de grande porte na rampa. Tudo muito bonito, muito técnico e muito profissional, o traço fino do rabisco. Encantador, para além de arquitecto também tem que ser psicólogo. Tem também que impor a sua mestria, adivinhar os desejos de quem manda.
 
Aguentou o embate do arquitecto. Submeteu-se e foi então que decidiu que se tinha que pagar toda aquele planeamento feroz, ia aproveitar para gozar. Para se familiarizar com os termos necessários, para se inteirar das maravilhas dos materiais. Por ser um materialista de primeira sabia que todas aquelas maravilhas teriam que ser pagas também. Um arquitecto nunca assinaria um caixote. Se algum o faz é um cobarde. Um arquitecto é arquitecto. Muitos já lhe tinham proporcionado, nos passeios que fazia, a contemplação das magníficas construções saídas do seu fino traço. 
 
O fino traço cedo se revelou demasiado para o bolso do Sr. Lérias, confrontado com o custo daqueles desenhos muito bem feitos. Ele procedia deste modo, aparentemente covarde, porque não ousava fazer frente ao mau feitio da Srª Naperon. Era por isso que se diz que se submetia. Tentava minorar todo o sofrimento que sabia que ela lhe podia infligir, que podia refinar em cíclicos monólogos, para refinar a tortura; mestre dissimulada do insulto, habilissima a atingir as fragilidades humanas do seu carácter. Ela era daquele espécie de mulheres que julga que o marido é um capacho, e que deve sentir-se honrado por poder servir para limpar os pés e  considerar-se felicíssimo por poder ser-lhe útil em tudo. Até no momento certo dominar todas as técnicas do Kama Sutra para deliciar tal criatura. 
 
O efeito daquele dossier pretensioso foi apenas o gozo de uma moradia unifamiliar. Não uma casa ou um Lar. Uma moradia unifamiliar para suprir tudo o que faltava na essência. Ainda que o Sr. Lérias não ignorasse os encantos da sua jovem esposa. A sua bondade ficava refém de momentos em que a Srª Naperon se excedia em delícias. De maracujá e não só. Poderia por pormenor insignificante, tal estado de graça, ser perturbado e passar a verme, o estado a seguir a capacho. O Sr. Lérias acusava-se injustamente de ser um covarde por permitir tais desvarios. Alguns ainda o surpreendiam na acutilância, mas declara-se para si próprio incompetente para tomar uma atitude mais drástica relativamente a este desassossego, uma vez que tomá-la significa um acréscimo substancial desse mesmo desassossego até obter o merecido sossego e paz de espírito. Não compreendia nada daquilo, nem a forma como se comportava assim abjectamente. Embora se esfalfasse para que tudo até corresse pelo melhor. Um homem tem sempre os seus devaneios, deixá-lo sonhar que controla tudo é a melhor maneira de o controlar, não exercer a tirania do capricho. 
Está tudo bem Lérias, desde que seja como eu quero. A moradia unifamiliar fica aqui como queres mas lá quem vai mandar sou eu, e tu, pelos visto, pouco mandas em mim. Pareces esquisito, dares tanta liberdade. 

O Sr. Lérias sempre soube que esse acréscimo substancial de desassossego haveria de acontecer, não sabia quando nem em que circunstâncias, Por isso por agora o Sr. Lérias tornou-se mestre de obras arredores duma construção mais modesta. Não tão modesta quanto ele pretenderia, mas aquele sonho de ser tornar pedreiro e livre pensador entreteve-o durante bastante tempo. Construiu um espaço aos poucos, roubando horas de sono ao corpo, molestando as costas, maravilhado com a capacidade encontrada de construir com as mãos, que julgava desajeitadas, toda a sorte de objectos. Seria um ninho que pretendia construir. Um passaporte para churrascadas épicas e sardinhadas de vida. Sem integralismo Lusitano. Um local de encontro de amigos. Os amigos que o Sr. Lérias poderia ter escusavam-se a comparecer. Não se sentiam à vontade com a Srª Naperon. Podia ser muito assertiva e quebrar a boa onda de uma conversa amena, em agradável convivência. Ele refugiava-se na artes plásticas de base, visto não ter apetência nem talento para artes e mesmo tendo, seria apenas bem sucedido no horrível. O Sr. Léria já havia esquecido, como todos os outros, os poemas da adolescência, considerando-os aquilo que eles são. Insossos. Sem chama. Não tem nada mais que aqueles poemas ininteligíveis e por isso descarta-se na arte do conforto do ninho, mesmo quando o ninho já não tinha criação.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Talvez

30.08.14

Talvez cultive ervas aromáticas nos Domingos em que não puder andar de bicla. Tempo para mandriar por aí a captar o sentido profundo da humanidade, os esgares, as personagens. Talvez me enterre de vez e consiga deitar cá para fora tudo o que ainda tenho para recontar romanceadamente. Talvez alguém olhe para mim com olhar certo, aquele que desejo e isso me tranquilize de vez. Fazer dos meus serões e tempos livres a escrita é barato. Em conta. E será sempre melhor do que me arrastar por tabernas a matar-me. Hei-de ver os Cântaros e hei-de voltar a Pitões das Júnias e subir às Minas do Carril, e escrever outra versão atabalhoada, dos Homens Esquecidos de Deus. Talvez deixe crescer a barba e o cabelo e as unhas. Talvez me conforme e encalhe numa tristeza sem remédio, não vencido, mas apaziguado. Talvez possa correr e subir ao Caramulo pelas eólicas. Talvez leias finalmente todos os clássicos que ainda não li. Talvez fique noites a ouvir jazz e música clássica e conviva com os ratos e os gatos sem precisar de falar. Talvez encontre mesmo maneira de me escapar de vez. Talvez me ofereça para missões humanitárias. Talvez fique preso numa rede qualquer nas trapalhadas que faço, e tudo volte ao mesmo, porque voltei a acreditar em talvez.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Começo a ficar claramente do lado dos que acham esta moda de banhos de água gelada uma tonteira. Se bem que tenho o aspecto positivo de angariar fundos para o combate a uma doença. Quem tiver vontade e possibilidades pode fazê-lo de modo anónimo.

 

A imagem duma criança que transporta um balde de água e se interroga do porquê do tipo ao lado estar a desperdiçar água para uma fotografia foi a gota de água para assim me posicionar.

 

Por mais altruístas que sejam as intenções e os actos de doar, permanece sempre a opulência. Um balde de água gelada. Não bastava que aquilo que pode ser entendido como uma provocação dos abastados, para quem tem que palmilhar quilómetros para a carregar, ou mesmo para mim, que acho os preços da água pornográficos. 

 

A vaidade que grassa nas redes sociais e nos media, o dever de aparecer, as selfies, a fim de manter ou aumentar as visitas das páginas pessoais. Ou tudo o resto que invariavelmente serve para brincar e para que alguns seres humanos se divirtam.

 

Tenho-me interrogado bastante, desde que li essa frase, se não terei elevado a virtude revolucionária a piedade. Que isso me serve de alimento para considerações. Que seja menos que um revolucionário de pacotilha. Cujas acções nada trazem de alento aos milhões de homens esquecidos por Deus. 

 

Assumo as dúvidas do resultados das acções, e pretenderei então ser como eles, preocupado com os pobres e os maltratados. Como ser dotado do mínimo de sensibilidade tenho a noção da existência de toda a miséria. Nunca a conheci enquanto tal, tendo conhecido viver com o essencial. 

 

Mas nem vivo com o essencial porque não gasto no acessório para dar aos outros. Poderei no futuro ter mais tempo para oferecer, mas mesmo esse vai ser misturado com as horas para mim. Se tivesse que carregar água certamente não teria horas para mim.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pág. 1/9