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Um epifenómeno. Um visitante activo. Em New York. Está lá há tempo suficiente para não ser um visita fantasma. Um(a) arrependido(a)? Esvai-se como quem se acerca, se inteira e segue em frente. Alguém. Uma adenda ao livre arbítrio. No fim da publicação é mais susceptível de ocorrerem aparições e suas localizações. O mistério prosseguirá sobre a sua identidade, sobre os motivos e sobre o modo como foi rastreado naquele radar. Um jogo de esconde-esconde.

 

Uma cefaleia curada com o ar frio da noite. O feitiço a virar-se contra o feiticeiro. O vizinho hipocondríaco era ele. O vizinho servira-lhe de cobertura este tempo todo em que os sentidos estiveram de quarentena. Agora que se desmascarava e assumia que adivinhava eventos futuros, sem que se desse conta disso. Ainda. Revendo os apontamentos da jornada, isso resultava para além da necessidade confessada, livre e espontaneamente, das alegações da sua inocência. Das segundas leituras escorre a premonição dos acontecimentos futuros.

 

As teias da auto-preservação continuam firmes: identificada origem da ansiedade, conhecido o antídoto, pode ser curada. Os pinotes dos destino [saltos quânticos]. Ele eludira as fragilidades. Com coragem de afrontar a sua lógica instituída, aprimorar-se, recompensado pelo esforço de se mudar para se adaptar. A filosofia emergente e pragmática de não repelir a travessia da zona de conforto [todo o conforto/todo o desgosto]. A humildade como tempero para a interacção. 

 

Intacto. As traves mestras estão profundamente fundadas. Os gostos delineados; os sorrisos são oferecidos, o interesse manifesto. A sortilégio da invisibilidade desfeito: «Deixei de ser escolhido para ir à baliza». Há quem consiga cometer o crime perfeito. A (in)sensatez de sangrar os pensamentos. A ousadia de não se esconder numa máscara permanente. De sorrir sem motivo no nevoeiro das incógnitas. De combater à sua maneira. Desarmado. Impetuoso. Expectante. Distraído dos movimentos de sedução que executa.  

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«estou lá eu e tu, num parque de estacionamento subterrâneo e aparece um motoqueiro a efectuar piruetas. Numa delas despista-se e morre. Tu pegas na mota e resolves ir experimentá-la da mesma maneira. Da mesma maneira te espetas e morres. Eu pego na mota e vou-me embora, embora me sinta culpado por te deixar ali morto.»

 

-«Quem me dera ter sonhos assim.» - diz ele para o outro, prosseguindo: - «eu nunca me lembro dos sonhos, mas suponho que é por andar sempre a sonhar acordado.»

 

São possíveis aqui neste tempo torcido, espremido como um pano para limpar a banca. Espremido por todas as contingências em sedimentação rápida. Nos cheiros dos vegetais, nos cheiros das ervas aromáticas, nos relances de amabilidade que colhe e distribui com os trejeitos do amor que dedica aos empreendimentos. 

 

É sempre tudo, em cada momento, como se cada número de entrada ou cada legume cortado no tamanho certo fizessem qualquer diferença. Pode procurar a perfeição, a perfeição é em cada momento fazer-se o melhor que sabe e pode, afrontar a possibilidade do fracasso.

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«Tem sido da tua parte uma má gestão das expectativas. Dedicas-te demasiado à fantasia. A estabelecer cenários, a maturar hipóteses inverossímeis. A antever boas possibilidades, tendo-as como consumadas. O que acontece. O resto é o imenso caudal de suposições sem materialização. Esquece a meritocracia. Esquece a aristocracia, fica entre os teus, aqui podes distinguir-te, auto-distinguir-te, ou extinguir-te, ou ficar estando de partida para o que ainda não aconteceu.»

Dos traços concretos: da gaivota a rapinar o saco do lixo. Do sossego quase absoluto do largo da Lapa. Do contingente de homens que dormem junto à estátua do Pe. Américo, ostensivamente apanhando sol, ou nos bancos do jardim, enrolados, sem mostrar a cara. Da rapariga jovem que fala com uma velhota confusa com alguma dúvida. De um velho revoltado com a sopa e com o preço. -«Onde está toda a gente?» - pergunta-se, distraído de que é hora de almoço de um domingo. Por isso insistem em lhe dizer Bom Dia. 


De vidas que roçam a sua, e se esfumam na multidão, como ele e a dele. Os locais de passagem que envelhecem de recordações. Nada melhor que um solitário na agudez do seu estado, para se ser invadido pela solidão que se espraiava por todo o lado. Nada melhor para um solitário assim querer sair dali para não se deixar contaminar com as emanações daqueles vislumbres. Atravessar praças atrás de praças com aquela sombra pairar sobre si e sobre parte de quem se cruzava na rua. Em se lembrar de novo que aqueles são os quadros (menos coloridos) de Edward Hopper. Desta feita sentia-se parte do quadro, renegando qualquer filiação naquela irmandade. Até onde iria para se esconjurar?

 

- «Com licença, estou de passagem, não quero acabar como vocês...sei lá como vou acabar...»


Os sentimentos mal digeridos. Calcorrear, sem destino, sem um lugar novo onde se esquecesse por momentos de quem era e do que fazia ali. Não sabia o que fazia ali nem sabia quem era, mas tinha que prosseguir, tinha que escolher esta passadeira ou aquela passadeira. O itinerário enfastiante, os passos titubeantes, olhar a perder-se no infinito, vazio. O mais absoluto sem sentido do que fazia sustinha-o numa febre sem temperatura. Aquele estado niilista se repercutir no seu andar, no modo como se orientava, no que se propunha fazer em seguida... 


Um trejeito de fuga, um desamparo menos ostensivo do que aqueles que dormiam nos bancos vermelhos da praça. Pouco do exterior lhe penetrava a couraça daquela preocupação concreta. Daquele incómodo inviolável, que queria ver cessado. Um resposta que obteria sem ser preciso preocupar-se com isso, ainda que naquela altura a frivolidade da sua posse se obstinasse em demandar resposta.

 

AUTO-AJUDA

 

Começa a imergir da encenação do insucesso quando estabeleceu um objectivo a cumprir. Um objectivo exequível. Perdura o dramatismo enquanto a gravidade omnipresente o começa a trazer para o chão firme duma refeição. O jogo que começou  a jogar consigo há muito tempo continua, sem grande afluência. Que as condolências substituam as afluências. Até que esteja arquivado.

 

É-se condenado, sem apelo nem agravo, sem nada para contraditar, perante memoráveis tempos, em que se fez o que nunca tinha sido feito. Servirá de consolo e de desconsolo, de perplexidade, de saudade, de nenhum arrependimento. Nesta Babel que lhe lembra a de Brueghel, o Velho, para dar mais classe ao casario. Onde as pessoas se amontoam, mas não se conhecem.

- Mas não te vais esquecer de nada, pois não? Vais ficar a salivar durante muito tempo? Quem te disse que era aqui que acabava a tua graça? É o modo como viajas que interessa, aprecia na parte disponível. Não esperes que as flores brotem para ti, não desesperes pela vinda de quem não prometeu vir, procura quem queres que venha, não te deixes abater pelo som do elevador.

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O primeiro pensamento do dia plasmava-se na tomada de consciência onde se encontrava alojado o seu espírito no termómetro emocional. Enquanto dormia era costume ser mudado de lugar. Acordar com uma disposição diversa daquela que o tinha deixado ao adormecer. As horas de sono que permaneciam no vermelho, em débito permanente, provocando cefaleias. A irritação habitual da água corrente que enchia o autoclismo fez soar o primeiro sinal de alarme. 

 

Desfeito o equívoco sobre o vizinho hipocondríaco, tinha o espírito onde o deixou antes de adormecer. Antes de adormecer cansado por ofício de se exceder na recombinação dos seus átomos, pulverizados por forças estranhas. Todo esse espaço vazio que não é preenchido só por deleites de oficina, altas horas e baixas horas, também por preocupações práticas. Aquele incómodo do autoclismo, ou o ruído provocado pelo elevador. A incerteza certa do movimento das partículas naquele elemento novo. A certeza de que o seu espírito debilitado pela hipersensibilidade se julgava no estado hipocondríaco.

 

Decide não despachar o dia, afastar de si as actividades que não lhe apetecia fazer. Tresmalhado da vida doméstica. Enfiado numa oficina dentro de si, a enformar o destino, a rasgar o véu da vergonha, a reclamar o seu quinhão. Tornara-se hábito contrariar as suas disposições através de jogos em contrário, lutar contra os sentimentos auto-destrutivos, lutar contra o desânimo. Esquecer-se do frio. Das mãos frias que tinham deixado de testemunhar o que faziam numa oficina igual a esta. Noutras oficinas. Noite fora, de madrugada. Ao amanhecer. Com idêntica paixão, com mais dor incontrolada, com muitas perguntas sem resposta. Com menos escudos contra os buracos negros.

 

Esse esplendor vivencial que agora pode evocar é a certeza de que dispõe das ferramentas certas para abordar as peças em bruto que pretende esculpir. Para ele é mais do que tricotar colchas que ficam nas malas, esquecidas. Mesmo sabendo que ao extravasar do seu sentir pode acontecer o mesmo. O contraditório exercido para além do razoável. «São mesmo estes os motivos porque queres fazer isto? Tudo isso não é uma monumental mistificação? Toda a gente mente, para ser feliz, uma mentira aqui, uma atenuante. Aquilo que reclamas saber saberás mesmo, não é só o teu grande ego a tentar propagar-se? Tendência para atenuantes. Agora sou eu que interesso. É sempre? Ou não, depende do Spin.»

 

As oficinas onde deixava indelével a marca dos seus sentimentos, em terapia auto-administrada, de recurso, renascida por acidente. O equilíbrio que os excessos do sentir deformam, a carga em excesso que é absorvida, o restabelecimento da harmonia. O mundo refinado nas obras que nascem. A sua luta contra os desígnios que a espécie tece. «Não jaz morto, nem arrefece»*. São a sua glória e a sua perdição. Que prosseguirá, mesmo que não tenha acólitos. Que os modos como pode curar-se tem vários caminhos já percorridos, para desbravar múltiplas valências ainda por evoluir. O homem da eterna esperança. Do eterno anseio. Salta de um livro em andamento para a poeira dum filme do Oeste realizado em Espanha, exorcizando a queda, a tentar levantar-se com toda a dignidade.

 

Os vários registos em que os seus sentidos tinham sido enfeitiçados permaneciam intactos. A chama arde, numa alojada numa caverna inacessível da sua mente. Sabe que tristeza se escoará pelo ralo dos dias à medida que a observação e a introspecção (A Experiência da Criptoméria), entretanto refinada, lhe dão mais domínio sobre sobre os seus sentimentos, que a sua intuitividade começa a estar sempre certa. Que os poros abertos dos sentidos lhe trarão novos entusiasmos, pueris ou efémeros, profundos ou decepcionantes. Os seres raros para tentar descortinar na imensa babel da mente humana e dos registos em que vivem. Sobe escadas sem dificuldade desde que saiba a quais deve subir. Escadas ou montanhas. 

 

* verso de O Menino da Sua Mãe - Fernando Pessoa

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A voz da Nicole enche a sala, os trinados do piano enchem o ciberespaço vazio dos átomos, enchendo-o de beleza, apesar de ainda só ser a afinação do som. 

 

 

FNAC de Santa Catarina, hoje.

 

Ainda te lembras mim e do meu nome. Foi reconfortante o teu abraço ao saberes que estava ali para me deleitar com o calor da tua voz, expressamente. A linguagem dos abraços disse o resto. Da tua elegância (lembrei-me da tua congénere Bárbara). Da tua espontaneidade. 

 

Ao piano, sem a companhia da sua banda, os Citizens, a cantar as canções como as escreveu. Sem rede, à vontade porque estava entre amigos. 

 

Freakin' me Out, música longa e romântica,

«acho que se devia dançar mais assim» 

 

«call me a home...»

 

estende o tapete para o êxtase; já me estava sentir em casa muito antes daquele tapete de melodias me elevar o spin com aqueles acordes

 

«Com aquela música aprendo a dançar sem esforço».

 

Sentiment and Pride

figthing over us

 

um vazio, uma fusão, um esquecimento.

 

«Não escrevo apenas baladas, esta canção é sobre uma pessoa que vejo todos os dias, sentada, olhar vazio, linda, com o sol na cara. Ela não sabe que escreve esta canção sobre ela, eu não sei se foi sobre ela».

 

Who was the bag lady? Why is life gone?

 

«O artista não escolhe o primeiro single, esta canção era para ficar de fora, para uma eventualidade...»

 

Dance with me era para mim uma prova de fogo. Foi um oásis, a confirmação do êxtase, do presente, do passado e o do futuro. O estado de graça, os livros por perto, os sorrisos e os desvelos no atendimento. 

 

Double Feature, Silence days

 

«Ouvir personificar o amor como uma coisa que está para venda ou assim.»

 

does anybody want my love

to free me up

 

Termina com Winning Day e estou contigo a cantar quase só para mim. Deleitado. Recompensado. Esquecido da tensão nos ombros.

 

I put a smile in my face and

disapear into the crowd

 

O que fiz literalmente, de novo a custo consigo enrolar um cigarro, saio depois de te agradecer a tua companhia em tantas horas do meu tempo.

 

«Não foi por desprezo ao dinheiro, foi por distracção, por emoção...»

que me esqueci do troco.

 

Esqueci-me para te poder responder. Para me despedir de ti e dos teus desvelos.

O abatanado mais cheio.

 

 

 

 

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À procura de um utilizador activo. Espreitar o separador. À procura de respostas que não residem nos complexos meandros dos algoritmos, nem nas enigmáticas equações que provam teoricamente o que não se consegue observar, senão através de experiências de validação. Uma lamentável confusão entre a exactidão definitiva das regras da atracção [A Mecânica de Newton] e a incerteza a que elas obedecem [A Mecânica Quântica]. 


Uma lição de ciência. O tempo mais que a divisão por horas. O tempo tinha recomeçado, não havia no ar nada do passado, ainda. A aura modificada pela luz que emitias. A luz que emitiam. 

 

O passado a cobrar as pontas soltas da velha física. Esta é a nova. Baseia-se na incerteza. Na estranheza. No ambiente familiar do desconhecido. O fim do determinismo é o inicio de todas as novas possibilidades. Do seu registo. Do seu viver. Matraquear os neurónios com partículas de compreensão. Exceder expectativas. Um transe em classe económica. A Experiência da Criptoméria. Os mundos revelados, o tempo a cobrar seu tributo em seres frágeis ao seu encanto. Ao encanto, ao desencanto. Ao acampamento base de onde vão rasgar os sentidos. De onde nascem flores em campas de companheiros desaparecidos.  

 

Uma lição que o tempo, mesmo que pudesse ser retorcido, não pode ser observado com os mesmos olhos. Os olhos estão diferentes. Não foi acidental. Foi premeditado, mesmo quando não sabias já estava reclamar a sua parte, a impor-te sem ser de propósito, a desempenhar o melhor papel. A consciência expandida, o pecado original retrovertido.

 

O merecimento era justo. O esforço tremendo. De um lado cores garridas, do outro a face oculta da Lua. A Lua para onde olhava sem companhia. Talvez não houvesse lua, alguém te mandou para lá para que pudesse observar uma Lua que não existia [solipsismo] ou talvez existisse, como não existia ainda o dorso do dragão, apesar de estar defronte de vós. Existiu tudo a partir dali. Ainda existe tanto, conservado em criogenização, sem nenhuma etiqueta que indique a destinatária.


A procura de um utilizador activo não assinala movimento em todos os radares. Uma introspecção pública dos afazeres de partículas sem massa. Bombardear o tempo com fotões e esperar o resultado. Abraçar-se a uma antepara do espírito para não cair em desuso. O utilizador activo pode estar assinalado neste momento, mas não existe porque não está a ser visto. O raiar de todas as possibilidades em aberto.


Apareceu a própria sombra dele mesmo, ao pré-visualizar o que fazia. Profissão desgastante. Ofício manhoso. 

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Os mundos múltiplos e divergentes de Everett, a estocada final do livro cuja leitura ocorrera naquele transporte público e nele fora maioritariamente lido. A curiosidade por tema tão difícil de enformar por um iniciado. Os capítulos em  que voltou atrás. Permanece por entender o sentido da experiência das duas fendas. Todas as pontas soltas daquele livro precisam de ser clarificadas.

 

Aquela mecânica parece-lhe a metáfora da vida, da sua vida em particular. O consolo das abstracções. Enquanto as abstracções não se tornam realidade. Enquanto a experiência vem confirmar aquilo que já se teorizou, mas não se sabe se existe. A (pa)ciência que lhe falta, que lhe falta até encontrar a validação para teorias impossíveis de provar nas condições existentes.

 

Os mundos múltiplos em que se desenvolvem actividades e interacções. Os mundos múltiplos e divergentes que podem coexistir. Sem que tenham consciência do seu paralelismo. Os quartos duma mansão de afectos, com muitos quartos vazios, com muitos hóspedes a desencontrarem-se. A encontrarem-se e a separarem-se, assumindo o movimento ondulatório ou materializando-se como partículas.

 

As experiências a validarem as teorias. As teorias que permanecem por esclarecer, na dúvida metódica de quem procura respostas vantajosas; As novas experiências que ainda não é possível fazer por não haver ainda condições experimentais. O improvisado acelerador de partículas, o laboratório onde se tentam comprovar linhas gerais urdidas nas noites do pensamento. 

 

O tempo em que se aceita o que resta das teorias prevalecentes. Em que se muda de paradigma e se volta ao princípio de todas as incertezas. A possibilidade de estar errado. A possibilidade quase garantida de não ser nada como se prevê. A possibilidade de ser ir mais além do que as equações parecem prever. A impossibilidade de nada validar como definitivo. Da necessidade de ir mais além. De se congeminar modos e experiências para isso. 

 

Se no principio conhecer as partículas e o seu movimento bastava para todas as certezas, as singularidades mais profundas do átomo revelam um mundo mais catastrófico, mesmo que não seja ultravioleta, ou por o ser. As assimetrias expostas. A instabilidade da nuvem electrónica. A aleatoriadade sem regras, das interacções a modificar o Spin. As novas partículas surgidas da experiência no laboratório emprestado. A anti-matéria, os buracos negros a absorver demasiada energia. 

 

A observação a tornar o observador parte da experiência. A modificá-la, a validá-la. A experiência terminada. Permanecem as dúvidas sobre a brecha aberta na teoria. O laboratório ávido por demonstrar que outras experiências podem comprovar os propósitos formulados. A angústia física do aventureiro. O físico a engendrar novas formas de comprovação.

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«Esta terra firme de recordações». Amplas avenidas. Volumetria de edifícios de arquitectura agradável, em tons claros de cinzento e amarelo. Desenhada a esquadro. A aparição de um local de outras circunstâncias, um local amplia evocações em roda livre. 

 

Na praia estavam três ou quatro adolescentes, brincavam de vez em quando com a luz do telemóvel, o mar estava calmo, o nocturno com laivos pouco nítidos de rosa ao fundo do porto. As luzes das novas urbanizações. Uma enorme árvore de natal com luzes brancas numa sala, num quinto andar. Ao fundo descortina-se a enorme rede escultura da rotunda. «As recordações são um mau favor ao momento. A nostalgia. Pretendem para o presente aquilo que se viveu. Como se o presente comportasse a possibilidade daquilo acontecer de novo. Uma ratoeira. Uma ilusão mascarada. Uma metáfora sem comparação passível.»

 

Aquela terra firme e lustrosa serve para recordações de entardecer, para devaneios pós laborais, a meia hora sacramental do passado. A meia hora inopinada do presente, em que é possível ir ver o mar numa caminhada sem pressa, a observar o exterior, em que se procura caracterizar o local tão fielmente quanto possível. Meia hora pós laboral no local do laboral. Sem atender ao relógio. O mal estar provocado pela emboscada de uma tarde do passado recente. 

 

O rapaz monta-se na parte de trás exterior da carruagem e segue com a viagem, com ar prazeirento. Estudante tribais entoam canções desconhecidas, batem nas paredes e penetram na cabine de trás, desocupada, em anúncios sem sentido. Dizem obscenidades. O auto termina com o cheiro de sapatilhas descalçadas. 

 

«Vem a limpar os dentes com a língua? Ah! Está a comer uma bolacha de água e sal». Alta, loira, pelos quarenta. Com modos delicados a comer a bolacha. Lábios pintado de vermelho. Vestida de preto. «Não procures o olhar ostensivamente, subrepticamente tenta perceber algum interesse...». Nenhum indicio de que tal interesse em si estivesse a ocorrer, observou dissimuladamente o rosto da desconhecida. Uma desconhecida com o interesse estético conveniente, aquele que funda devaneios. A parte agradável da viagem. «Vai-se sentar no lugar onde eu estava, uma última oportunidade...». Encosta-se à guarnição metálica para enrolar um cigarro e lança um último olhar. Naquele momento pode acontecer uma qualquer coincidência cósmica, ou um equívoco. 


Nada acontece de anormal com o transporte a seguir viagem; Enrola o cigarro com alguma dificuldade, fuma metade dele, toma consciência de que lhe não dá prazer nenhum fumar aquele cigarro e deita-o fora na erva do campo de futebol abandonado. Ao lado, depois de uma ribeira com choupos sem folhas, em cujos troncos florescem eras, estão as instalações de um centro de detenção juvenil, onde em certos dias se percebe que jogam futebol. Visível só o conjunto de edifícios e uma casa apalaçada que parece destoar do conjunto. 

 

Proveitoso todo o périplo fora da rotina, que os eventos se podiam descrever, porque acontecidos em público. Que a parte disponível que aconteceu se pode reproduzir numa crónica dos dias. A crónica exterior e a crónica de uma personagem demasiado colada ao seu criador. 

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Os cadernos em branco que lhe oferecera são agora lavrados com as anotações necessárias. O destino que ali descreve está em branco, sem mentir nada está o que se escreve neles. Para tudo aquilo se tinha preparado noutro tempo. Precisava de estímulos e da observação para cumprir uma espécie de destino, rumo a antigas pretensões. Em anotações em part-time. Tinha que sentir tudo aquilo para que a veia pudesse despertar. Se era uma missão diria que não tinha conhecimento de nada. Se era confissão, destinava-se a confundir. A atravessar-se no espírito dos outros. Aqueles cadernos oferecidos eram um trunfo, um maravilhamento, a saída da rotina. Poços de despojos. As cores no preto das letras com o branco como fundo. Como correr também pode escrever horas intermináveis, num canto, sem se importar com nada do que o estritamente necessário, sob uma luz led e boa companhia musical, por naquele dia não lhe apetecer por fim, fazer mais nada senão isso, na composição dos romances. Nos perfis do tempo disponível.

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A clausura absoluta de certas horas. Há demasiados objectos. Demasiado peso. O desprendimento para o descanso. Insiste com Satin Doll, daqui não se vai para acontecer nada. A nostalgia q.b. para misturar na despedida. A clausura como passatempo. A clausura como contratempo. Colocar a cabeça na almofada e na clausura da consciência. Desejar a luz do dia. Desejar o dia para que aconteça enquanto dia. Desejar nada desejar, supremo desprendimento, liberdade difícil. Liberdade ou obstinação, refúgio da razão, refúgio do conforto. A mansa clausura de um Jazz de fim de noite. A chama deposta. A chama reposta em qualquer canto a proteger-se do frio. Aquecer-se com música de maestros, aquecer-se com os melhores coletes salva-vidas. As rotas esbatidas. As rotas abatidas. As bombas para a fotografia. A fotografia de si naqueles rebordos, a pulsão, as asas de Ícaro, as suas próprias asas, assim derretidas. O mar e os vulcões, a dualidade e a impossibilidade. As cicatrizes da dignidade. As mãos estragadas do artífice. Desempacotar agasalhos. Esperar activamente. Limite razoável para avançar, atravessar, moldar o papel com todas as graças concedidas. Continuar quando devia desistir, recomeçar a tentar celebrar, recordar, reconhecer, confrontar, enformar um sentido justo e recompensador. Debelar as forças da noite, passar o pano pela aura. Encerrar livros. Estranhar-se não se estranhar. Entre delírios de febre, entre delírios de aquietamento. No ar rara-feito suster a respiração, alcançar o que possa ser alcançado. Permanecer o tempo necessário sem perder os sentidos, a noção do espaço e do tempo. Um destino a meio. O gato à espera que declarem se está vivo ou morto, se está nos dois lados ou ...

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