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fugazes momentos

28.10.15

«Um mundo que faz sentido. Mas apenas por fugazes momentos. Os momentos cósmicos do imenso caudal de fugazes momentos que, neste preciso momento, circulam pelas ramificações dos cabos, que transportam fugazes momentos destes para algum lado, para aqueles servidores longínquos e pintados de cores, com se as minhas memórias fossem um parque infantil.»

Um Serão na Província

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Viver todos os dias sem que nada esteja garantido. Identifico

 

o que me faz falta ... 


o ricochete das mensagens subliminares

as parcelas de energia

induzidas 

a corresponder/empreender.

a evocação irrompida,

as omissões subjugadas 

com uma esponja de entendimento,

o futuro por fazer

um chão térreo

para delicadeza


a tranquilidade do rochedo comovido

 

Onde está a soma do que já foi misturado?

 

 

O que foi vivido é mais do que permanece na memória, afloramento da semente nascida,

as raízes que se espalharam

 


O que existe renovado,

 depois das invocações,

o apelo in extremis correspondido na urgência da invocação,

a constância do alimento.

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Tomada de vida doméstica. Uma chave de fendas e o tempo mais que curto para colocar a tomada. Faltava a vontade de. A energia que se desloca, sem que se possa saber o motivo da deslocação da vontade para a tomada de vida doméstica. Fará parte dos genes essa predisposição? Foi necessário apetrechá-la com as maneiras de o fazer, recorrendo, amiúde, à invenção. Às mãos, aos braços, às pernas, aos pés. Ao corpo. Mazelas localizadas não impedem que ele funcione.

 

Até porque é suposto o comando esteja bem entregue e que execute com êxito as tarefas úteis. Todas elas, até aquelas que são menos passíveis de invenção. As burocráticas. Se essa vertente se estabelece de maneira natural ou porque se torna necessária, imprescindível para que o comando não fique nervoso não tendo que comandar.

 

As [de]cisões desfavoráveis produzem dor. Não há como fugir-lhe, de acordo com o termómetro emocional. Não é possível então que uma decisão desfavorável não deixe de causar dor. A reacção pode ser mitigada se for expectável. Por se sentir essa decisão mesmo antes dela ser verbalizada, partilhada, ou mesmo por se ter tido a sua a configuração racional, traduzida em pensamento.

 

Se for repentina pode causar mais estragos. A surpresa, na guerra, é factor crucial. Aqui, não se querendo causar estragos, o efeito surpresa é demolidor. Nestas alturas se o comando pode titubear. Mas resistir em auto-ajuda, enfrentar a dor, deixar cair qualquer defesa, afrontar o medo. Quanto mais difíceis são as circunstâncias, maior poderá ser o sangue frio e a sensibilidade de não piorar mais nada. Usar de terapias universais para deter o luxo da auto-piedade. O que te falta de essencial? Ainda não faltou nada de essencial.

 

As dores sentem-se, os pensamentos podem conformá-las. Podem ser dissecadas. A subjectividade desse ponto que cada um tem para sublimar a dor, para a sentir ao mesmo tempo que a decompõe, cirurgicamente, para a compreender, para aprender o seu mecanismo, para a relevar. 

 

Nunca está tudo controvertido.Nem sempre tudo é claro. O despojamento e a resiliência podem-se adquirir. A têmpera. O auto conhecimento e as ferramentas que podem ser convocadas. O lado da tomada doméstica ou o lado da poesia, em camadas. O outro lado. Os outros, também. E as suas vicissitudes. As gaiolas de certas vidas. A obediência a padrões.

 

Em cada segundo, se for necessário, convocar ajudas. Exercitar corpo e mente. O comando sereno tem mais hipóteses de tomar decisões acertadas. Ao contrário da guerra fratricida e sanguinária, aqui não se pretende causar dor, nem existe um inimigo. É psicologicamente mais difícil ao decisor vencer, porque a sua vitória é a sua derrota.

 

Por isso as âncoras. Cada um procurá-las, se necessitar delas, é um caminho razoável de vida interior. A tentativa de trazer no presente toda a possibilidade de não adiar nada. Fazer o que é necessário fazer, numa alegria de escuteiro, se for necessário. Mesmo que o dia se apresente cinzento e triste e isso se torne num assinalado foco de instabilidade. Explicações simples e satisfatórias (o crocitar das gaivotas torna-se o selo que assinala o acampamento base para outra montanha qualquer que tenha que ser escalada). Não se vira a cara à montanha. Enquanto se olha a montanha, enquanto se perscruta  os perigos que esconde, tanto quanto será possível desta posição, se respira fundo e se escutam os ventos. Se sente o ar frio nas maçãs do rosto.

 

Isto pode ser considerado um exercício de meditação, de

conformação, de observação. Também pode ser uma blague do espírito. Um lenitivo. Uma exposição com tendências universais. É possível mudar os hábitos. É possível, com esforço e motivação, reagir de modo diferente à contrariedade. Ideal seria não ter expectativas. Conduzir a vida pelos valores e acolher o bom sempre com surpresa. Ou conhecer-se e não alimentar expectativas, Mas todos tem expectativas, sempre, porque são também elas que concedem o entusiasmo do comportamento. Fazem saltar o electrão de degrau na nuvem. Não interessa o porquê. Primeiro encara-se a montanha, depois começa-se a subir, e haverá mais alguma a seguir, electrões alpinistas.

 

 

Procura-se estabelecer paralelos entre a teoria da incerteza, que não é nenhuma teoria, é a conformação de muitos seres. A entropia. A tendência para o caos. A espiral divinatória e a descendente. É assim, sem sentido, sem justificação. O remédio pode ser o amor pelos seres. O cuidado. O despojamento do acessório. O limiar do essencial. Um cela austera de convento, sem ser num convento. Onde os pensamentos podem fazer ricochete nas paredes, em que o recolhimento pode ser possível, com folhas de papel, ou com as mãos que lavam loiça.

 

As fotos são de Arte de Rua foram tiradas na Rua Miguel Bombarda  - Porto.

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Para vir afirmar o evidente. Para justificar a ausência. A toxicodependência da atenção, em diferido. Impessoal. Frequência dos bastidores. É compromisso cego. É devoção a horas incertas. Desafiar o tempo. Na parte disponível. Filtro. Exteriorização. Os mesmos truques de sempre, esperar que a percepção se altere para o prenúncio do sono reparador. Uma oração apócrifa a uma divindade sem préstimo prático. Mais prático não podia haver. Mesmo sem ideias gráficas, sem tipografia; O torpor e a relutância de deixar fugir pedaços de tempo. Obsessão ou maldição. Morder a bochecha por dentro. Resistir.

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«Descobrir que um certo sentimento depende da actividade num determinado número de sistemas cerebrais específicos em interacção com uma série de órgãos corporais não diminui o estatuto desse sentimento enquanto fenómeno humano. Tão-pouco a angústia ou a sublimidade que o amor ou a arte podem proporcionar são desvalorizados pela compreensão de alguns dos diversos processos biológicos que fazem desses sentimentos o que eles são. Passa-se precisamente o inverso: o nosso maravilhamento aumenta perante os intrincados mecanismos que tornam tal magia possível. As emoções e os sentimentos constituem a base daquilo que os seres humanos têm descrito desde há milénios como alma ou espírito humano.»

  

 O Erro de Descartes

Emoção, razão e cérebro humano

Pág. 17

António R. Damásio

Tradução de Dora Vicente e Georgina Segurado

Publicações Europa-América

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«APARIÇÃO»

20.10.15

 

Na origem da beleza está unicamente a ferida.

Jean Genet

 

Seu olhar apareceu, indiferente, liso, medonho. Por um segundo flamejante, senti aquele homem igual a qualquer outro. Não há fealdade ou malvadez. Quem quer que seja, pensei eu, pode ser amado.

Para recuperar a beleza basta um olhar, mesmo que ferido.

 

Mário Rui de Oliveira

Poemário

Assírio & Alvim

2003

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A corrida devia começar quando acabou. Quase uma hora de esforços de caminhada e de corrida [melhor que o pára-arranca dos automóveis] para que a temperatura de serviço pudesse ser alcançada, possibilitando a almejada velocidade de cruzeiro, abrandada pela subidas. 

 

Fica para a próxima, em que os primeiros quilómetros voltarão a ser difíceis, com as habituais incomodidades que surgem nesse espaço em que o corpo tem que se adaptar. Conseguir chegar à tal temperatura de serviço, confortável, representa 15% do tempo usado.

 

Chegar à fase do prazer renova a vontade de repetir.

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« Um gato adulto viu um gatinho a correr atrás da sua própria cauda e perguntou:

 

- Por que razão andas a correr atrás da tua própria cauda?

 

Disse o gatinho:

 

- Aprendi que o melhor que pode acontecer a um gato é a felicidade, e que a felicidade é minha cauda. Por isso ando atrás dela e, quando a apanhar, serei feliz.

 

Disse o gato velho:

 

- Meu filho também eu prestei atenção aos problemas do universo. Também eu julguei que a felicidade estava na minha cauda. Porém, reparei que sempre que ando atrás dela, esta foge sempre de mim, e quando vou à minha vida, ela parece seguir-me para onde quer que eu vá.»

 

Citado a partir de James, C. L. «On Hapiness, in To See a World a Grain of Sand, de Caesar Johnson, Norwalk, Connecticut, The C. R. Gibson Co. 1972

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À Lapa

19.10.15

À Lapa tudo se dissipa. O sorriso preexistente solta-se. Sem explicação: não há piadas no salão para além de toda a matéria das reflexões que trazem respostas ou perguntas para novas respostas. Restabelecimento do nível ideal de energia. A imponência do marco, a segurança do granito. O consolidar da elasticidade, a hierática do corpo liso e desprovido de gordura superficiais. O ar despreocupado, nunca distraído, as perguntas que se fazem e às quais se responde com a maior honestidade.

Arte de Rua, ao acaso

 

- «Os meus impostos não chegam para que haja médicos de família para toda a gente.

O que é que eu posso fazer quanto a isso?»

 

Alguém explica que o outrora território de a que chamavam «Os Povos Promíscuos do Barroso» ou «Couto Misto», se mantiveram independentes até 1864, se deveu a ser um território pobre. Depois ficou todo para Espanha, onde não há subsídio para burros [Equus africanus asinus].

 

Ninguém lhes perguntou se tinham médico de família. Talvez quebrasse o encanto da autenticidade rústica, da felicidade daquele homem ao falar do seu burro. Os médicos de família são o meu assunto, nada tem que ver com o assunto deles. Os médicos de família podem ser chatos, preocupam-se connosco. Servem para nos darem certos conselhos que não acato, apesar de saber que lhes assiste toda a pertinência nos prazeres que me querem negar. Terei direito a um médico de família se não sigo as instruções?

 

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Estátua Vestida

19.10.15

 

Era um cair de tarde em que as cores brincavam de avermelhar os céus. 

Havia um ar de despedida nas coisas e um gosto amargo na boca.

Acabara o tempo de recomeçar.

 

Jacinto de Magalhães

 

 

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