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Inesperadamente, como é inesperadas aquilo que se pode designar por surpresa: a estação de comboios onde toda a vida (o que devia ser, por si só, uma qualquer garantia) houve alguém por trás de uma bilheteira, existe uma porta fechada, pelo estio do meio dia e meio, com um aviso que não se pode ignorar, que a porta se deve manter fechada por causa do ar condicionado. 

 

Não querendo saber do ar condicionado reparo que, para cada dia do mês existe um horário diferente. Não me apeteceu perguntar informações sobre horários a um pedaço de ferro com uns orifícios. A estação estava deserta, uma ovelha berregava num pasto. Não fosse uma família a almoçar sob a sombra duma árvore, não se descortinava viv'alma.

 

A ausência de vida. Espera-se que uma estação seja local de gente que chega e parte. Vítima de uma informação errada, calhou-me o lado fantasma da estação. Por isso me deve ter parecido ainda mais deslocada. Mais inútil. Porque se pode começar um filme, um livro, uma vida a partir de uma estação de comboios.

 

O mesmo que o pó que se acumula nos ecrãs, tornando falível e pouco tecnológica qualquer tecnologia, a mesma tecnologia que dispensa pessoas de serviços. Uma máquina não te dá uma borla, mas dá informação, cujo processamento altera a maneira como qualquer voz humana soaria, se não fosse através daqueles orifícios metálicos por trás de onde provém. Não soa a humana. 

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"Uma equipa de astrónomos liderada pelo português David Sobral anunciou esta quarta-feira a descoberta da galáxia mais brilhante alguma vez encontrada no início do universo e foi batizada com o nome do craque português: CR7.
A galáxia CR7 - remonta aos tempos em que o Universo tinha 800 milhões de anos - encontra-se numa zona chamada Cosmos e é três vezes mais brilhante que uma outra galáxia dos primeiros tempos do Universo, a Himiko à qual pertencia o recorde de luminosidade. A CR7 é milhões de vezes mais brilhante que o sol.
Em declarações ao DN, David Sobral explicou o nome CR7: "É uma abreviatura de Cosmos e a área onde foi descoberta - Redshift 7, no entanto, foi claramente inspirada no brilhantismo do craque português."

O facto de baptizarem a galáxia deste modo não atrairá a tribo do futebol para as emoções da astronomia. Torna a galáxia mais popular entre quem não liga às verdadeiras galáxias e estrelas. A galáxia fica assim com um nome fácil de identificar e de lembrar. Pode até servir do bom argumento da auto estima nacional. A galáxia mais antiga e brilhante... das primeiras galáxias.... a mania das viagens dos Portugueses, desta feita ao fundo dos tempos.

 
A galáxia já não existirá com aquela configuração... uma vez que aquela luz demorou mesmo muito tempo a chegar cá. O jogador entra-nos pela casa todos os dias, se necessário for. A galáxia estará muito longe na compreensão e no estudo que justificará. E há tantas galáxias, desde as astronómicas, até às futebolísticas, passando por todas as outras galáxias em que toda a gente vive.
 
CR7 é literalmente de outra Galáxia - Sapo Desporto

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Alçapão

09.06.15
Alguém abriu o alçapão. Içou-se sem nenhuma relutância, titubeante pela falta de habituação à nova atmosfera, trémulo de músculos pouco desenvolvidos pelo cativeiro.

 
Resgate operado em resposta a sinais quase inaudíveis, lamentos que se perdiam na imensidão da noite descontinuada daquele subterrâneo. 

Acabaram os devaneios sobre o tempo e o modo de alcançar a luz de um dia qualquer radioso; os dias riscados nas paredes, sem uma data certa para libertação, as súplicas esculpidas em improváveis misturas de cores e formas. Pedidos de ajuda disfarçado de oferendas, sem ninguém a quem oferecer.
 
Içou-se. Está mesmo em cima. A mão dada para sair do local improvável de fuga:


-« Ainda bem que apareces tu, e não mais ninguém: és a resposta completa aos formulários submetidos, pulverizando as expectativas todas!!! »
 
Sair dali, do local onde se desenrolaram todas as dúvidas, do nicho de onde saíram ecos dos planos de fuga ou os chamamentos mais dolorosos, os momentos de dúvida ou as esperanças sem credibilidade. Permanecem as paredes escritas, sem muito sentido, sem a beleza de formas que apenas foi possível esculpir na imaginação desenfreada. 

A realidade é mesmo muito melhor do que a ficção.
 
Saem finalmente. Agora que saem não perdem tempo a olhar para lá. Saem juntos porque precisam mutuamente de prosseguir em direcção do destino concertado que se mostra exequível

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Por vezes quedava-se mal disposto. Por irrisórias preocupações. Apetecia-lhe reinventar a linguagem.

Inventar palavras novas, quando sentia que as que tinha combinavam de modo habitual, e lhe faltava o génio ou o sofrimento para as deslaçar do seus habituais companheiros. Juntando-as a outras de modo pouco habitual.

A isto pode-se tentar chamar vários  nomes.

Não se dizem nomes.

 

 [sem que fosse animado por qualquer ideia sobre como isso se poderia fazer, sem a desrespeitar...]

 

Nada disto é a sério. São crianças que brincam no descampado. São flores selvagens, não especialmente belas, resilientes, por si mesmas.

 

São acordes de viola acústica. O sono dos inocentes. O novelo a formar uma enorme bola.

 

Um esconderijo para o tempo? Canções pouco ouvidas. Não se trata de religião. Indiferença respeitosa.

 

A terra de onde provém está infestada de acentos, de excepções. Garimpa em suor e pouca convicção, alguém que se senta num velho baloiço e sabe que cresceu. Em elipse. A trincheira não era demasiado funda. Qual trincheira? era apenas uma miserável cova, com proporções do medo.

 

Há quem não precise deste blá!Blá!Blá!

Ele não precisa deste nem de nenhum. Precisa dum próximo, se houver. Há sempre sobras de palavras amontoadas que ninguém quis.

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Apaga as frases todas. Isto já foi escrito quantas vezes? Pode-se voltar a escrever tudo de outra maneira? Ou será demasiado aborrecido, revirar frases, como quem revira panos à procura de capas de livros. 

 

Com tempo para revirar frases? O tempo será o que se quiser fazer com ele. Até procurar as melhores letras  

 

O tédio existencial de qualquer futuro a la Ballard?

Um tédio pior desde sempre, como uma sombra, fiéis dissabores.

 

É o dissabor que produz o desassossego? 

A um verdadeiro poeta interessa o Amor, a dor é destino, umas vezes sim, outras vezes não.

 

É-se poeta na mesma, com dor e com amor.

Até pode ser destino, de maneira simples.

 

Ser feliz é simples. Ninguém sabe onde procurar logo.

Quem encontra quando quer? 

 

Já existe. A cortina não era de ferro. Não naquele portal do tempo. Outro tempo. Este tempo. O desassossego mirrado. O semblante finalmente descontraído.

 

É simples e não é. Sentidos alongados. É encantador. Druídico. As fórmulas não escritas que perpassam o seu espaço atómico.

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