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Convidados

29.05.15

Nomes conhecidos na lista de convidados. Pendentes num limbo confortável, informal, descontraído. Em lombadas de letras. Com os acessos franqueados. Sabem tanto ou por vezes podem saber parecer saber tanto. Depende das idades de decifração. Dos costumes internos. Da qualidade das prosas (do tamanho da letra). Trabalhos esforçados, compensados por todas as perguntas. Sem respostas directas. Directamente à fonte de ebulição. Por vezes falam mal e cospem no chão, riem-se dos outros convidados, com caretas. Dão-se logo a conhecer. Levianos ou fatais. Imprevisíveis. Mais fortes que os fortes. Pejados de cicatrizes inominadas. O acervo da história que se desenrola na sombra, de que se queixava Céline. Outros se queixaram tantos. Berraram até não ter voz, a mesma que outros usaram para ciciar toda a orgânica e toda a dinâmica, mesmo não sendo naturalistas.

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Ele diz Bergman como se o conhecesse

Diz que os filmes dele

Lhe parecem familiares 

Ele também diz outros nomes

Como se os conhecesse

Afiança

Que lhe parecem familiares

Ele diz que escolhe tudo o resto

Do mesmo modo

O bater das asas na torre sineira

O murmurejar dos chocalhos

Os barulhos todos sumidos

A ele parece-lhe lícito invocar

Costumes antigos, convocar augúrios

Pretender frequentar os melhores poetas

Sem ter tempo para todos eles

Por lhe parecerem familiares

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inscrever o voo insubmisso das moscas

recolher os sons indecisos das aves

a imberbe aranha entristece uma teia

as volutas de fumo insondáveis sob o feixe do sol

ruídos no ondular das cortinas cegas, surdas

para ruídos e pianos, sussurros de

ervas entontecidas de calor prematuro

inscrever a linguagem dos pássaros

das aranhas, das moscas, dos bichos alados 

sem nome conhecido, 

num qualquer manual sem título

 

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Por passatempo ou por necessidade. Por hábito que se foi instituindo, por necessidade interna. Pela determinação genética. O tempo permanece espartilhado entre tudo o que se poderia fazer na existência. Não há reclamações pendentes, não há tempo que se possa tirar ao sono. Não há tempo para se tirar à vida, soberana (muito mais que a dívida); mais do a vida das palavras, mais do que a originalidade ou redundância dos relatos, a arte suprema dos passos percorridos.

 

Sendo a vida mesmo, aquela que todos possuem, a maior inspiração para outras vidas que se quereriam diferentes, por racionalização, por sublimação, por não saber o que fazer com tanta informação. Perceber se isto é vocação ou apenas passatempo. Se daqui nasce uma voz qualquer que possa ecoar com agrado aos demais ou se é apenas um sermão para gente distraída, que capta passagens do emaranhado do discurso, sem que se perceba um sentido definido.

 

Entardecer vivendo, esperando que os Entardeceres não sejam da resignação para onde indelevelmente pretendem anichar este povo. Mesmo nada podendo fazer contra todos os abusos que se cometem, uma declaração de voto, embora vencido, marca a posição, toda a sinalética a indicar que a resignação ocorrerá só com a morte física. Até lá, viver o melhor possível. Escrever o melhor possível. Entardecer participando nele como se cada um deles possa ser cooptado para o gáudio. Um sentido concreto de vida. Um sentido indefinido de escrita. 

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Mudança

27.05.15

O Pancadaria (blogue). A Pancadaria (atitude). A queda de uma palavra não plasma queda nenhuma. Propõe vontade de mudança para outros patamares. Não necessariamente elevatórios. Necessariamente diferentes. Difusa vontade de inflectir para uma direcção desconhecida, com os conhecidos instrumentos de orientação. 

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Não é uma esplanada para observar o mundo. A colina verdejante separada pela autoestrada. No meio do silvo provocado pela deslocação dos automóveis, ouvem-se pássaros cantar. A vista é agradável, não fosse o ruído de fundo e eventualmente todas as preocupações de quem sente uma parte de si doente.

 

Neste local apetece simplesmente estar, esperando consultas de diagnóstico previsível. As sequelas de todas os cuidados que não tive com o corpo, por preguiça ou por falta de aviso. A idade cobra o seu quinhão nas células que não se regeneram. O corpo sentencia sem qualquer hipótese de recurso todos os delitos contra ele cometidos, sem atender ao arrependimento. Com dispositivos de punição alicerçados na dor todo o arrependimento é possível, sem que possa trazer qualquer redução de pena.

 

É fácil aceitar que tudo seja assim quando a pena irrecorrível da dor é suportável e o dano não é definitivo e pode ser mitigado com o arrependimento. Quando os avisos e a vontade de prevenir a prática de futuros crimes se sobrepõem ao medo de enfrentar as penas aplicadas, obtêm-se tréguas duradouras ou a prazo. O respeito pelo corpo tem tudo o que se lhe diga, sobretudo quando se sabe que esta justiça descrita em compêndios de medicina , embora esteja parcialmente codificada no ADN, não está assim tão evidente  em qualquer juízo de prognose.

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À NOSSA SAÚDE

16.05.15

Os hospitais privados proliferam. Há muito que começou esse fenómeno designado por «outsourcing». Na saúde, na justiça, na educação... a própria governação parece ser inspirada por interesses externas ao estado. É tão fácil desinvestir, é tão simples o Estado demitir-se das suas funções, sob o pretexto de que as áreas retiradas da Res Publica, funcionam mal. Podem de facto funcionar melhor, mas custarão mais dinheiro e como se tem visto, não estão imunes à corrupção. Funcionam bem, se o investimento necessário para que funcionem bem, existir. 

As primeiras palavras que um ministro deve saber soletrar convenientemente são: reduzir a despesa. Se o fazem no óbvio, esquecendo-se que as dietas assim decretadas não reduzem as gorduras localizadas, os cancros da corrupção permanecem e são as células saudáveis que se sacrificam.

A ADSE deu resultado positivo, apesar das fraudes investigadas pela justiça, que invariavelmente produzem parangonas sensacionais e condenações ridículas. Amiúde os milhões que foram obtidos de forma ilícita, não são repostos. O Estado demite-se porque é mais fácil ceder parcelas de negócio aos particulares, cedendo às pressões das áreas de negócio, do que empreender a excelência, tornando valências dos serviços, eficazes e racionalmente geridas.

São hospitais recentes, com todas as valências. Hospitais com esplanadas bem mobiladas. Átrios com esculturas e pinturas, elevadores, assistentes simpáticas, parques de estacionamento, consultas notificadas por SMS. «Mordomias» de quem se pode deslocar aos centros urbanos onde tais hospitais proliferam. Em comparação com o moribundo SNS, que cada vez mais é para quem não tem mesmo possibilidades de recorrer planos de seguros de saúde ou não tem condições materiais para se tratar, pagando.

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Sebastião Pombo, depois de sair da esplanada movido pelo hábito, os pés a pousar nas mesmas pegadas do dia anterior, apreciando uma brisa quente de primavera. Indeciso quanto ao que iria jantar, se é que se daria ao trabalho de jantar, sem que lastimasse não o fazer porquanto resultaria da inércia em juntar alimentos. Desejava aborrecer-se sozinho, sem tanto barulho, sem tantas interferências. Ficar esbodegado num sofá a requentar considerações antigas, ao som baixo, para não acordar qualquer fantasma. Era muito consciencioso neste aspecto: não acreditava em fantasmas, mas para o caso de os haver, não convinha ofende-los de modo gratuito. Nem aos anfitriões das esplanadas.  

Ocorre esta narrativa dispersa depois do desaparecimento dos arrumadores de automóveis, os quais nunca haviam regressado para a sua ocupação e sem que alguém se interrogasse mais do que o próprio Sebastião. Aliviado, embora não tivesse automóvel, nem aspirasse a ter. Os dias decorriam modorrentos, numa rotina de repartição com interesses difusos e noites de grato aborrecimento privado, depois do aborrecimento público da esplanada. SP não se julgava com posses para sentir tédio. Isso era demasiado frívolo para ser admitido na sua moral. O aborrecimento como anestesia isenta de impostos, para o sentido invariável da sua vida unilateral, descomprometida e vagamente sonâmbula, sem grande préstimo nem para a nação, nem para as artes. A arte de perpetuar a anestesia, sem se descuidar na imagem, para não o tomarem pelo verdadeiro vagabundo que era. Passava pelas esplanadas como se existisse, mas não pudesse perturbar qualquer ordem estabelecida, por mais absurda que fosse. Praticava com pouco entusiasmo o desprendimento, como se isso fizesse parte do pacote do aborrecimento. Era por isso que a questão de jantar se lhe colocava enquanto se dirigia para casa, uma velha casa de pedra dos ferroviários, junto à linha do comboio. Isolada e sem grandes vestígios de ser habitada.  

Servia-lhe convenientemente para especular pela sua realização ou não, da conveniência da sua preparação e realização, do estado de espírito relativamente a isso e sobre o modo conveniente de colocar a questão, de um modo orgânico ou social, apesar de ser um jantar solitário, ele ainda se julgava pertencer à sociedade. A escolha dos ingredientes ficava reservada para mais tarde. Era demasiada especulação pós laboral e tinha que eventualmente ser enfrentada por etapas, postergando a escolha de eventuais ingredientes conciliáveis para depois de uma tomada de decisão formal sobre o jantar em si. De vez em quando Sebastião Pombo divertia-se, assomava à tona das águas pouco límpidas em que se abrigava, julgava tomar decisões baseadas na racionalidade, sentindo-se confortável nestes preliminares para um jantar que ocorria muito poucas vezes, no sentido clássico de qualquer jantar. Também porque os locais dos seu calçado estavam demarcadas pela repetição da sua deslocação da esplanada do café Sol e Mar, para sua casa improvisada. Nele não residia qualquer angústia sobre pó ou sobre a maneira informal como se organizara, cuidando de mexer o menos possível em qualquer objecto.  

Para além de se esparramar sobre um velho sofá de tecidos de cores vivas e de se demitir de tomar uma resolução tão importante como decidir, assim de repente, se iria ou não jantar. Esperava sempre que a reflexão prévia tomasse uma decisão por ele ou que a decisão se apresentasse tomada. Não contava evidentemente com nenhuma tomada de decisão do seu corpo no sentido de se encaminhar para acções práticas da realização de um jantar, daqueles que se comem com faca e garfo, sentado à mesa. Sem que houvesse uma forte determinação para o fazer. Deixou-se ficar sossegado, a tentar recuperar de todo o esforço escatológico em torno do jantar. Descansava por fim do dia de trabalho na repartição, da observação acompanhada de notas, da esplanada do café Sol e Mar e da parte final daquele dia muito preenchido de todas as insignificâncias que é possível imaginar. Despachadas para as calendas da sua pouca importância. A Sebastião Pombo nunca faltava nada porque fora acostumado a nada desejar. Talvez isso já constasse de forma conveniente no património dos genes que não fosse necessário nenhum catalisador para tanta indiferença perante todos os acontecimentos do mundo. As notas que tirava nem para ele faziam sentido no dia seguinte, como se alguém usurpasse a identidade e com ela se exprimisse, por já não possuir corpo material para o fazer. Agora, confortavelmente alapado no sofá, não precisa de mais nada do que isso. 

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Hoje o pequeno ponto no mapa mundi ficou o mais verde de sempre. São números inesperados. São números de interrogação, frios, estatísticos, súbitos, sem um nexo de causalidade, órfãos  de uma explicação. 

 
 
 
Uma enchente saída do nada, de repente. Educada. Lê e retorna à sua biografia. O mapa fica verde de afluência, sem mais nada. Todas as singularidades que o tornaram verde ficam numapenumbra impenetrável. O pólen espalhado por um vento de rajadas forte, incapaz de fixar e fecundar. 
 
Por receio, renunciou ao propósito de transtornar qualquer alma. Qualquer espírito. Cada um que se arme cavaleiro contra os seus fantasmas e forneça a luta necessária para que não se convençam que são reais. Alguém obscuro, é certo, mas sem qualquer anátema. 

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Tantas linhas seccionadas. Algumas imperfeições. Alguns cantos por pintar. A grande imagem. Toda. Já sem pormenores a distorcer o geral. Interessa o particular. Todos os particulares. Que não falte nenhum. Que a mesa esteja completa. 

Linhas seccionadas que se entrelaçam. Linhas recompostas, mercúrio rolando sobre a superfície. Reacções químicas; formação de cambiantes. Acasos indecifráveis. O código estava mesmo à vista. Sem o codificador. O deslumbramento ao virar da esquina.

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