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9 - O Fim do Estado de Espírito

 
Emilia estava estupefacta. Não tendo razões para não acreditar naquilo que Luís lhe estava a contar, conheciam-se há pouco tempo. Mais do que colocar em causa aquilo que ele lhe dizia, era o próprio facto de estar ali a ouvir alguém afirmar que tinha a possibilidade de ser dispensado de um Estado de Espírito. Nunca tal hipótese lhe ocorrera como exequível para um cidadão, apesar dela já ter tido também a ousadia de devanear sobre isso. Nascia-lhe com isso, sem se aperceber, também um sentimento de perda, caso o Psicólogo conseguisse dispensá-lo, de não ter oportunidade para que o  mesmo lhe acontecesse a ela. Que aquilo podia representar uma ameaça ao relacionamento. Não sabia o efeito que aquilo podia ter no Luís e na maneira como se estavam a cativar. Reminiscências de velhos formatos de príncipes encantados. Não o queria perder, mas se aquela mudança se operasse, havia essa possibilidade, com as modificações improváveis da perda da almofada do Estado de Espírito.

Até agora tinham sido sempre sinceros no que diziam um ao outro e por isso, de maneira delicada, ela confrontou Luís com essa possibilidade. 

- Admito que, com a alegria e com toda a curiosidade, me esqueci desse pormenor importante. O processo é reversível, basta voltar a activar o Estado de Espírito, mas no entretanto não espero transformar-me num traste, mas podem acontecer coisas que não se podem prever, suponho. Eu só estou a ver-me mais feliz por estar contigo, mas isso é o que eu antecipo, não é nenhuma certeza. Não acredito que aquilo que digo ser a melhor versão de mim se vá abaixo por causa disso, mas é também isso que quero saber. Se vier a saber, isto ainda é uma hipótese. Sem qualquer garantia de concretização.

- Tens razão. Não podemos fazer nada, mas achei importante partilhar isto contigo. 

 - E fizeste muito bem, meu amor. 

- Quê? 

- Meu amor, o que é que tem? 

- Não tem nada de mais senão ser a primeira vez que te ouço tratares-me assim. 

 - Saiu-me. Vamos fazer o jantar?

- Faço eu, tu lavas a loiça e fazes o café. 

 - Touché!

Luís Sedas sentia-se descontraído pela confiança que tinha nos seus sentimentos relativamente a Emilia. Não temia que o desaparecimento do Estado de Espírito modificasse a natureza deles. Sabia que iria enfrentar mais dificuldades em conviver com o trabalho e a sociedade em geral. Que se iria enervar como acontecera naquele dia que dera início a todo este processo. Sentia-se em paz com ela e até podia ocorrer que este novo estado de espírito o impedisse de ter aquele tipo de emoções. Estar enamorado pacificava-o.

Emilia não ficou mais preocupada do que estava. A convicção e a descontracção do Luís trouxeram até um relativizar de toda aquela preocupação. Por outro lado estava embevecida pelo tratamento por amor, algo de físico acontecera nela ao ouvir ser assim tratada. Uma disponibilidade para se entregar totalmente, um frémito de energia sensual desabou sobre ela. Por isso a sua fantasia culinária se iria concentrar em engendrar um prato com um toque afrodisíaco. No ecrã táctil do frigorífico pesquisou por ingredientes dessa natureza, bastava-lhe um ou dois para misturar na refeição. O seu corpo começava a sentir os efeitos de todas as hormonas que ionizavam aquele fim de tarde, misturadas com as do Luís. Sensualidade que se liberta em inventar uma refeição. O que iria ser? Preparou café e levou uma caneca ao Luís. Ele deu-lhe um beijo prolongado, muito mais arrebatado do que o costume, as suas tensões arteriais subiam forçosamente. 

- Tenho que fazer o jantar. 

- Tá. Obrigado pelo café. Vai lá, inspira-te. 

- Nem imaginas...

 

Nisto, o Psicólogo já tinha entretanto expedido a sua ordem e tinha criado uma conta em nome falso. De onde expediu uma mensagem com a informação que o Estado de Espírito lhe seria retirado em breve. Quando sentisse alguma diferença devia de imediato comunicar-lhe. Seria então agendado um encontro para falarem pessoalmente sobre o que estava a acontecer.

Estava tudo a correr de forma satisfatória, se bem que o ónus da ansiedade por desenvolvimentos futuros tivesse passado para o lado do poderoso Psicólogo. Não sabia quando iria ser executada a sua ordem. Preservar a normalidade, não se intrometendo nos afazeres das outras Entidades Oficiais era uma das regras que sempre respeitara. Não o ia fazer agora, pondo em risco a banalidade da ordem com uma interferência pessoal na secção onde ela será executada.

Descrição era um dos traços da sua personalidade. Era assim que estudava os outros, que utilizava a sua afabilidade para eles se sentissem mais à vontade para se revelarem. Subtilezas postas em pratica pelos estudos e pelos anos de aperfeiçoamento dessas técnicas. Agora ia ter a oportunidade de conhecer e estudar um ser diferente daquela multidão, um ser à sua altura em capacidade de insatisfação. No caso dele nem o Estado de Espírito domara definitivamente uma ânsia por liberdade, por saber como seria tudo sem o efeito da sua dominação química. 

 

O facto de estar enamorado complicava a sua futura análise. Todas as substâncias que um estado desses liberta no corpo dos indivíduos torna-os quase inumanos, em certas alturas, e mesmo condicionado pelo Estado de Espírito, Luís Sedas não só intuíra que aquele sentir seria mais intenso sem o efeito químico, como o seu sentir já era exagerado, rompia com a dosagem, rompia em libertação das suas hormonas e era mesmo por isso que ele tinha eventualmente apurado a sua sensibilidade e intuição.

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