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Sentou-se na esplanada de cadeiras vermelhas, dessas de PVC que as marcas monopolizam. A empregada demorou aquilo que lhe pareceu uma eternidade a atende-lo.  Sentia-se sequioso, mas não o suficiente para se levantar e pedir um copo de água, interferindo na ordem de atendimento, o que era ainda pior do que a sede que sentia. Uma eternidade que se alongou até o refrigerante gaseificado chegar, gelado e infestado de bolinhas de gás carbónico.

 

O desconforto da sede tornava-o ansioso. O atendimento demorado levava-o a sentir que faziam de propósito para o martirizar, como se a espera fosse alguma espécie de teste. Foi necessário alguém reparar num papel a admitir um empregado para se aperceber que isso explicava aquela demora. Continuava sequioso.


É certo que não se levantara, não dissera que estava sequioso. Se aquilo fazia parte do menu, então cumprir-se-ia o desígnio de esperar pacientemente. Ocorreu-lhe Sherlock Holmes e todas aquelas pequenas coisas óbvias e evidentes a que não se dá atenção. Não conseguira isso até que alguém cujo interesse no anúncio se manifestou e caiu, por assim dizer, em si. A explicação era tão evidente que doía não ter co-relacionado o anúncio de oferta  de emprego com a lentidão de serviço.

Para ele era agora tudo claro e evidente. Ele que se esforçava por não fazer, no seu próprio trabalho, o trabalho dos que faltavam, pois isso era a armadilha clássica de muitos patrões. Quando as pessoas trabalham por si e pelo outros nenhum patrão admite mais pessoal... Por isso a sede que sentia passou ser mais suportável. Aborrecia-o não ter percebido logo isso, mas foi capaz de se rir porque afinal aquilo tudo confirmava a tese do mestre da investigação.

 

No entanto, esta dialéctica que se formara, acrescentoiu outra inquietação (mesmo depois de ter sorvido uns goles do refrigerante): a de que, apesar de se solidarizar com o empregado e não ser lhe ser exigível que executasse o seu trabalho e o que competiria ao que ainda não tinha sido admitido, iria pagar por um serviço que ficou irremediavelmente afectado pela falta de um funcionário. Não lhe iam fazer nenhum desconto por esse motivo e portanto a sua solidariedade com os assalariados impedia-o apenas de protestar directamente com a empregada. 


Para além disso sentia-se incapaz de pedir livro de reclamações ou até de reclamar. Se nem coragem havia tido para, a pretexto da sede que sentia, tentar obter uma inversão na ordem do atendimento e rogar por um copo de água (pediu um refrigerante...). Não lhe apetecia igualmente confrontar quem estaria a lucrar com a falta de um empregado (até isso depois lhe pareceu um pouco questionável e merecedor de ulteriores reflexões, afinal não tendo o empregado o patrão poderia igualmente estar em perda).

 

Finda a sede e retomado normal curso do objectivo que ali o trazia, consolava-o o facto daquele contratempo ter servido para se colocar a pensar nestas questões, em vez de protestar com quem não tinha culpa na demora no atendimento, o mais fácil de fazer. Tinha ganho um momento de reflexão que embora nada de útil e visível trouxesse no imediato, tinha-o obrigado a reflectir e a proceder com a devida cautela. Afinal poderia ter estragado o seu momento e a disposição de quem já tinha que trabalhar naquelas condições. 

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Acontece na clandestinidade de todo o pensamento: poder atirar com culpas para o chão e buscar comparações favoráveis: encontrar o melhor ângulo para o auto-retrato. 

 

A remissão das vicissitudes? 

As idiossincrasias dos actos passadas pelo crivo da indulgência? 

Até que ponto se pode ser indulgente?

 

 

Paradoxal como querer tudo experimentar, quanto se tem todo o tempo para o apreciar. 

Paradoxal como querer saborear o que se escolhe quando já não se tem o tempo todo.

 

      A espuma dos dias levada ao extremo, ao crivo das explicações. Mergulhar de cabeça. Esperar o futuro como se os equívocos tivessem sido o substrato de tudo que evoluiu. Um gráfico em crescendo? - Pois, a aprendizagem!

 

      Os devaneios reduzidos à condição da sua imaterialidade. Pode-se reler o livro todo e não encontrar as respostas. O que há para além dos vãos pensamentos, Horácio? O que está para além do conhecido e não é garantido que exista.

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A Via Láctea passa aqui por cima. Cintilam na noite de cães que ladram sem consequências. Devo ser louco para assim me tentar exprimir, como se fosse eu que aqui estivesse. 

 

Podia ter descascado paus sequestrado à lareira e tinha-os emaranhado todos de novo. Escusava de pretender ser sincero. Impedia-me de datar os textos... há tanta tralha sempre para deitar fora. 

 

Não conheço os nomes das estrelas, os olhos míopes observam com a deformação adequada, com o desconhecimento. Com a magia que podem evocar. Com os pés descalços a sentir a erva. Todavia estão aí sempre, incatalogáveis para a miopia.

 

Não me trazem nada que já não tenha visto, as luzes enxotam-nas. Os sons nocturnos cheios de verticalidade, na nitidez da escuridão. Música indistinta o suficiente para não incomodar. Mesmo o passarinhar dum melro nocturno nas folhas secas. Com os devidos retoques os grilos são reis omnipresentes.

 

Poderia ter edificado as teias onde me esconder, adensar o labirinto devidamente tratado contra os entalhadores silenciosos de onde me vem a inspiração longeva. Sem admitir para além da classe inqualificável dos errantes. Emprestam os dedos e os braços, talvez o domínio das palavras, para que troncos mais dóceis possam ser assim preparados para toda a utilidade. 

 

Paráfragos sem rumo, com a substância na orla da compreensão. Se isto fosse assim tão fiável. Até a assinatura ainda é emprestada. Na noite fresca e azul de um momento per si. 

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Não encontrava, por ora, qualquer simbologia entre o número e o símbolo. O símbolo que não era número, embora também fosse numerado. Era o número que estabelecia a conexão com o símbolo. Reconhecia o seu desconhecimento em simbologia para se atrever a ir por aí. Qual simbologia?

 

Os símbolos disto e daquilo. Cada um a socorrer-se dos que lhe agradam, ou dos que entende. Os símbolos agradam-lhe tanto como a todos os outros. Há quem partilhe simbologias e isso chegue para fundar uma irmandade. Confrarias de símbolos, mesmo os inominados. Aqueles particulares e que não servem para nada senão para o cérebro se distrair. Partilhadas em incomunicadas mensagens. 

 

Nunca parava muito tempo na mesma confraria, saltava de uma para outra logo que a novidade se esgotava. Era sempre a próxima ruptura. Sem romper. Permanecia o gosto e a habilidade que não se perde toda com o pousio. Depois dos primeiros acordes sobrevém a neurose da criação. Sentir o acabamento liso da última lixa. 

 

Sobreviver a todos os caminhos que não são plausíveis. Recomeçar onde se acabou há algum tempo. Com o mesmo frenesim. Inovar nos procedimentos, avançar rumo a um resultado ainda incerto. É sempre incerto, por isso empolgante. Afaga os dedos na secura da laranjeira. Os materiais dominam os sentidos, revelar o escondido na natureza perecível (o fogo reduz a um monte de cinzas) os mais perecíveis dos devaneios. 

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Numa noite de Helvetica não superior a um impulso, sem símbolo.Em vez da multiplicidade da natureza, aquele elemento. A Helvetica é como pigarrear. Antes de não dizer nada senão o que advém das circunstâncias. É a noite reduzida a uma tipografia. O que resta dela. 

 

Destacar aquele elemento. Como se não existisse mais nenhum com interesse para o relevo. Coexistem vestígios das antigas batalhas, sem relevo. Redesenham-se os mesmos animais uns por cimas dos outros, redesenha-se a aparência dos materiais. Evocam-se números. Com símbolos. É esta a incerta concepção da plástica.

 

A plástica revela tudo. Tudo o que se pode dizer a alguém com a especificidade de não ser conhecido esse interlocutor. Golpe de vista e golpe de mão. O símbolo indispensável daquela organização de símbolos. A persistência involuntária de elementos que combinam os átomos em total disponibilidade.

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