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Agora não estou a delirar, apesar dos anseios percutidos na vigília. 

Aspirações validadas para subsistirem sem esforço, sem garantias. Concretos desejos ao quais se podem chamar de sonhos. 

Os enredos de que me lembro, sob suspeita de serem apenas isso: aspirações [a ti que não te conhecia...], para além das realidades tangíveis, assumidas como anseios do âmago da espécie. 

Que interessa o que terei sonhado, quando o verdadeiro sonho, ou a falsa realidade, faces da mesma moeda, cunhadas em solidão, se desenham em tramas de que não me recordo. Não preciso deles para nada.

Todavia, ainda aqui estou. Não a sonhar, mas a viver. Sem assombro com sonhos de que não me lembro. Com assombro assumido pelos que me lembro. Sem saudades de quaisquer pesadelos. 

Pronto para validar o bilhete desse temerário crente que permaneceu, para além da razoabilidade e da realidade que inunda os sonho de todas os pormenores plausíveis, neste limiar, mesmo que a espera pudesse ser a solidão de quem espera de Godot.

Ainda aqui estou, sem histórias de grande monta, a subir uma montanha, sem que qualquer esforço me desanime, mesmo os que me podiam desanimar. Saído de um acampamento base destruído por um terramoto benigno. 

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Estou, de facto, na rede. Vim cá ter propositadamente. Brisas. Tractores agrícolas. Chocalhos. Indefiníveis pássaros piam. A ruralidade no seu esplendor. Fora de mim. Aprecio o fim de tarde. Este pedaço exterior apetrechado de rede e de sol e de brisas. Finalmente por decreto meteorológico, por oportunidade, já não preciso dizer que dei cá comigo. Estou de facto, na rede.

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De que  vou escrever, Assim de repente. A rede. Está-se bem aqui. A bambalear suavemente. Tão grande prazer não presta para assunto. A música desvaneceu-se. Encantado. O pastor chama as ovelhas numa pronúncia estranha. Vozes de pessoas ecoam nas redondezas. Estou mesmo aqui assim transido de quê? De frio não é. É de reflexão porventura. A rede serviu-me para pensar, antes. Não vinha para aqui pensar. Vim estender as pernas, absorver o meio ambiente que me rodeia, coçar as bochechas ou marinar sonolências. 

 

Congeminar histórias diversas. Imaginar algumas pela percepção do exterior vivido. Cada um tem a sua Tabacaria. Sem pensar muito na cara descaída (máscara de esforço mental?). Descaída por se deixar descair neste tipo de pensamentos. [Co]Existem outras caras, sem máscara. Não é complicado. Não é despropositado. A cara descaída é mesmo de pensar, em assuntos complicados. Modelos. Formatações. A desdenhar de qualquer posse. 

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Fico aqui na angústia de não querer saber de todos os deveres que deviam estar delegados num autómato, mesmo que fosse um  que não fosse parecido comigo. De última gama. Afável e eficiente. Na clausura do tempo que aprisiona a fantasia, trocado por uma irrisória compensação de falso conforto. O livre-arbítrio serve-me para registar o domínio que possuem, não ter propriamente nenhum esquema para não precisar deles. Nem das cartas de ética que não cumprem e me repetem a mim para cumprir. Eu que as cumpro como algo que não decido, há tanto tempo que fazem parte de mim.

 

Falha-me a ética para isto: para ter a veleidade de ter opiniões e as escrever. De me dizerem que aquela revolução foi feita para poder exprimir-me com honestidade. Mas falha-me a ética, nas regras deles. Como me falha a memória e a vontade de desempenhar tarefas úteis, que inevitavelmente e por sugestão ou higiene farei. Estou a adiar. Convocando motivos sem nexo de causalidade para me angustiar. Literáriamente ou num vago sentir, estremunhado, que interessa? 

 

Assim sendo e por ora, o sentir de censura é mais uma questão de ideias. Pelo manual deles, querer pensar deve esgotar-me. Tenho que estar formatado e obediente. Não me cansar com tudo isto, que não resulta em nada mais que permanecer obcecado. Em descobrir paradoxos, em escavar contradições e olhares, pantominas. Preciso é de sol e de me movimentar, de abrir os olhos? De sair deste local sombrio e esquecer-me de todas as contradições. De todos os formatos. Um mundo novo está a nascer.

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Na tarde dolente, o aspirador permanecia, sem incomodar ninguém, absolutamente silencioso e imóvel. Sem alma, nem movimento como as moscas saídas de nenhures, esvoaçando incómodos. As folhas jovens do castanheiro assumem tonalidades diferentes consoante a luz que lhes incide. Estremecem. Há apenas verdes em segundo plano. 
 
Depois, um pequeno vislumbre. A rede contem-te. Adivinha-se. As vozes de fundo são vozes desesperadas. Os fantasmas esconderam-se numa clandestinidade receosa. O vento pode trazer-te para dentro. Estás cá mesmo não estando. A paisagem é a de sempre. Não sou o de sempre. Desejava-o. Que se lixe a paisagem se estás aqui. Se estamos aqui de comum contentamento. 

 

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Tenho-me revoltado contra tantas injustiças, sem préstimo. Nem para mim, nem para a causa. Caso se a admita a posse de algum tipo de causa. O desassossego não é uma causa. É um resultado ou um processo, um método desgovernado de sair de todo o tipo de sarilhos. Ou de permanecer neles em lume brando, sem decidir nada. 
 
As causas exigem tudo, mesmo que nada haja no fim para celebrar. São possíveis ou impossíveis. São próximas ou distantes. São oficiais ou são particulares. Ainda não decidi nada neste limbo de desassossego. Filmes inconclusivos. Histórias inacabadas. Romances sem fim à vista. As causas são muito grandes. Como grandes árvores que podem ser abraçadas por várias pessoas.
 
Paciências improváveis. Sem baralho de cartas. De jogar ou de marear. Vogando no mar azul de expectativas mais que razoáveis. Alguém que. Que é mais alguém do que o Alguém que. Uma noite limpa, sem ruídos, um olhar de fiel amigo. Um lambidela de agradecimento. A marinar o futuro de amanhã. A soletrar bem as letras para se inteirar do significado. 
 
Os nichos de repouso, retemperar força para causas imediatas, para dias de conhecimento, para dias de sentidos alerta, de perspicácia. Nunca teremos a hipótese de tudo mudar. Muda-se o que se pode, nem que seja aos bochechos. Nem que não seja heróico. Há seres muito mais mal cotados, mas nem sabem o que é isso da cotação. As histórias estão encriptadas. OEnigma foi destruído. É preciso recomeçar cada dia, mesmo que não seja dia para isso. 
 
Os dias existem mesmo e transformam-se em anos. O tempo passa depressa e faltam tantos livros, tantos riscos nas tarefas para realizar. Abraçada a árvore, a causa determinada, não vai faltar a cidadania particular, não há desassossego suficiente para ficar em casa, mesmo que se fique a retemperar-me nesta árvore-causa que floresce, para o salto habitual para todas as rotinas admitidas. 

 

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Deambulação

08.05.15

A propagação de mensagens através de invisíveis ondas, supostamente identificadas, supostamente fiáveis. Através delas os sons maviosos escoam-se. Nada concreto, evolam-se no momento em que soam, como os pensamentos descartáveis. Que, igualmente descartáveis, ficam registados. 

 

[Agora que aprendeu a esconder-se atrás das palavras, em meias tintas com muitas interpretações, falha a espontaneidade do prosaico; continua a existir a rádio, sem palavras. Circo de sons. Os almejados anos do Jazz. Tudo o que está para trás é apenas um processo, um método. A dialéctica sufragada de comum acordo. Os meses profícuos e desesperançados. O elixir da invenção. A solidão.]

 

Foi para isto que deambulou, nas noites e madrugadas. Para se exprimir o melhor possível sem engolir ar, sem ter que estar presente. Sublimado da dor que acompanha quem não encontra o que procura. Foi para isto que se processou todo o refinamento possível. A depuração. A descontracção

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Sem Aviso

08.05.15

É o fim de um tempo. Um tempo qualquer, aleatório e sem datas definidas. Etapas não programada, apesar de todos os projectos que se configuraram (nunca se conseguem cumprir como delineado).


Nada de programático: o resultado de verdadeira dialéctica, de tácito acordo em aceitar as simples leis naturais desse método de avançar no conhecimento do mundo e dos outros.

 

O encontro não programado. A dialéctica persistente, como força motriz a um rumo coincidente. Um estado de graça, permanente. A aurora radiosa. O começo de um tempo nunca anunciado. 

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O FIM DO GELO

07.05.15

Não estava confuso. Poderia confundir-se estar atento e expectante, como receoso. Uma vez dissera: «Não houve receios que alguma vez me pudessem ter valido para nada.» Nem para tudo. Aparecem sempre, como processo, trabalhar de rotina. Ruído de fundo? Condição humana? Qual condição humana. Há quem não viva para se entreter com perguntas de resposta incerta. De carambolas. 

 
De novo o que ele disse ou pensou, cujo interesse é facultativo: «Carambolas? todas as necessárias para se dançar convenientemente. Sem assistência. Ao espelho.»
 
O Coro dorme o sono dos dispensados sem rancor. Ele não dorme nunca o suficiente, ou gosta de pensar que sim. Está firmemente convencido de que vale o sacrifício. Dos dias todos dum ano que ignora quanto tempo mesmo demorou a passar. Os quarenta dias no deserto?
 
Por fim o requiem para uma idade. Para o degelo. O recuar das neves eternas, os glaciares a mostrarem o que andaram a esculpir durante tanto tempo.

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São setecentas folhas A4 frente e verso o que resulta do resgate da parte escrita, própria, deste diário improvável. Ainda não tinha descoberto o jazz sequer quando começa esta colecção de textos. O que descobri desde então pode estar plasmado neste diário.
 
Do árduo trabalho de o expurgar de imagens declarei-me livre. Consta dum ficheiro único. Do árduo trabalho de fazer sumir todo o ruído, todas as mundanidades e permanecerem os textos que interessam espero declarar-me livre dele. Tenho toda a curiosidade de ver 2014 (critério espúrio para quem se manifesta contra a divisão artificial do tempo). O núcleo denso deste diário.
 
Contarei poder recensear todas as descobertas, todas as mudanças que ocorreram na maneira como me exprimo perante vós. Aqui se passa parte da vida mental. Do fatalismo dos genes a enviar-me para isto. Da persistência. Do jogo jogado. Tendo jogado pelo seguro? Ou desmascarei-me demais?

 

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