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Crivar, separar, escolher, diferenciar, todo o cascalho da existência? O que aqui escrevo sem cobrar nada (sabendo que se cobrasse não seria previsível que a voz chegasse a vós). As reflexões valem pelo seu conteúdo. A não ser que se conheça o autor, é difícil saber o que está dentro de um livro. Gosto de pensar que é para não se servirem das minhas reflexões para cobrarem impostos. Essa perspectiva deixa-me quase à beira da perda de credibilidade.

 

Tenho duas ou três peças do Hamlet'i que tem um preço arrojado. Se ninguém as quiser adquirir, fico eu com elas. Há peças dele que não saem daqui. O valor que dou a essas peças é tanto que quem quiser ficar com elas vai ter que gostar o mesmo que eu delas. A escrever funciona tudo de outra forma. Tenho um púlpito fornecido pelo Grande Irmão (Google) para ter a palavra, para apregoar aquilo que pretendo vender, não vendendo nada, porque a salvação é assunto doutros níveis. Para poder amplificar a minha voz são necessários aparelhos e pessoas que tomam conta dos aparelhos. Paga-se um acesso a este recinto. Eu nem sempre pago. 

 

Aproveito o Sábado instável. Tenho uma boa desculpa para não andar a podar os kiwis e a macieira deBravo de Esmolfe, a casa desarrumou-se e sujou-se entretanto. Não me apetece limpá-la nem arrumá-la, embora gostasse que estivesse limpa. Se lhe juntar-mos os pensamentos avulsos, fica tudo ainda pior. Não me arranco daqui. Estou outra vez em modo continuo. Sem grandes progressos nas frases, a captar sensações, os trinados dos pássaros, o cão a roer um osso, o tábua de espaços sempre a falhar. Não há nenhum sentido, nenhum assunto e os que haveria dar-me-iam um trabalho mental que não sou capaz de realizar. Estou apenas aqui em modo suspensão, depois de ter me ter abastecido de lenha. 

 

Estou a descansar de tudo. Até da escrita, embora escreva. É como fazer um treino leve de corrida para descomprimir. Tanto me deito cedo como tarde, tanto me levanto cedo como tarde. Estranho em tudo isto é apenas ter consciência de tudo isto. E em vez de preguiçar totalmente, observo e observo-me. Devo esperar que todo este caudal de sensações possa significar alguma coisa? O regresso das palavras, quando amanhã vou para a feira da ladra do Kapingbdi. As peças do Hamlet'i são uma boa justificação para ir conviver, à procura de talentos, de pessoas inconformistas.

 

Por vezes apetece-me ligar a televisão apenas porque pressinto que se a ligar não me sentirei tão sozinho: é porque o cérebro está ocupado, é porque sei que muitas outra pessoas o estão a fazer e por isso não me sinto isolado? A mesma sensação que tenho quando me ligo à internet e mesmo escrevendo numa folha digital sei que não estou só, porque a qualquer momento posso começar a comunicar com um(a) amigo(a), embora não o faça muitas vezes, as necessárias. Não é uma ilusão, no entanto, é muito menos do que se o(a) amigo(a) estivesse aqui ao pé de mim. Da natureza só devei ser permitido retirar o necessário para viver. 

 

A maior obra de arte apresento-a aos amigos, dessa maneira. Reconhecendo que em primeiro lugar estou quite com a espécie. Estão transmitidos os genes. Pode-se ter orgulho na genética quando nada interferimos na escolha dos genes a transmitir? Eu refiro-me à parte do meu trabalho, ao exemplo e à educação dada, aos valores transmitidos, ao apuramento da raça? Talvez, é o sentimento a falar. E a grande gratidão por me poder orgulhar dos meus genes renascidos. Por nunca ter tido expectativas nem nunca ter querido que fossem esses genes a realizar as minhas fantasias. Realizem as deles porque já não são meus, pertencem a outro ser. Por me sentir em casa ao pé deles. E por a minha casa verdadeira residir nisto, para além de todas as outras considerações. 

 

Entro em pânico muito mais dificilmente. Cada vez mais sinto que tudo teve que ser assim. Que depois de ter cumprido a obrigação, a natureza me recompensou. Por ele posso afirmar que dou a vida. Não sei se daria a vida pela pátria com a mesma certeza. E por isso fico irremediavelmente agarrado a ela, pois no maior desespero é a essa vida e existência que me agarro e convoco as forças para prosseguir. Conclusões destas também me servem para dar sentido ao que faço, porque me censuro de omissões nas tarefas domésticas. A roupa que está mais do que seca, o pó que me entra pelos olhos, embora permaneça poisado nas superfícies onde o identifico.

 


Acontece-me estar a trabalhar, mas divirto-me. Isto é trabalho (de casa), mas não sinto como tal. Todos os hábitos enraizados que não coloquei até hoje em causa. Sair da rotina ao fim de semana, até da rotina do fim de semana. A lenha é suficiente para poder estar aqui a observar as labaredas através do vidro, limpo com limões, que existem em abundância. Falta-me desenhar ou reconstruir um espaço alternativo. O núcleo da incerteza permanece. O filme é assim mesmo. Ter a veleidade de fazer o romance é-me permitido aqui. Na realidade pertenço a um romance, desconheço quem é o autor. Não conheço o fim, porque não está escrito, cada vez me sinto mais perto do âmago, do essencial, do etéreo. E a parte que me toca representar pode ser esta, ainda para mais se gosto, se saio da zona do conforto e saio a tentar despedaçar preconceitos, a quebrar hábitos, a aprender a ser amável, a não virar cara nenhuma à luta, sem querer fugir do dia a dia. 

 

Já me aconteceu levar um sapato de cada qualidade para o serviço. Foi só uma vez. Acontecem-me distracções. O escapismo. Tenho tentado ser multi-tarefa. Evadir-me, mas nunca perder a noção do que se está a passar. São sempre os momentos em que sou levado ao máximo, que mais resultados produzem. No final, se alguém, numa tarde igual a esta se sentar num café, alguém igual às figuras dos quadros de Edward Hopper, e ao fim de uma quantidade indeterminada de parágrafos se sentir melhor, se encontrar motivo para a gratidão no seu dia a dia, terei também cumprido essa obrigação de fazer render os talentos, a predisposição para escrever. 

 

Se me julgo tão perto de dominar o tal segredo da felicidade, tenho que tentar contar como é. Vou de terra em terra e exponho as minhas ideias. Como dia o R..., não existem estrangeiros, existem pessoas de outras terras. Faço-o sem sair do sofá, ao quentinho, não conheço as reacções, nem posso tentar adivinhá-las pela expressão ou pela linguagem corporal. Nada sei sobre o resultado do que escrevo nos leitores. É a maneira possível de me exprimir. O dia não está para palestras ao ar livre e reconhecer as contingências do corpo, sem se sentir prejudicado pelos propósitos inconcretizáveis. Se não faz sentido, faz sentado. 

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Se persisto em desejar o futuro, tem qualquer nostalgia que ser baseada na imaginação. Não sei nada do que vai acontecer no futuro. Não tenho as memórias como teria se a nostalgia fosse inspirada no passado. Faço o romance antes de ele me ser feito? Sim. com a preocupação de se poder extrair algum prazer da sua leitura. Tudo o resto é conhecido, é banal. O único sobrenatural é o pássaro infiltrado. A madeira e o ferro aquecido a estalar. Uma horinha de jazz a calhar. 

 

Neutro, expectante do não previsto

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- « Eu escrevo por necessidade, não estou cativo das palavras, não tenho mesmo mais nada para fazer, engano as horas. Tornou-se num hábito. Esse hábito tornou-me solitário. Estando solitário, escrevo por causa disso, para não me sentir solitário. Até mesmo o facto de escrever e guardar no disco rígido, apesar de não ter qualquer significado prático nem influência, me faz sentir a solidão, apesar de não existir nada lá que seja suficientemente real para que me considere acompanhado. É uma sensação estúpida, provocada por um hábito. É um hábito.»

 

 

... originalmente publicado em: - Mas eu quero viver!

 

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É realmente cedo, ainda se pode ir ao supermercado. Ainda se pode ir a imensos locais, onde sabe que não irá. Nem ao supermercado. Isto é uma pasta de SPAM? Amanhã será então cedo até ao entardecer. Na mesma dimensão irrealista dum palácio que pertence a todos. Ninguém está ou pode ser proibido de reclamar o seu quinhão. Há registo de vida orgânica, de crescimento de cabelo. De arbustos cortados. Todos os pressuposos necessários para que seja registado calor. Uma mancha no detector. As horas perversas em que estando convocados todos os ingredientes, não há receitas para eles. Como se fosse o fim de uma linha desactivada e restasse apenas recordar noite dentro a viagem percorrida.

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Perdes teu tempo ou desta janela de vidro tosco, sem aumentos, todos se continuam a divertir sem preocupações de maior e tu aqui, que os observas suficientemente dissimulado para seres furtivo, nunca poderás conseguir saber se se divertem mesmo ou não. Tu pensas divertir-te. Podem olhar-te como um acessório há muito no mesmo local. Sem surpresas. De surpresas percebes tu. De intuições também, nada de cientifico, de certo, de palpável. És tão miserável que só aproveitas os títulos. Não queres saber do que te dizem.

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Obedecerei, e por não saber para onde me vou dirigir, conformo-me com os ventos favoráveis que encontrar pelo caminho. Esquecer-me das cáries e das costas, da navegação solitária, da depuração de todas as prioridades. Não vou deixar que o sol baixo do horizonte me tolde o prazer de colectar os seus raios, vou gozar as brisas das calmarias pescando para comer, ou talvez endoideça com serpentes marinhas, ou com as Tágides locais (ninfas do celulóide a preto e branco), com o tédio de todos enredos possíveis.

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« Sendo a vida essencialmente um estado mental, e tudo, quanto fazemos ou pensamos, válido para nós na proporção em que o pensamento válido, depende de nós a valorização. O sonhador é um emissor de notas, e as notas que emite correm na cidade do seu espírito do mesmo modo que as da realidade Que me importa que o papel moeda da minha alma nunca seja convertível em ouro, se não há ouro na alquimia factícia da vida? Depois de todos nós vem o dilúvio, mas é só depois de todos nós. Melhores e mais felizes, os que, reconhecendo a ficção de tudo, fazem o romance antes que ele lhes seja feito e, como Machiavelli, vestem os trajos para bem em segredo.»

15-05-1930
O Livro do Desassossego
Bernardo Soares

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Alimenta-se de luares. De sinfonias nunca tocadas. De latidos de cães vadios. A coberto da noite sonha em grandes tiras de banda desenhada. As vozes da radio longínqua. A música dos violinos que choram. Está cercado de impossibilidades. Vive dos raios solares que colecta durante o dia. Das fugas ao quotidiano que embrutece. Sem se deter nunca na erva daninha que cerca o que outrora foi construção. Ou do amaralecer dos vidros sem uso. A água é potável? O pão tem farinha mourejada por máquinas. A cigarra nunca folga, a sarranizar as mesmas ladaínhas, os lamentos espúrios das carpideiras. Traz para cá a serenidade da madeira. Convoca os conselheiros de todos os tempos e explica que é apenas a lei da conservação da matéria. A matéria dos crimes. A matéria dos vermes.

 

Bicho à Solta - Bicho Domado 

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Atrasado ou perdulário. De onde vens tu? Trazes para aqui essa inquietação, esse remoer de dentes. Não estou interessada, não precisas de dizer, vens duma terra perdida, de memórias escoiçinhadas, de entardeceres ébrios, do abismo que começou a olhar para ti depois para ele olhares tão . Dispensa qualquer carpideira, qualquer sentimento de culpa. A tua solidão é cósmica, não existe aqui, sempre existiu  em ti, na procura das respostas que ainda não te foram reveladas. Não tenhas pressa. É do que não aconteceu que tens saudade. O cosmos que pressentes está invariavelmente esgotado. Na face oculta. No formular constante do perjúrio, na afronta aos deuses.

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«Ele diz: «Não amo mulheres. O amor está por reinventar, sabemo-lo. Às mulheres só interessa conquistar uma posição segura. Uma vez instaladas nela, coração e beleza são postos à margem: só um frio desdém permanece, alimento do casamento de hoje. Ou então vejo mulheres nas quais brilha a estrela da ventura e de eu poderia fazer excelentes camaradas. Estas, são devoradas em primeira mão por brutos sensíveis como fogueiras...»

 

Uma Cerveja no Inferno

Rimbaud, Jean Arthur

Tradução de: Mário de Cesariny

Assírio & Alvim

 

 

Alguém como eu tem que viver com isto. A mistura inevitável da literatura e da vida. Com as  devidas consequências. Creio que cada vez uma e outra já não se distinguem. A minha literatura não provém da mais nada senão da vida, da minha vida. Por isso a confusão não deve ser censurável. 

 

Tenho imenso desgosto por admitir que pensarei  o mesmo que Rimbaud e para minha consolação tenho também a certeza de que isto não é uma verdade universal. Nem todos têm sobre isto os mesmos propósitos de aventura do poeta. Do poeta que Rimbaud foi, do poeta acabo por ser. A categoria não é apenas para quem escreve versos rimados ou desesperados, é para uma maneira mais forte de viver. Mais sentida. Cada um tem os sentires que lhe destinaram. Cada um tem toda a legitimidade para os defender, porque são apenas seus. É com eles que atravessam a vida. 

 

Deste determinismo ninguém escapa. Nem evidentemente, à critica exterior, a qual tem pouco valor porque não muda a forma de sentir de ninguém. Com o tempo, os mais perspicazes aprendem a domar a predilecção. A esconder o que foge da norma. A fugir à censura e à incompreensão. Tudo se pode tornar aparentemente mais suave. Mais rotineiro. A conformação sobrevirá para muitos. Outros permanecem nessa orla da dúvida, num cepticismo racional, permitindo-se a equacionar a consumação do improvável. Quando o improvável acontece sempre.

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