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Arrelias com o tempo? O ruído que cessa quando peço. Tremem paredes mestras. O pó, que era omnipresente no mundo de Case, aparece quando me dirijo ao local do ruído e peço uma trégua, a bem das gravações, obrigatórias e indispensáveis. Não sou eu que peço. É o gajo que represento ali. Eu não sou para lá chamado. Aquelas obra de duvidosa necessidade. Agora já não podem ser paradas as rotativas. Há demasiadas rotativas em movimento a sugar toda a magra riqueza que se consegue criar. A minha parte é tentar ser simpático e afável para todos. 

 

Não sei se faz parte de alguma operação de charme de duvidosa produtividade. Faz parte do teatro todo que ali existe. Não é uma sala de espectáculos vulgar. Algumas vezes é terrivelmente a sério, o teatro de uns e a desgraça de outros. Ninguém anda ali pelo teatro. Posso comparecer por hábito. Se amanhã tivesse uma chance de os mandar todos ás urtigas, talvez demandasse o Capitão Ópio Jones* e a sua colónia Libertária.

 

*Cidades na Neblina Vermelha, William S. Burroughs

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Não é amanhã que vai estar feliz. Amanhã é outro dia. Ainda está na plenitude deste. Um sol de bom dia. A lição bem estudada o mister de se tornar alguém de quem se sente a falta. A falta disto tudo notava-se há muito. Não se nota nada, apesar de tudo se sentir. Drasticamente, sem remédio. Como uma cura de que não se espera a descoberta. 

 

A felicidade é um navio de cruzeiro, pode-se ser feliz dia após dia, apesar de todas as desgraças que rodeiam esse estado. Não aconteceu do nada. Foi preciso muito mais que uma simples seta de cupido. É preciso tudo o mais do que uma seta de cupido para manter o rumo do veneno na porção adequada: a da cura.

 

Aprender a misturar os ingredientes de outra maneira, noutras porções. Largar todas as receitas que constam de livros de conformidade. Não são apenas os trastes materiais de que é preciso desprender-se. Foi de tanta rama que está seca, outrora verde, que foi preciso que o vento sacudisse. Caíram imensas estátuas sem que nenhuma a sério tivesse caído. Foi preciso passar além da decepção e do descrédito, o alheio e o próprio.

 

Dois caminhos ali se encontraram e se entroncaram, sob os auspícios duma fraga de água fria e corrente, que se despenha se necessário nas alturas, para retomar o rumo da sua demanda. Sem receio das quedas e das imperfeições do caminho.

 

Esse caminho que espalha a vida, que provoca a fotossíntese da pele, o olhar brilhante dum desafio constante, até dar com um mar inevitável, primaveril e distante, mas visto com a sua magnificência. Depois de pressas na espinha dorsal daquela serra de Açores, as serras e as planícies doutros Açores confundidos com aves diversas. Erros de navegantes pouco habituados a terra firme.

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Os pés doem, aquele músculo de existência desconhecida está rasgar-se; o fôlego falta; a azia ameaça deixar que o fôlego não atinja a temperatura de serviço; os incómodos pelo corpo todo incitam a parar.

 

Corre! Corre! Corre! Sempre a mesma resposta, apenas não colocada em prática pela azia que aparecia a completar o coro do desencorajamento.


Foi para isso que foi a saída. Em alguém inexperiente seria um mau treino, de chegar sem sorriso nos lábios. Ele tinha já o profundo conhecimento de que aquelas dores e incómodos são para mandar às urtigas.

 

Aquela saída foi para dar sempre o máximo, sem ligar a conta-rotações, sem ligar a avisos de micro-roturas. Sem isso não se vai além, aos treinos divertidos sem dores nem incómodos. 

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Ganhou asas por vezes, as asas da temperatura de serviço certa para o exercício, asas para se esquivar ao incitamento a parar, asas para perceber num delírio de dopamina, que as asas eram muito maiores, mais capazes de percorrer outras distâncias, que o mancebo que havia sonhado criar porcos, era enquanto representação do porco que nunca criou, o porco flutuante da capa do álbum Animals

 

 
Assim se completa um ciclo, com a simplicidade de uma imagem ocorrida num surto da euforia do corredor, uma capa, uma imagem parada, a olhar para muito mais longe, para onde se torna necessário olhar, o horizonte não incomoda, nem o sol baixo da tarde primaveril.



 
 
Agora que tudo existe de modo diverso do previsto. Agora que quaisquer previsões ou convocatórias se mostram silenciadas pelo horizonte visto daquela posição anacrónica dum porco flutuante. Em vez de um caminheiro a subir a montanha.



 
Está pronto para o amanhã, as potencialidades são o concreto gesto e o concreto viver. São o som do antigo que continua a despertar para a incerteza de tudo, menos do movimento. Do mar visto, da distância ao iodo. Do vento cortante. Do doce regresso. A maior obra de arte é a vida e a maneira como se consegue vivê-la. 

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Governo

19.03.15

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Preciso de fugir para ti. Dispensar a vergonha dos lapsos cometido e de não os repetir (agora a perfeição?). Preciso mesmo de ti. Do ti que está por baixo da capa do ser humano socializado. De ti mesmo, do fundo do teu ser, para compreenderes que não há perigo de derrocada, que basta o desejo de prosseguir sem medo de triunfar onde já houve derrota copiosa. Inundações de sentidos contraditórios, deitadas pelo cano da inverosimilhança.

 

Agora que aqui chego, apenas com certeza, motivação, empenho, tranquilidade e segurança, vou duvidar de quê? A dúvida é como o sal, convém colocar algum por causa do equilíbrio electrólito. É certo que houve adjudicação directa. É certo que é apenas o frágil entendimento de todas as coisas que virão, que prometem e que se desejam para além de um plano ordenado de vontades que se descobrem conciliadas.

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Já não é acalentar um sonho. Ter-se desfeito completamente e se ter transformado na mais transcendental materialização. Um sonho que vai pedir todo o tempo e todo o empenho. Um sonho que vou viver com a intensidade natural de quem o esperou tanto tempo. Afinal sonhei o sonho certo antes de o viver, só não fui capaz de lhe dar uma dimensão tão magnífica enquanto sonho, como ele configura enquanto realidade. 

 

A PERSISTÊNCIA DO SONHO

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« De entre todos os modos de produção do amor, de entre todos os agentes de disseminação do mal sagrado, um dos principais é sem dúvida este grande sopro de agitação que por vezes se levanta por cima de nós. Então os dados estão lançados, o ser que nos agrada nesse momento será o ser que vamos amar. Nem sempre é necessário que nos tenha agradado ate então mais, ou mesmo tanto somente como alguns outros. O que era preciso era que o nosso gosto por ele se tornasse exclusivo. E essa condição encontra-se realizada quando - no momento em que esse ser nos falta - , à busca dos prazeres que o seu assentimento nos daria, se substitui bruscamente em nós uma necessidade ansiosa que tem por objecto esse mesmo ser, uma necessidade absurda que as leis deste mundo tornam de satisfação impossível e de cura difícil - a necessidade insensata e dolorosa de o possuirmos. »

 

EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

Marcel Proust

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O futuro é um vasto território à espera de ser descoberto. Agora que todas as viagens, físicas e imaginadas, são possíveis, e que ocorrerão sempre que tiverem que ocorrer; os planos todos que não deram certo, porque não há planos que consigam delinear com alguma certeza tudo o que acontece da maneira mais natural possível.

 

Agora que as páginas iniciais de um livro dos quais se gosta de imediato e se sabe que vai gostar ainda mais, foram desfolhadas com toda a premência de quem se quer embriagar nos vastos horizontes que se adivinham.

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Está tudo por fazer, estive à espera destes dias para conformar todos os devaneios, todos os anseios. Estive à espera tanto tempo que quase desesperei. Valeu-me acreditar nesse futuro radioso sem ter tido nenhuma garantia ou promessa, por o desejar para além da razoabilidade.

 
É o tempo em que o tempo vale cada instante, em que nada estando resolvido, está tudo controvertido. Este é o tempo em que o tempo é o presente e o futuro é algo que vai ser a continuação do presente. As saudades sentidas do futuro são a realidade do presente. O presente que se apresenta em todo o seu esplendor.
 
Quadro Edward Hopper, Sea Watchers
Fotografia: http://www.canvasreplicas.com/Hopper2.htm

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