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31.12.15

turner Dido.jpg

Eu não desejo nada, desejo para os outros o que eles quiserem que deseje. Não desejar nada é um atalho para que tudo o que aconteça de bom seja gratificante, para o que o me provoca sofrimento não me transtorne. Para que o simples permaneça. Não desejar nada é outro desejo. Ao qual posso dar o mesmo destino, passando a desejar tudo. Desejo tudo para mim, só não revelo os desejos que não tenho por superstição, nem a mim mesmo. 

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Por obrigação de preencher espaços em branco. Por obrigação de me divertir? O alívio de me martirizar. A vida das pessoas felizes tem história, mas não é para ser contada, não é um passeio inconsequente pela maravilha do ser. Em certo dias é-se leve e descomprometido, faz-se tudo o que se tem a fazer.

 

Os passageiros são informados que por avaria do veículo a viagem termina ali para aquela composição. A avaria acontece numa estação no subsolo, por isso é um incómodo menor esperar pelo próximo. Sai da multidão depois de registar o não interesse dos comentários e coloca-se na zona com menos densidade de apeados, misturados com aqueles que não seguiram viagem. Muitos. Que deixou seguir no próximo transporte que chegou, o qual esvaziou a estação. Ia no próximo, menos superlotado. Encostado ao pilar aguardava isso mesmo, confortado pelo facto da avaria ter ocorrido numa estação do subsolo. De poder estar encostado àquele pilar com meia dúzia de pessoas que tinham procedido de igual maneira.

 

De novo, ainda mais no subsolo, é um outro veículo que chega de luzes apagadas, se imobiliza na estação. Novo aviso de que aquela composição, que já vinha moribunda, seguia sozinha na sua agonia, com as luzes entretanto acesas para uma viagem fantasma em direcção aos cuidados dos mecânicos. Transporte mágico, que não fica especado no meio da via à espera de ser rebocado. Do seu ângulo de visão a configuração da curva logo após a estação pareceu-lhe demasiado sinuosa. É uma escapatória, uma saída de circulação, um túnel de que tinha ouvido falar e nunca tinha visto. No andar intermédio apercebe-se de um ponto multibanco que não constava das suas referências.

 

A sina daquele condutor de veículo de não transportar ninguém, a repetição de avarias semelhantes a proporcionarem experiências de regresso diferentes da rotina, abstraído das pressas alheias, sem pressa para nada, sem ansiedade. É o tempo que lhe pertence. Em dias leves, mesmo que o vento dificulte o andar ou que chova. À porta de casa. Uma extensão das suas pernas, a calhar.

 

Escadas rolantes, música de fundo, pinturas ou vestígios encontrados no subsolo. A diversidade do individual ser humano, as árvores concretas da floresta, a equívoca situação perante o que pode obter deles, se o seu interesse por eles não é um passatempo, um esquema mental para se convencer que tem interesse nas vidas deles. Aquela vida exposta em voz alta na carruagem com lugares vagos uma rudeza, não queria mesmo saber nada daquilo. Tirava-o do seu mundo. Começava a sentir-se castigado pela voz da mulher  quando ocorrera a avaria, uma oportunidade em vez de um contratempo. Uma viagem diferente.

 

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recomendo a companhia de 

Wagner - Der Fliegende Hollander (The Flying Dutchman)

 

Quando, no Departamento de Vida Sonâmbula receberam a cópia audio das conversações do cidadão Luís Sedas, procederam como habitualmente, registaram a entrada e colocaram uma etiqueta código de barras no invólucro negro contendo a gravação. Depois disso seria colocada no dispositivo que a levaria para ser escutada pelo «Pedro Nunes» o mega programa que registaria todos os dados da gravação e produziria dados estatísticos, elaboraria um relatório, que seria depois analisado pelo Psicólogo. 

 

O Psicólogo mandava arquivar a maior parte dos registos. Nos que prometiam interesse ou divertimento despachava para o cidadão visado fosse investigado pelo Pedro Nunes, na sua exaustiva pesquisa pelas bases de dados existentes, públicas ou particulares. O programa tinha ordem de intrusão na esfera íntima do cidadão, com poderes equiparados a juiz. O resto, eram insípidos registos de vozes atormentadas com as situações mais triviais. Com toda a espécie de hipocondríacos e de sensíveis. De incompreendidos. A gravação de Luís Sedas interessara ao Psicólogo: aquele cidadão escondia alguma rebeldia sob a capa dos seus problemas pessoais. Poderia ser aquela personagem interessante que sempre desejara estudar por ali. Ao mesmo tempo que justificava a sua manutenção no lugar, sem alarmar ninguém com todo aquele rol de infelizes que o Pedro Nunes lhe endossava. 

 

O Mega-Programa também sentenciava para o arquivo a maior parte daquela tralha sentimental que tinha que analisar e da qual tinha que produzir dados estatísticos sem qualquer interesse prático, que assinalara em Luís Sedas um alvo de interesse. Na sua missão aparentemente comandada de programa informático não registou o nascimento de uma ferramenta nova: a curiosidade específica por aquele caso, como se prometesse divertimento no meio daquela funções monótonas de produzir estatísticas. 

 

Efectua cálculos para determinar a possibilidade da pessoa por trás daquela gravação poder voltar à sua esfera investigatória, com a ordem do Psicólogo. Poderá então proceder a minuciosas buscas nas bases de dados existentes. Reunir toda a informação disponível, elaborar um retrato psicológico do investigado. Fornecer a mais detalhada informação biográfica, registos de hospitais, fichas bancárias, mensagens de correio electrónico trocadas... uma selva de dados onde escava toda informação, como faz com todos os cidadãos que são trazidos de volta ao seu conhecimento por recomendação do Dr. Loppo de Tunes, o Psicólogo. 

 

Para o cargo de Psicólogo eram escolhidas as personalidades de vastos conhecimento de psicologia, psiquiatria, neurologia. Eram seleccionados pela variedade dos seus estudos e pela acutilância das suas observações. Participavam da elaboração da saúde pública mental e as suas decisões eram irrecorríveis na sua esfera de competências.

 

No entanto, até que a imensidão de gravações chegue aos ouvidos do Psicólogo, Luís Sedas acabará o seu dia, começando o próximo sem vontade nenhuma de requerer a não contagem daquele dia como vivido. A actualização de software para executivos produziu nele o efeito desejado e não mais se lembrará do dia de ontem de forma tão negativa como o viveu, razão para se atrever a solicitar o livro de reclamações. A advertência de que a gravação da sua conversa iria ser enviada para aquele departamento desconhecido das Entidades Oficiais, denominado de Vida Sonâmbula, era dispicienda face ao despertar para o dia de labor. O estado de espírito automático era o de energia e leveza, de vontade de colaborar com os restantes Colaboradores, sem aquele negrume do dia anterior. 

 

Tais Estados de Espírito eram reforçados com a detonação de substâncias no cérebro que os propiciavam. Tais substâncias eram colocadas na alimentação e aguardavam no receptáculo a activação por ordem do Estado de Espírito. O Departamento de Saúde levava muito a sério a sua missão de manter os indivíduos saudáveis e razoavelmente medicados para que a sociedade não albergasse a violência. Mas também não gostavam muito dos Criativos, daqueles que resistiam para além das medidas preventivas de saúde pública, e pretendiam incendiar os semelhantes com ideias libertárias de prazer sem limites e felicidade. Por isso tinham enviado para ali aquela gravação. 

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Caixote n.º 1

 

Reprodução escrita das interacções que o cidadão Luís Manuel Lourenço Sedas efectuou com as Entidades Oficiais em 28Dec_17:45.

 

- Bom dia. Quero fazer uma reclamação.

- Bom dia. Daqui é da Secção de Pecados Mortais, vou encaminhá-lo para o departamento adequado. O Departamento do Quotidiano. Um momento, não desligue.

- Bom dia, de onde fala?

- Do Departamento do Quotidiano, em que lhe posso ser útil?

- Quero apresentar uma reclamação: quero o meu dia de volta.

- Como assim? 

- Quero o meu dia de volta. Esta chuva e o vento não me deixam ir lá para fora passear. A falta de sol dá-me cabo dos nervos, acordei mal disposto. Por isso que que este dia não seja considerado. Não há condições para o assinalar como vivido, nada ainda aconteceu para que possa declarar-me a viver, neste dia.

- A sua queixa não se enquadra no objectivo deste departamento, não temos jurisdição sobre a contagem de tempo. Aconselho-o, sem qualquer promessa de que lhe irão resolver o seu problema, que contacte o Observatório da Existência. 

 

[...]

 

- Bom dia. Observatório da Existência, em que posso ser útil?

- Bom dia, quero apresentar uma reclamação, quero que este dia seja considerado sem efeito. Que não conte como vivido. 

- Muito bem. Terá que apresentar um pedido formal, descrevendo com pormenor os motivos do requerido. Deverá ser escrito em linguagem sem caracteres SMS, em língua nativa. Depois será apreciada pelo nosso comité. Alerto-o para o facto de o requerimento ser apresentado depois da meia noite. O dia ainda pode ser preenchido com algo que o demova da sua reclamação. Temos imensos pedidos que não tem fundamentação e por isso são indeferidos. Mas representam uma sobrecarga inútil para o sistema. O uso indiscriminado do direito de queixa tem vindo a ser dissuadido.

- Muito obrigado pelos seus esclarecimentos, assim farei. Gostaria de poder desistir de dar o dia como perdido, mas como vou viver na metade que me resta o que poderia viver no dia completo? 

- Deixe-me perguntar, o seu órgão de Estado de Espírito já foi actualizado para a versão de Inverno?

- Não. Costuma ser automático. Este Inverno não me lembro... Pois, falta aquele ambiente que é fornecido na versão de Inverno: Aconchego à Lareira. Podia ter-me ajudado hoje, com este dia horrível, com a decepção de encontrar uma Repartição vazia, ter sido logo atendido. Não fui assaltado na rua, ninguém me dirigiu obscenidades no metro e cheguei seco a casa. Levei a chave de casa. Até arranquei um sorriso a uma Colaboradora do Fornecimento. Apanhei a roupa antes de começar a chover.

- Deve apresentar um pedido urgente através da linha SOS deste Departamento, para que seja actualizado para a versão de inverno. Esse estado de espírito, em férias, como refere, podia bem resolver-lhe a angustia que sente. 

- Assim farei, mas não acredito que me vá salvar o dia. Apesar de tudo ter corrido bem, dentro daquilo que pode correr bem, permanece esta sensação de que o dia não presta, que o tempo não presta, que eu não presto. Se isto continuar vou recorrer à ajuda em tempo real da Meditação Omnipresente, talvez me tire deste paradoxo em que os estados de espírito me aprisionam. Tem havido falhas na concepção desses programas, linhas incompletas. Basta o exemplo do Mar Perto de Si, que já não oferece a essência correspondente. Os programas de Culinária Para Cidadãos não tem sido actualizados. Um cidadão conta com dias difíceis por estes dias.

- Registamos a suas impressões. O programa automático da entoação detectou alteração na sua voz e activou a gravação para posterior avaliação dos Assuntos Internos. Se pudermos fazer alguma acção para melhorar os serviços de informação, faremos. Nada podemos intervir quanto à programação. Isso é com a Informática Celestial, a corporação que ganhou o concurso público quinquenal dos Estados de Espírito.

- De qualquer modo, obrigado. Pelo menos poder trocar estas impressões com um serviço tão prestável deixou-me menos apreensivo. Talvez o efeito dure cinco minutos. Obrigado e bom dia.

- Bom dia. Contacte-nos sempre que precisar. Estamos aqui para o informar.

 

Notas escritas residuais para arquivo morto. Segue uma cópia para o Departamento de Vida Sonâmbula, com o presente relatório ditado, a fim de serem analisados os registos audio das interacções em si, em busca de tendências para o impossível, para formulação de desejos para além do razoável (segundo a tabela, em uso e aprovada, de António Damásio) ou para desejos de abandono das funções laborais. Para ser rentável, o cidadão tem deverá manter as condições mínimas de laborar até aos 80 anos de idade. Recomenda-se o envio expresso da actualização de Inverno, com a versão executiva, do programa Aconchego à Lareira. O cidadão deve ser mantido quente e absorto de pensamentos negativos, no seu período de lazer, com vista a compensar os desequilíbrios dos da sua espécie, associado a desequilíbrio sazonal, provocado pela quebra de produção de luz natural.

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Um Dia a Mais

28.12.15

Dirigiu-se ao amplo armário metálico e retirou do bestiário um casaco de tigre de papel. Ajeitou o gorro preto e olhou-se no espelho. O que aquele espelho renitente devolvia era a pálida imagem de quem acordou desconfiado de que o dia trará algum merecimento, tolhido pelo seu medo de avançar para ele, sem mais nenhuma indumentária que aquela de se apresentar assim ao espelho naquela predisposição sem esperança. Distante daquilo que tinha prometido a si mesmo não ser. 

 

A renovação de um documento. Sabia validar o cartão de embarque. Expunha-se à procura da validação dele mesmo, mas as máquinas de leitura de códigos magnéticos apenas validavam viagens sem qualquer promessa de entretenimento. Não queriam saber da sua validação orgânica. Nem se importavam com o seu desfalecimento. Afrontou o vento e a chuva, com os pés assentes e mais molhados. Nem a repartição estar quase deserta quando a pensava encontrar superlotada, a rapidez do atendimento o fizeram tirar aquele desconforto matinal, daquela irritação escorregadia.

 

A factualidade idêntica aos outros. Não fosse aquele divertimento que o consumia a requerer a validação de si, podia culpar o tempo daquele mal estar. Estava irremediavelmente só com as suas preocupações, centrado em si mesmo. Alimenta-se de si e da carne que faltava por baixo da pele. Banqueteia-se com os disparates no interior da sua caixa, nos temores velados, na indiferença perante aqueles que lhe são estranhos. Foi de novo cuspido para a manhã em desvantagem no resultado, uma sentença desagradável, um nó na garganta.

 

Aceitaria todos os convites para que se produzisse um acontecimento. Os apitos de mudança de número de senha passaram mais rápido do que pudesse prosseguir a análise daquele sentimentos estúpidos e desnecessários, o interior que se revolve em magna a altas temperaturas, um vulcão com vontade de explodir em prol de si mesmo. Tudo o resto são as pontas soltas dos nós corrediços da história e a impossibilidade de incendiar a sociedade, a impossibilidade de percutir o juízo. A sua ronda na orla do incerto. A canoa em que se deixa deslizar, com prováveis quedas de água. O conforto um desgosto. O desconforto outro desgosto.

 

Permeável àquela irritação de horas mal dormidas, em busca de uma paz que só pode ser configurada em enredos decorrentes ao sossego nocturno, no silenciar dos barulhos em si, uma ronda pelos pontos de vigia, o combate desigual dos movimentos revoltosos de lava que se vilipendiam, os planos grandiosos para uma erupção, os desígnios do martírio, a vaidade e a fragilidade, a substância do prazer, a luz do reconhecimento, a água sobrenatural que aplaque a lava e a transforme em esculturas, a lembrar quem as inspirou.

 

É uma hora insólita para se dispor assim àquela inquisição. O dia em que assuntos práticos estão cumpridos com prejuízo do sono. Os olhos preguiçosos da escuridão dos túneis. A contrariedade de recensear tão pouco. Escadas rolantes com música de fundo. O vento a parecer mal, a chuva uma proibição. O dia estar a mais, a noite prolongada em mutilações abstractas. A sede dele. As formas em bruto por lapidar. O desperdício aparente daquele dia tempestuoso.

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Ambiente sonoro sugerido: 

AGNUS DEI - Sacred Choral Music - The Choir of New College, Oxford. E. Higginbottom [Full Album]

 

O seu passatempo/contratempo era testar-se ou esgueirar-se ao teste, um teste de adivinhação. Se não podia ganhar, retrocedia, esquecia-se daquele elemento que podia despoletar trechos do filme gravado em si, a propagar lancinantes fotões em imagens de grandes planos até aí nunca filmados. Nesse sentir doentio que procurava desmoralizar ao enfrentar os sorrisos nas fotografias de secagem recente, para os cadernos escritos em caligrafias de vários tipos, como se as letras que enfileirava fossem resultado de um exame doloroso, uma confissão gráfica da emoção, um teste de personalidade para além do seu conteúdo organicamente caótico.

 

Nos trechos musicais que escolhia para sua companhia testa a sua capacidade de os continuar a apreciar, por si só, sem a carga emocional a gangrenar a melodia.  A sua bagagem intacta, sempre pronta a usar, a mudar-se. Um grandioso plano de evasão nunca testado, a não ser in vitro, a evoluir sem instruções. Por sua conta e risco. A indagar onde pode ir sem a ajuda da vida que aquelas recordações evocam. A sede intrínseca dos seres e a água potável que lhes mata a sede, sem caudal suficiente para descer ao vale.

 

Nenhum destes dedicados auxiliares de memória lhe desperta qualquer recordação adversa. Acontecimentos fora do comum, percursos sinuosos o tinham trazido ali. Trabalhosos processos mentais para preservar a conformação aos princípios aleatórios da atracção. Sem qualquer soberania sobre si nem sobre a causa primária de qualquer avistamento de interesse. Ele andava à sua procura. O banco de soba deixou de ser preciso, ele é o soba, mesmo não tendo banco. Ele envolve as claras em castelo de um bolo supramaterial com a colher da língua, julgando fazer amor com as misturas pegajosas dos ingredientes ao acaso, na proporção certa para se comover. 

 

Ele testa os limites ulteriores com disparos sub-sónicos de pura energia da adiada fusão dos corpos, pelas sirenes tresloucadas na noite, pelo vento faustoso a fustigar as vidraças. A dança dos ingredientes certos. A clandestinidade dos amantes. O trovão da iridiscência. O suave restolhar de uma respiração tranquila, sem apneias. Em que os testes foram passados com toda a largura de banda a funcionar, para um ambiente mais refinado. Em que que toda a fantasia é atendível. 

 

 No muro transponível do que não foi feito, numa ponta solta do destino, o teste final da paciência para o homem sábio, sempre lavado, com pouca necessidade de palavras, com o olhar penetrante do passado reconfigurado. Apelos sub-sónicos, descascar vértebras ao corpo, esgueirar-se entre os passeantes, dançar com a mímica certa, com o centro de gravidade radicalmente alterado, em conformação das emoções que se moveram. Um fila de vulcões, um percurso pedestre de cicatrizes. A suspensão do tempo. Agora. 

 

Um tempo novo, sempre tempo, nada mais que isso, o âmago da angustia. O que ele cola na cara das pessoas. Decretado agora, neste sossego absoluto, nesta delicadeza da hora, neste desprendimento a fingir. Embalado por toadas cósmicas. Um filme fetiche. Um almoço de quem não se vê há muito tempo. Uma massagem com óleos essenciais. Incenso das Índias. Velas lacrimejantes. Uma toada dolente das horas em que todos ou quase todos dormem e nas oficinas se ultimam as novidades habituais de nacionalização dos prejuízos, a rima da pilhagem.

 

Concorrência desleal, recursos maximizados, voz de gestão. Voz de emoção absorvida pelo som dos pneus a rolarem na chuva. O vento esgrouviado. Os ingredientes misturados e cozidos, imunes. O desencontro imprevisível deste mapa tão pouco Cor-de-Rosa, esconjurar a noite e os seus protestos alternativos. Queria tão pouco desse muito que paira na floresta inexplorada, no adeus ao cacifo. No olhar interessado, nos dedos treinados, no sonambulismos dos livre-pensadores. No recurso ao pestanejar para comunicar.

 

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Faz com que se realize aquilo de que se lamenta não fazer. Correr. Molhar os pés no mar. Improvisar uma concha de água com as mas para aspergir as narinas atormentadas. Observar o reflexo prateado do mar mesmo em frente de si, aquela luz suavizada a diferir a pujança do sol. O número atómico do seu ano de vida. Prateado como aquele mar que o enfeitiça, as ondas a rebentarem a espuma dos seus dias, a consolar os surfistas. O desejo de se banhar ali já.

 

Demasiada multidão, apesar da multidão preencher o quadro, para que não pareça sozinho e desprotegido. O que interessa é o mar e a sua magia, o seu poder, os reflexos de prata que julga destinados a si, um encontro que o bramir das ondas garante ser real, o cheiro a iodo e todas as promessas que o a espuma das ondas lhe podem insuflar. A sua companhia o suficiente para não se sentir só. Um grampo espetado mais acima, rumo à liberdade.

 

Anda por ali muita gente. Olhares interessados em conversas que se desenrolam. Em corpos que não escondem a sua solidão, como o dele, reconfortado pelo encontro com o mar prateado. O telefone está desligado e mesmo que estivesse ligado não receberia nenhuma chamada, ansiedade de aparelhos. Contradição de estados. A cicatriz mostra-se edificada, lavrada sem remissão nos local próprio. Demasiado recente, conformada no meio termo da racionalidade.

 

A multidão de corredores trá-lo definitivamente à realidade, de se conformar que aquela angustia do aparelho desligado lhe tomou a dianteira. Que aquela gente que vai correr para a São Silvestre é diferente dele, não só porque não vai correr, renitente em ter que pagar para o fazer, em percursos e horas não estabelecidos por ele.

 

Ele corre contra si mesmo. Contra o desfalecimento, para preservar a graça dos neurónios, para se expandir na solidão onde tudo capta. Sem dramas, com o desprendimento daquela multidão que se dirige para os Aliados para correr dez quilómetros. Com isto quererá manter-se à parte, no seus desafios pessoais, na esfera das suas sapatilhas sem plano de treino. A ansiedade do fim da viagem, o transporte a abarrotar, ruas fechadas ao trânsito, carros policiais a fazer de zero-zero. A vontade de regressar ao ponto fixo e improvável. As intersecção a azul no mapa. Elevadores.

 

Os reflexos do mar prateado a razão de tanto barulho, um local propício a confrontos com importância. A natureza de novo, o que está no sentido rarefeito dos dias. A tomada desligada do supérfluo, o non-sense da liberdade. Os deveres em ordem. A mania de tentar impressionar, de ser objecto de escultura em si. A pendência das acções, a inutilidade superveniente da lide.

 

Mais um grampo, a conformação daquilo que é, necessariamente fora do rebanho, ultrajado pelos insensíveis. O percurso sinuoso e obscuro. A tenda armada desde sempre no deserto da sua noite. À espera de uma desconhecida, à espera de um homem sábio, providencial, que espera ser ele num amanhecer qualquer, sem melros na geada ou com melros na geada, com elas e eles aninhadas numa costela, desprendido de tudo, sujeito a tudo, agora que a cera secou, que o que sabe ainda não lhe serve para nada.

 

Que se deixe enlouquecer pelos violinos, a desmentir que seja só prosápia. Ténues ligações se estabelecem, ruídos do exterior, sons de vozes. Os dias flamejantes de todas as descobertas, de toda a embriaguez da atracção mútua. Prega mais um grampo no auto-conhecimento, não tem feito outra coisa, prega mais um grampo na aceitação sem revolta, na purificação dos ideais, na respiração com cheiros. Naquilo que pode fazer por ele em vez de andar a fazer pelos outros. Quantos grampos são necessários até chegar ao lugar do homem sábio? Quantos grampos para um aconchego?

 

Se pudesse descontrair-se mais naquela queda que ainda estava a ocorrer, podia apreciar melhor a deslocação. A queda não o vai matar nem dar cabo dos ossos mais do que daria uma mudança de móveis. A queda a libertação do estado anterior. Falta limpar o pó ao gorro improvisado. Estabelecer um perímetro, erguer a tenda, aquecer as rações, actualizar as anotações. Esquecer as agruras do mau feitio, aquecer as mãos na chávena de café, fumar um cigarro devagar. Deste lugar sem nome. Adorar uma Lua fratricida. Mais um trecho conveniente na deserção. A abdicação. O sentido mais profundo por revelar, sem nenhum tipo de pressentimentos, intuição mortificada, um som fátuo de elevador, um automóvel no asfalto, uma premonição, uma torneira que pinga. Um latido do passado.

 

O lugar confortável do medo,onde germina a semente não especificada. O pé posto de qualquer sucesso é uma prévia passagem pelos percurso do erro. O engano da carne? O fulgor da química? As cores quentes do desejo, sempre. É isto que quer festejar, a fluência dos sentidos, a amabilidade das palavras, o gosto pela aventura, a sedução, o inesperado. Elixires e notas quentes ao pequeno almoço. Tardes sonolentas da rede de conhecimento mútuo. Luas-de-mel. 

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Belém quase Deserta. Nunca, àquela hora do dia, a cidade estivera tão vazia, tão disponível para os raros transeuntes. Atravessam-se ruas sem vislumbrar automóveis. As pistas do gelo monopolizam os divertimentos infantis, os contentores estão atulhados de lixo que sobra para o chão, em apelativas embalagens já sem préstimo. 

 

A ironia do painel rolante de publicidade exibir uma mensagem cáustica contra o consumo, quando o seu fito é promover produtos, criar apetências. Não tem qualquer anúncio no reverso. Um descuido da JCDecoux? Um funcionário com sentido de humor? O patrocínio de um mecenas imaterialista?

 

À esquina da Praça da República uma algazarra alada, pombos e gaivotas, guinchos por pão distribuído por um trio, duas mulheres e um homem, bem agasalhados, com sacos de plástico a circundá-los, deitam pão às aves alvoraçadas. Um festim, a descontracção a deter os automóveis. O mesmo trio que mais à frente comia croissants e distribuía mais pão junto da Universidade. Uma tradição de natal ou uma promessa, um passeio domingueiro, sem ser domingo. Com restos de pão.

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«Roupa-Velha»

25.12.15

A folha sem fim que se adivinha, para além da barra de rolagem. A metáfora do seu dia ainda não vivido. O que vai deitar nesse dia, tornado especial por formatação? Igual aos outros todos, um estendal de desejos, dúvidas. O quotidiano por arrumar. Resultado de equações novas, com mais variáveis, menos valores conhecidos. Recombinadas para o desafiar assim logo no principio do dia, quando ainda nem o café da manhã fez efeito. O desafio de preencher o dia, a segunda pele a descamar-se para o inverno. Os apontamentos imprescindíveis da jornada. A mania da perfeição. A presunção de eventos. As miríades de possibilidades impraticáveis. Trocar de porta-chaves.

 

As pesquisas erráticas, sem nenhum plano de estudo, com planos curtos de acção, a falta de clarividência, a paixão esvaída numa embriaguez de culinária. Os apelos sub-sónicos, neutrinos desvairados e persistentes. O texto raiado do não sentido de dias decretados, o termómetro na mesa de cabeceira, a febre ou o torpor. Os concursos adiados. Os fetiches por concretizar. Uma empatia pouco engenhosa com o tempo. A intervenção milagrosa da água quente. E depois?

 

É isto, não consegue que seja mais do isto. Conferências da Tenda. A maneira oblíqua. O dia seguinte. Que grande festa!!! Que grande ressaca, café forte. Para onde foi a serotonina? Tenho um contrato contigo para te levar aos cumes. As profecias trocadas, a posição equívoca, o poiso incerto, o mapa por desenhar, o mapa azul a fazer sentido. Há algum mapa que consiga decifrar? Com a inépcia para a topografia, para a abordagem do terreno. Fixar grampos é canja, com a adequada ferramenta.

 

O mar podia-me estar a marulhar segredos, se lá estivesse com ele. Daqui parece-me demasiado longe, eu demasiado preguiçoso para ir ter com ele, a debater-me com a irritação vermelha, das sensações quentes que me dilaceram, do mar que não está aqui para me soprar um desejo solene de boa ventura. A não admitir nada que me possa prejudicar. A mudar a pessoa que fala, a orla da floresta. As trevas para além da luz desta fogueira. Já não há fogueiras. Míriades de luzes led, aventais e conchas, turistas, caval(h)eiros do asfalto. A tristeza insolúvel do desmontar do circo? Ansiedade desnecessária. Demasiada actividade no cérebro. O desmazelo controlado, sem melros à geada, prenúncio do que já se sumiu, como os melros.

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