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Formas diferentes de varrer. Sendo o acto de varrer apenas deslocar o lixo, para fora do campo visual. Através da janela exuberantes tons de cinzento, nuvens bojudas, luz desmaiada. My Funny Valentine. O Jazz de volta a uma tarde não anunciada de nuvens bojudas. Aqui ficam os hábitos antigos, os que vieram depois dos ancestrais. Aqui jazem duas décadas raiadas de comoção.

 

Estás aí e isso basta-me no momento em que me interrogo se me basta. Basto-me aqui em terapia continuada. Auto-administrada, descurando respostas e formulando perguntas. As respostas não são convocáveis por vontades, existem ou não. Existe a pergunta se te basto o suficiente. Neste sentar anómalo, neste spleen de dia borrascoso. Nesta constipação congénita. 

 

Está-se bem neste acampamento base. Apesar da constipação e do vento frio. A enfrentar o vento frio ou não. Quem corre não se constipa (por correr). Quem escreve também não se constipa por isso. Chuva de jazz. Chuva a sério. Foi para isto que podem ter feito dias assim. A decência de cortar as unhas atempadamente. A decência é o quê? A chuva é a justificação para justificações que não teria que fornecer, se não pudessem alocar com elas. 

 

Posso ter medo de dizer o que não penso, preguiçoso de pensar. Para que preciso de auscultar o que não penso? Se nem em mim estou mesmo a pensar, mas sim no juízo alheio. Será que perdi o juízo? Será que isso existe para ser colocado cirurgicamente onde é necessário? 

 

Tenho que correr para me libertar de pruridos. De indecências com o meu corpo. Com o juízo subvertido. À procura de um nicho ulterior do ser, a versão comestível disponível. Outras versões foram abolidas. Votadas ao ostracismo.

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Para Ti

26.04.15
nesta nesga do percurso
a intensidade da fonte
o ar que faltou sempre
o ar que vai faltar sempre
fica com esse sorriso
em mim
fica com o meu rir
sem me dar conta
que faço qualquer cara
lá fora haverá
sempre obstáculos
obras
contratempos
inesperados banhos de 
de efervescência
vai faltar sempre 
tempo
nesgas de percurso
confiscadas
há tudo de novo
ainda para descobrir
poeiras para assentar
cirurgias 
conversa para além
de todas as tretas
acampamento base
preparação

 

Tem sido tudo como poderia ter sido. Na parte disponível. Quem tem mão na parte disponível? Não se resolve com argumentos conhecidos. Tudo se improvisa. Até respirar em condições adversas. Em cada acordar o teu sorriso. Em cada adormecer, tu. Em cada abraço uma resposta sem códigos. Em cada beijo certezas trazidas do fundo. 

 

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posição ergonómica
imprópria
calor de chama
na cara
nesga da janela
saxofone ou pianos
é tão cedo
e parece tão tarde
é cedo para quê?
é tarde para quê?

 
para cumprir

tempo de antena
sem directo
é tempo do tempo
de chuva 
fustigar 
a tarde nublada
 

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Para além de mim, não sei para quem escrevo. pertenço aos escritores anónimos, com os quais não tenho qualquer contacto. Sei que existem. Também sei que tenho que colocar letra maiúscula depois de um ponto final. Estou a fugir ao essencial, devido à hora. É cedo e estou trôpego com o teclado, engano-me a escrever. Não tenho posição e invento posições novas que duram até sentir necessidade de uma nova. Sem que possa ter avançado nada ao horário nobre de que disponho.

Será que vamos sair deste pântano de semiosbcuridade para o negro da noite e as sociais presenças? Isto é um abrigo de acampamento base para uma escalada maior. Escalar até ti e contigo, a vertigem das alturas. Falta de ar. Abismos fundos. Perigos vários. Olha os meus olhos e eles podem dizer tudo, se puderes ler neles o que pretendes. Se eu puder ser quem tu procuras, não como uma árvore de plástico; organismo vivo, com cerne pegajoso a correr. 

Aqui posso procurar o que não me parece razoável que possas responder. Há tanta pergunta ainda por fazer, por vício, porquê? Alguém se inquieta por tricotar? Alguém que devia ir cortar as unhas em vez de escrever sobre a incomodidade desse evento. Já vou, ainda é cedo.Posso estar apenas a garantir um nada garantido que é tudo o que tenho extrovertido.

Uma luz mais forte anima a sala. Eles garantem que a música é escolhida por humanos e não por computadores. Um saxofone, um contrabaixo, umas sussurradelas da bateria, sempre a pensar que me posso levantar a qualquer momento para ir correr, sem ter qualquer vontade de ir já. 

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Não preciso dum blogue. Não preciso de um cão. Já “tive” um cão. Ainda tenho um blogue. Em gestão controlada, se é que isso existe. Vinha cheio de gana para proferir que não preciso de um blogue. Durante muito tempo precisei mais dele do que hoje, salvou-me a sanidade mental numa travessia do deserto; durante muito tempo precisei do Óscar, sem que alguma vez tivesse sentido que precisava, embora sempre tivesse desejado “ter” um cão com orelhas arrebitadas. Nunca pedi um corredor. Tornou-me um corredor, apesar de nunca ter consentido que corresse à frente dele.

 

Deixei de fazer planos, a partir do momento em que percebi que todos os que fazia, não se concretizavam. Para que hei-de fazer planos? Se o que me acontece não deriva dos planos, mas sim da imponderabilidade das intersecções, deixei-me ir por impulsos, por deriva, à procura sem saber o que procurar, como se procurava, o que é que é preciso fazer. As buscas tem essa expectativa de se encontrar quem se busca. É importante saber quem se busca, se bem que a busca tem essa contingência, sem recurso, do engano. Do cansaço da escuridão, de uma luz que mesmo que pudesse ser totalmente falsa, era luz porque se acredita, para além da razão, nela.


Moverei consciências uns milímetros, o que me faz regressar, aqui, e a este assunto, será sempre que me isto me dá prazer. Neste hábito e formato que pode continuar sem prazo de validade. Ou deixar de me preocupar com estas dúvidas acerca dum passatempo (levado demasiado a sério?). Mais legal do que ser carteirista, embora pudessem os dedos exercitados por teclas, atalhar caminho para o surripianço. Há dois parágrafos proclamava que não preciso disto. Não preciso mas estou cá. Começa a ser nauseante esta procura duma justificação, se não pública, privada. A meditação está fora de questão, demora demasiado tempo e não tem aplicações práticas imediatas...


Terei também movido a minha consciência uns milímetros, isso é insignificante em termos cósmicos. Sendo uma criatura com prazo de validade escondido, mas certo, quererei com isto sair da poeira cósmica? Continuarei a ser poeira cósmica. Com número de identificação fiscal, evidentemente. Vale-me a infusão de hortelã-pimenta para refrescar as vias respiratórias.


[A tropa passeia alegremente os veículos blindados, mostra-se. É demasiado verde garrafa, são demasiados pneus, é demasiado combustível. Poluição. Algum oficial general deve andar entediado. Um desfile a horas de trabalho, numa “cidade” do interior.]

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Sem Esquadria

22.04.15

Não se pode correr à chuva. Não preciso de correr à chuva. Se estivesse calor poderia correr à chuva. Evoco que podia correr à chuva porque chove. Evocar é mais enxuto e mais aconselhável. A fuga à fungadeira. A auto-censura da fungadeiraa. Exercício mediático. O preto e branco do cinema Francês. Os filmes psicológicos. A noite de novo sem chuva. Correr á chuva é um devaneio sentado. Podia ser a correr, que seria na mesma um devaneio. Por conta própria. Quem corre não se constipa.


Posso experimentar mudar de poiso, ir para um local desconfortável, transmitir o desconforto. De não poder cruzar as pernas. O desconforto de poder referir todas as coisas, de nada referir que possa ser encadeado em treinos aleatórios de teclados. Faço isto tão facilmente, tão despudoradamente. Semeio à toa, sem esquadria. Puzzle onde desfoco todos os eventos como são ou como podem parecer.

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«O Big-Bang, ocorrido a partir de um objecto do tamanho dum berlinde, desfolhou a imensidão da via láctea.»

 

Quedou-se, meneando a cabeça e olhando em redor, para os objectos que redefiniam o seu campo de observação. Havia histórias para contar sobre eles, como se eles tivessem o ónus de transportar recordações de modo autónomo, repositórios da história que nunca vai ser contada. Quereria ele contá-la? Faria algum sentido descreve-los na sua aparência? Não tinha mais que a vontade de ali se sentar a evocá-los, para que da sua aparência nascesse vida suficiente para se esquecer da sua aparência. Dos seus átomos cheios de espaço vazio, e pudesse reconstruir sem dificuldade todos os locais assinalados da sua proveniência. 

 

Quedou-se, meneando a cabeça, sem nenhuma evocação passível de ser transcrita. Sabia que os objectos eram apenas um subterfúgio para colmatar aquele momento matinal. Estava um sol de Primavera. Os pássaros estavam sempre presentes, sem se ver, a fornecerem álibis para o verde da erva que crescia com as chuvas recentes. O verde dominava daquela janela. Esquecia-se dos objectos mortos e procurava a resposta para uma pergunta que não havia feito, a partir de uma janela ampla. Eles estão mesmo aí, os pássaros.

 

Os dias mudaram de frequência. Continua lá a estátua do tempo retalhado, a decidir intervalos, a separar partículas daquela explosão durante o curso da suas órbitas diferenciadas. Apesar de se atraírem invariavelmente, rodando em si e em torno daquele magnetismo que os mantinha juntos, mesmo quando as suas órbitas atingiam o ponto mais afastado. Há sempre a possibilidade de ser uma linha recta a unir as partículas.

 

Era essa a sua ocupação desde aquele Big-Bang. Estonteado por ser sido insuflado daquela vida. Nada surpreendido por assim ter nascido, como se soubesse de antemão que poderia nascer daquela maneira, embora não esperasse nada daquilo e o universo criado por aquela explosão ser então o magnífico cosmos que se apresentava a si. 

 

Admirou-se de nada lhe admirar. A respiração tomada pela velocidade a que se formava como entidade celeste, a corporização e a consciência de toda a criação que se estava a desenrolar. Sabia que os seus neutrinos andavam por aí, à velocidade vertiginosa que os caracteriza. Neutrinos performativos. Neutrinos livres, capazes de penetrar as mais densas carapaças da matéria. Não os dominava de todo. A facilidade com que se libertam de si e assumem a sua errática propagação, a sua rebeldia e curiosidade com o mundo nascente.

 

Isto aconteceu mesmo, não são animações de programas de divulgação de ciência, aquelas cores existem mesmo para além do brilho de um ecrã, onde podem ser reproduzidas, as nuvens de acontecimentos, o universo a formar-se, sem que os participantes deste inicio alguma vez pudessem fazer algo para o contrariar ou para por em causa a órbita atribuída, maravilhados com a génese.

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Sem propriedades, senão as indispensáveis para prosseguir num rumo com os traços gerais e imediatos. Sem nenhum propósito senão o de vir até aqui, descansar os ossos não é meu desiderato. Descansar-me de todo, sabendo-me com alguma tarefa para completar, a de me descansar cansando-me, sem me cansar nada.



 



Nunca está tudo feito, amanhã só tenho a garantia de que vou continuar a esforçar-me para fazer bem o que tenho que fazer. Mesmo que seja em horas pouco certas, as horas são sempre as certas para se fazer bem. O que houver para fazer, o que me agrada fazer é o que é necessário fazer, necessidade e liberdade da vontade fundidas.



 



Necessariamente não é assim tão simples entranhar princípios destes. A aprender enquanto se vive, a antecipar, a encontrar respostas onde antes havia perguntas, a engendrar maneiras desta moldura não ser daquelas pomposas, a querer roubar a atenção da pintura. Uma moldura maleável, de disponibilidade, adaptação.

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O dia retalhado por todas as horas que visualizava. Aquele não é tempo dele. É o tempo e o ritmo do desempenho da agenda. O ritmo dos participantes. As questões dos participantes. É necessário pedir a alguém que concilie, mesmo que os conciliados não estejam muito convencidos da conciliação. É certo que parece obtuso que não vejam o que é necessário ver, por isso é que estão aqui, para que se possa cortar em dois, para que fiquem ambos satisfeitos pelo que o outro cedeu. É uma espécie de jogo, ou de teimosias episódicas, ou repetitivas. Tudo por lá se repete embora nada do que é repetido seja da vontade total dos participantes.





 



É o local para dirimir discórdias. Porque persistem discórdias daquelas não deixa nunca de maravilhar Sebastião Pombo. A capacidade daqueles casos atingirem o palco de uma sala formal de discussão com regras. Na realidade são sempre discórdias paradoxais, às quais Sebastião Pombo não dá o devido valor. É apenas para se fazerem ouvir que tem que constituir todo aquele fragor? Ele não se via incomodado porque se julgava acima de qualquer veleidade de possuir bens materiais, quando mais a gladiar-se daquela maneira por eles. Julgando-se isento disso poderá ter dificuldade em perceber a origem da discórdia, as motivações que lhe escapavam. Precisam de códigos e de articulados para se fazerem ouvir.



As evidências simples de que vivia daquilo, duplamente, senão poderia ter morrido de tédio. Se aquela gente se sentasse numa tarde sem se confundir em argumentos sustentativos. Num vasto território ao abandono são cada vez menos os participantes de tais questões que julgava poder resolver com uma conversa bem mediada. Tanto trabalho para uma discórdia tão simples. Para que servem então todos os tratados de filosofia, se não resolvem nada disto. Serão apenas teimosos, que se agarram a todos os argumentos para servir de base a uma resposta, a um diálogo traduzido pausadamente, parágrafo a parágrafo. Mesclar discórdias. Escriturar acordos. Ali chegados chega o final, o por-do-sol da discrepância sanada, os autos arquivados.



 



Sebastião fumava na janela e nenhuma solução para aqueles pensamentos não invasivos, o intervalo para saciar uma necessidade que não existe se não for induzida, sem que algum sentido possa surgir para a sua presença ali, cada vez mais sindicada pelos pensamentos erráticos em terras distantes sem discórdias, apenas o rio tranquilo e pouco azul, o céu nublado, a chuva que é mais ameaça do que molhada. Os nervos tensos por todas aquelas discórdias serem tão emaranhadas de particularidades. As partículas daquele jogo embrenhavam-se nele, as roupas cheiravam a isso, ele sentia receber em todas naquelas exposições indesejáveis doses de firmação de vontades. Plasmar a razão, de facto e de direito.



 


Sabia-se abatido por todas aquelas divergências quando o tempo deles terminava e regressava a casa. Seria apenas ele que ali viria? Ou toda aquela exposição o cobrira de novas intrusões, emoções em camadas que se cimentam no dia a dia, a ponto de assim as sentir, como perplexidade grátis, em seu redor, como escamas. Como se quer esquecer de tudo isso e ser apenas um irrepreensível e anónimo rosto numa multidão que ali não existe. 

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É certo que estás aí, mas dormes. 

Agora não me podes valer.

 É para te fazer uma surpresa.

 Para pensares que os publico directamente,

 durante o sono, 

num sonambulismo clandestino.

 Podes mexer os pés, mesmo assim.

Estarei para os sentir 

Resvalar

Almofada de música

Encosto de tábua

Fica ai, para sentires que não falho.

Confias-me o sono.

Confio-te esta vigília.

Sonos e vigílias virão.

Surpresas

Elixires

É como te vejo, 

não por retrato-robot

por luz matinal

por estremecimento

por reconhecimento

 

Razão tinha Michéle de Montaigne ao discorrer sobre a ventura de chegar a velho. Eu que não me sinto nada velho, agradeço a ventura de não tendo lá chegado, sentir os efeitos da tal sabedoria que a idade pode conferir. Encontrar o ritmo certo para manter as chamas acesas, prontas a irromper em labaredas de gás que aquecem água. Nada realizado, tudo realizado até onde podem ir as realizações. Abolida a angustia, a incerteza. Posso-me pasmar sem ficar estupefacto, ainda menos embrutecido. Sem favores nem merecimentos. Com a intensidade da trajectória coincidentes. Explicações ao acaso, o acaso flamejante. Já é outro dia pela divisão deles. Eu permaneço aqui sonâmbulo e desconforme, assumindo riscos sem qualquer reserva. Nem saudades do futuro. O futuro urdido no presente. Em todos os presentes possíveis. Mesmo o presente nocturno, sem horas. Estás aqui na mesma. Ainda bem que mexes os pés, descalça e formosa. 

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