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Aparições sem formula previamente sintetizadas, ao ritmo ansioso das erupções. Desenformar sem arrefecer, sem pausa para arejar a gramática trôpega. 
Arremedos aos mestres, lapsos de escrita ou frases dos dedos, sem explicação tangível.  

[confessionário, para uma assembleia não identificada, etérea].
 
Até biselar a semântica, pelas bordas do caminho o lixo permanece como testemunha esclarecida; Um riacho de lava que se solidificou e assim permanecerá. Há demasiada lava depositada para ser removida, uma vez tornada sólida.

Depois de expelidas as últimas cinzas começou a verdejar, nasceram lagoas. O silêncio a sepultar as torrentes viscosas da violência incontida. Para não erodir o cone afilado do afloramento, o vento cospe palavras para o coberto inóspito, para o fecundar com o sémen da comoção . 
No silêncio dos ventos dominante, as fumarolas que ainda se evolam no azul liquido das águas já não revelam quase nada dos traumas da crosta cindida.
 
Soa a remoção da argamassa interna, sismógráfo projecto sem antevisão; Proliferam ervas livremente, de sementes incertas, em circunstâncias ora adversas, ora favoráveis.
 
Continua toda a força telúrica que a desencadeou, mas deixou de ser visível. Das bombas catapultadas sem azimute nem cálculo de trajectória, repentistas! 
 
Argamassas de conspiração sem alvo determinado [Ânsia sem atender à atmosfera que solidifica a carne viva que aflora, que os ventos cortantes da anónimidade  dispersam pelo bordo da elevação].

Põem-se em questão a recompensa pela tensão dos acontecimentos, em crise permanece o paradoxo de nada ter sido previsto pelos sismógrafos, reportório de falácias...
 
O cortejo fúnebre da insónia tolda a verborreia. Pode também ser o tempo em que o silêncio seja tudo o que possa ouvir, enquanto na oficina subterrânea continua o magma latejante a escorrer embriões de revoltas, a reclamarem uma saída, nem que seja no rebordo do cone [tentação da glória mundi?].
Pode ser por uma noite ou por várias, para sempre ou para logo.

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O Futuro do Universo


«As leis de Newton são a base da mecânica. E por isso têm implicações filosóficas intrigantes. «Segundo as leis de Newton, o comportamento de uma partícula pode ser previsto se conhecermos as suas interacções com as outra partículas e as forças que nele actuam. Se fosse possível conhecer a posição e a velocidade de todas as partículas do universo então seria possível prever, com exactidão, o futuro de qualquer partícula e portanto o futuro do universo.»

À Procura do Gato de Schrödinger
John Gribbin
Editorial Presença
Mário Berberam Santos
 

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Teddy:
 « Great story. Gets better every time you tell it. So you lie to yourself to be happy. There's nothing wrong with that. We all do it. Who cares if there's a few little details you'd rather not remember?»
 

 

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«Nos casos mais extremos, havia pessoas que dormiam durante seis dias sem interrupção, o que deixou a comunidade médica de diversos países do mundo sem resposta para o sucedido.

Foi chamada de “doença do sono” e ao longo dos tempos começou a afetar cada vez mais habitantes daquelas duas aldeias. Inexplicável para os médicos, para a comunidade científica, mas não para as vítimas do problema.

Depressa encontraram a explicação (errada, no entanto. Consideravam que eram vítimas de uma maldição, vítimas de um envenenamento das águas dos rios próximos, vítimas de um fenómeno sobrenatural, até porque em algumas situações havia episódios de alucinação, náuseas, entre outros sintomas. Ninguém escapava. Jovens e idosos poderiam estar na mira da maldição.

Fonte: Fim do mistério nas aldeias do sono onde os habitantes dormiam dias afio 

«Galal, o filho mais velho, é considerado o mais sábio de todos porque passa a vida na cama desde há sete anos e só se levanta para ir à mesa. Rafik, o do meio, renuncia a casar-se com a mulher que ama, temendo que ela perturbe para sempre a doce sonolência que reina lá em casa. Como terá Serag o mais novo a loucura de ir trabalhar para a cidade? Porque a verdade é esta: o trabalho só pode engendrar desordem e desgraça.»

Fonte: Catálogo Antígona 

 

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Há sempre uma luz no fundo do túnel, ainda que role de óculos escuros. Desafio vencido. A gravidade. O foco na luz ao fundo do túnel de Farminhão. Um verdadeiro túnel para este pensar ser real. Com óculos escuros reais, numa bicicleta real. Repeti. Da primeira vez foi por distracção. Da segunda por desafio. Faço tudo por querer experimentar mais. Aprender. Saber como é. Ir primeiro ao básico. Ao sonho. Ao frigorífico. Espreitar o impossível. Ser até seu seguidor em noites estouvadas. Caseiras.

 

- Legitimaram outrora que pensasse por mim. Faço-o? É o último reduto de mim. Destruí-lo é destruir-me. Destruir esta versão. Nesta idade pode-se mudar de pele? Ainda é permitido? Qual o preço? É fornecida alguma garantia? De manutenção?

 

Esta pele está seca e com rugas de expressão, de rios superados, de fracassos, de desilusões, de muitos sonhos que não cabem nos quadros dos grandes pintores. Devia dar pinceladas finais em frases, se me desse a esse trabalho. O modo rolo - publicar com fundo laranja, formata-me. Indelevelmente! (sempre quis escrever isto!)

 

Vim aqui ter pelas desilusões que me causaram? Contratempos ou desilusões? Que esperava com tudo isso? Com essa feira armada, bem jurava que as sebes iriam crescer demais. Não vi os tentáculos. A cobiça do Tesouro de Sierra Madre. Já nem me estou sequer a queixar.

 

- «Não é permitido! Queixas sobre a tua própria assinatura. É uma manobra dilatória!» - Profere o Coro solenemente.

 

Eu devia tossicar, é conveniente tossicar antes de dizer algo em nossa defesa. Mas fico surpreendido por esta faceta legal do Coro. Quase que me engasgo. Este não é um tossicar premeditado. De alguém que sabe bem o que vai dizer e apenas não quer ser interrompido por um estúpido pigarreio (tudo expressões conhecidas da fisionomia das personagens, mais do que na vida real - no supermercado não se pode pigarrear, pode parecer petulante).

 

- Tento deixar de viver de (des)ilusões. É quilo que consigo sustentar, ou o que se sustenta por si próprio. Não sou um microorganismo. Ando nos confins à procura de simples respostas que não existem? Como nascem as perguntas todas que faço? Que género de resposta espero encontrar?

 

Nenhuma!!! Faço isto para me distrair. Para não morrer de tédio. Não é para impressionar. Ninguém leva a sério quem corre descalço e se constipa, por via disso.

 

- «Vai descansar! Não leves os dedos à loucura!

O ácido láctico a confundir as palavras. As impressoras entupidas pelo barulho de fundo. Aqui não se passa neste momento rigorosamente nada. Não é preciso. Não sinto o movimento de translação nem de rotação, mas acredito nele. Posso perfeitamente acrescentar uma dúvida a outra, empilha-lhas. Posso até ter a pretensão de as submeter a um detector de mentiras ou a um especialista em linguagem corporal. A um especialista de estética. Podemos determinar um perfil criminoso pelo tratamento da pele?

 

- «Nessa, não acreditamos nós!» - O Coro.

 

Um coro é apenas um bando bem organizado de tipos que tem uma alta prosopopeia – (Valente! Não deu erro. Bravo Corrector!). Passa à galeria, não à prateleira. Por enquanto não. Somos ainda tão novos. Podemos gozar a vida. Ainda ontem as férias duravam uma eternidade, mas não chegavam, e agora cada um responde por si,

 

- «O que foi feito de ti?»

 

O que foi feito de ti chega-me? As pantufas são o prolongamento natural dos teus pés. Estas pantufas que são tudo menos pantufas: conformismo, hábito. Dever. Estou a falar para mim, ainda estamos ao Entardecer. Lamento o coro não possuir emoticons. Podia-me aparecer com a forma de símbolos simples.

 

Redescobri o painel: «É proibido afixar cartases». E a tinta em novelos a desagregar-se. Escrevo muito. Escrevo demais. Posso a qualquer momento tirar metade. O que possa ser distracção. Fazer a montagem final. Há sempre uma montagem final. Um último acto? Gostava que fosse feriado. Poder comprar tempo adiantado. Não gosto de faltar. Daqui a bocado vou. Vai passar-me esta sensação de Incorporação. Já não estou no Alentejo. Acabou há muito o estágio vegetal do medo. Do medo inventado. Daquele que bloqueia o simples.

 

Devia convocar um especialista em perfis. Saber como se fundem os esquecimentos. E as lembranças andam aqui a fazer o quê? Vale mais repousá-las num livro. Preciso de espaço para novas memórias. Não preciso de mais armazenamento. Espero que o Grande Irmão nunca me traia.

 

Que me sujeite de novo a todas agruras com a combatividade necessária. Com a sábia cedência (onde vou buscar a sapiência, ao fundo dum poço? A um regato límpido e frio da serra da Estrela?). A paz foi este desassossego. Isto não é um restaurante. Não há menu: fazemos a sopa com aquilo que há na dispensa. Com feijões vermelhos à vista (Grande M...!).

 

Iludo-me a ponto de pensar que toco piano neste teclado e que ouço Mozart ou Shubert. Que petulância, a desse velho teclado repescado. Onde está a videoconferência, em tempo real? Com Marte ou com Lóbios, ao pé do menir cilíndrico da floresta de Albergaria, das águas quentes, do andar trôpego, da adrenalina a descer com a altitude, do ar puro, do silêncio das serras, dos ataques de gelo a subir as escadas de pedra. Daquela vaca que nunca teve pesadelos. Do saco cama que me tem acompanhado a ponto de o considerar como um confidente. Uma memória dos meus pesadelos. E do meu sossego. De poderem roubar tudo, sem fazer barulho. Só me roubam mesmo se me levarem com eles, sequestrado no próprio saco-cama.

 

Nestes momentos de confronto. Momentos desesperados a tentar travar os minutos para que não amanheça já. Podemos ficar mais um pouco na conversa. Dá-me a tua melhor música, para cortarmos isto em dois. Deve haver imagens disponíveis para o reconhecimento. Não ser necessário levar uma rosa vermelha nos dentes. Embora queira lá aparecer com esse distintivo. Ser personagem não filmada de um argumento não escrito. Mas não posso apenas roçar o invisível. Tenho jeito para detectar fios que me podem fazer cair. Tenho um sensor nas canelas. Como soldado experimentado. A lua e as suas crateras é que me deixam de pernas para o ar, sem arma, sem reacção, a fazer uma patética figura. Um vagabundo na alta-roda.

 

Salto de parágrafo. O que estou a esta hora aqui a fazer? É o quê este desenrolar (desenrolar mesmo o cardápio não impresso, o restaurante ainda não abriu). O começo de quê? Não se pode simplesmente regularizar o rio das emoções com comportas, não se pode de todo tornar navegável o que acontece, o que acontece, estando a acontecer, não precisa de explicação, precisa de acontecer (receio que esteja a reclamar isto como se fosse de minha autoria e não seja…). Espero que não seja previsível. Que possa ser. Que possa acontecer. Que haja mesmo borboletas dessas que não causam apenas desastres naturais pessoais (não estou a falar da queda de uma bola de espelhos). Saltei ainda agora de parágrafo para anunciar a minha retirada provisória. Ao silêncio. Ainda não. Permaneço agarrado às almofadas, a fazer granel (barulho, confusão, na gíria militar).

 

Tenho um grande motivo para lá ir. Ter bons motivos para sair por via ecológica é bom. Depende do tempo e dos ossos. Os Ossos são ainda piores que o Coro. Só não fazem comentários. Limitam-se a lembrar a sua existência através de dores e escrevo por eles.

- «Estamos aqui. Vê lá se começas a lembrar-te de nós e a respeitar a idade. Estamos fartos de levar contigo, pá! Somos escravos da tua fúria? Queres tudo, já?»

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Acordou bem disposto, com o crédito do sono parcialmente liquidado. Desconfiava que o sono era para ele uma espécie de dívida pública que nunca acabaria, que nunca liquidaria completamente, que iria pagar sempre o suficiente para que o credor não tivesse motivo para o considerar insolvente. Se os países sobreviviam ele também se julgava capaz disso, apesar das consequências nefastas para o sua pele. A pele não lhe interessava muito, senão quando se via ao espelho e reconhecia nela uma cara que lhe haviam emprestado para para posar para uma fotografia de identificação. 
 
Tudo era novo para ele. Do antigo permanecia apenas o que trazia com ele, nos recônditos do arquivo emocional do seu ser. Aquilo que era capaz de fazer, aquilo que tinha descoberto ser capaz de fazer e que funcionava como garantia de que a mudança operada iria fazer sentido. Um sentido desconhecido, que por vezes o podia tolher de dúvidas. É certo que acreditava que nada estava determinado e que havia uma margem que ele podia usar em prol de si e que não podia fazer mais nada senão isso. 
 
Acordar cedo. Começar a fazer render o dia com os hábitos criados, enquanto a cidade ainda dorme. Senti-la no sossego, ainda sem o movimento das massas que se afadigam em vidas de toda a espécie. Reflectir sobre o sentido da sua vida e da vida de todos os outros que não param para pensar, como ele não o havia feito durante todo o tempo em que inventou desculpas para perpetuar o status quo, em vez de enfrentar a dor e medo do desconhecido.
 
Ele sabia tudo sobre ele e tinha por hábito não mentir a si próprio, mas usava bem a criatividade para encontrar explicações mais que aceitáveis para os comportamentos. Chegou a acreditar em algumas dessas explicações até ter encontrado quem não as engolia com o filtro das justificações universalmente aceites. Era por isso também que acreditava que a mudança daquele acordar, embora trazendo toda a espécie de dúvidas e de receios, era precisamente do que precisava. O pequeno mundo onde se encerrara estava exaurido de sofrimento, sem a alegria da descoberta de outros seres insatisfeitos, inveterados pesquisadores do ouro da existência.
 
Acordar com a mudança operada, deixar os sentidos entranharem-se no ambiente. As mudanças carregam em si como condição esta quase insustentabilidade de tudo o que é diferente, enquanto o corpo se habitua, enquanto as percepções se confundem. Permanecia nele a certeza de que o medo era para ser enfrentado sem lhe conceder nenhuma espécie de avanço. Que todas as idiossincrasias da sua existência tinham que servir para se tornar mais que uma cara emprestada para um cartão de identificação.

Acordar cedo era em si não só um hábito, mas também a certeza de que estava mais do que empenhado nela. Que nada lhe seria dado e que precisava de trabalhar-se mais do que antes. Que as dúvidas são a garantia de que nada está feito em definitivo e que em cada dia iria tentar aperfeiçoar a arte suprema de viver. De viver com os outros, depois de se focado em si o suficiente para perceber onde poderia agir como ser humano. Porque era da condição humana o seu lugar e seu imperativo envolver-se com os outros por forma a deixar fluir a ânsia de liberdade e a vontade de iluminar a existência dos seus seus semelhantes.

Tinha nisto a sua esperança, a de se dar aos outros, de se completar e completar os outros, sabendo que nem sempre lhe daria apenas alegria e realização, mas que isso seria sempre bem melhor e gratificante do que se ensimesmar num mundo isolado, onde nem por si conseguia fazer algo que o salvasse. Acordou bem disposto.

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De rascunho em rascunho até à vitória final. Não há nenhuma vitória para celebrar. As vitórias pertencem ao museu dos troféus conquistados, onde ganham o bolor de histórias contadas como acontecidas. O grande adversário e companheiro foi sempre o medo [de quê?]. De não saber dizer a palavra certa que silenciasse uma maldição concreta que existe nos passos titubeantes de quem continua a tentar crescer, apesar de saber que as roupas vão deixar de servir. Que os planos urdidos no devaneio sejam a essência. Que seja possível a redenção? A prazo e com plano de pagamento. 

 

Falta o resto. Falta sempre qualquer coisa no plano global das considerações. As fábulas podem servir como cabide onde se pendura o casaco do conformismo. As palavras podem substituir-se às lágrimas que não correm na face confrontada com o espelho. Nada dizem sobre as estrias que sulcam as rugas de expressão e as outras. Os temores enraizados, as dores mitigadas. Os dias esquecidos sem contrapartidas. Os dias que passaram sem curar, os propósitos inventados, os planos que falharam. Haverá alguma espécie de renascimento que não cause dor? A dor esquecida de um parto. O momento em que todas as vicissitudes são despojadas. O momento em que em que as vitórias são troféus desnecessários.

 

Saio em procura de explicações que não existem. Onde me levam os pensamentos nocturnos senão a todas as verdades que não ouso contar aos outros, cuja benevolência fui congeminando. Terei saído alguma vez mesmo do círculo? A trincheira foi mesmo cavada e existe sempre um foco de esperança que os átomos não se desagreguem. A metralha que não cessa, o resultado incerto. Conheço toda a extensão que a dor poderá ter provocado. Que faço aqui embrulhado em impressos quando lá fora se vive. Que faço aqui preocupado em doirar a pílula? Que faço aqui tomado de privilégios pelo acordar repentino? Estou mesmo acordado? 

 

Sei que vou, sei que escolhi ir. Sei de tanta frase feita para adornar. Sei que nenhum dia está prometido. Sei que as bainhas das calças tem um limitado poder de me acompanhar. Serão as letras a vestir-me. Posso correr descalço e nu. Posso adormecer de novo. Posso? 

 

É de dia já e uma dor de estar acordado não significa nada. Amanheceu para um dia mais. Não basta vencer o medo agora. Daqui a bocado vai ser necessária nova descarga de adrenalina. Amanheceu e é tudo limpo, sem mácula. Os galos cantam [as gaivotas grasnam]. Está tudo ainda deserto. Tranquilo e manso. Agora nada pode estar a acontecer senão uma insónia. Agora acontecem recordações de uma época que se extingue. Não tenho medo que amanheça desta forma. São os galos ou as gaivotas. Será o quê? Agora tudo parece ainda no seu lugar. 

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