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O tipo das escritas não quer vir. Faz sempre esta birra. Pasmado em frente alega que nada tem para dizer... claro que tem. Tem imenso, mas é preguiçoso, gosta de fazer fitas, mesmo que na cara não se forme alguma careta. Não faz alegações verbais. É aquele ar desamparado, de quem duvida da própria sombra. Uma não vontade estranha, se comparar-mos com as alturas em que se entusiasma. Quando isso sucede parece que toca teclas, faz trejeitos com os dedos como se um pianista a sério ali tocasse.
 
Esta malta tem superstições, mas não é por isso. É por inércia. Completa inércia, momentânea, embora petrificadora. Os sentidos suspensos, presos por um trompete à sua missão. Escreve agora o suficiente para se manter a escrever e a não sentir. Comprazido no vazio do momento. Hoje come um pastel de nata demoradamente, como se o estivesse mesmo a apreciar. Nem sempre tem tempo para isso. Desliga do modo apreciar e faz o que tem a fazer. Hoje tinha muito que fazer. Tem sempre. Talvez invente que fazer. Mude tudo pelo prazer de mudar, pelo prazer de limpar tudo atrás do móveis.
 
Alguém liga a música, embora em off. Falha de comunicação. Parece ficar menos tenso com a música. Uma mudança imperceptível. Desanuviar os ouvidos, sentir o ritmo. Talvez seja dos horários trocados, dos horários desencontrados, do sono protelado em balanços de rede. Hoje está, todavia, mais resistente do que o costume. Terá medo de se despentear?

 

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A única pureza original a que pude, no meio disto tudo, deitar o dente, literalmente, foi a um cachorro quente de salsicha comum. Nada obsta que tal cachorro me tenha saciado a fome e o gosto. Nem nada obsta que a tal pureza exclua cachorros do menu, nas letrinhas miudinhas de seguros, da bula. Afinal a recordação daquelas panelas de ferro, da chanfana cozinhada com calor de lenha sossegou-me quanto à parte material que é conveniente. A parte da fome é inevitável, o gosto da combinação e as reminiscências em que comia cachorros ao fim da noite, que o dia começa quando acordar daqui a bocado. Estes cachorros quentes de salsicha comum não me parecem já materiais, evocar a satisfação com os comi e tê-la podido ter, é o bastante para me ter aproximado de uma qualquer pureza original. Comendo cachorros quentes nada extraordinários. Enquanto me leio informação sobre Rafeiros Alentejanos. Apenas considerações sobre cursos para cães perigosos me fez quase resvalar para o demoníaco. Um rafeiro Alentejano dorme de dia e de noite vela pela guarda do seu espaço. Ainda bem que estão despertos de noite. Boa companhia para colóquios, um olhar tranquilo, confiante. 

 

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Embora há muito que soubesse que quando se faz uma pergunta se deve esperar a resposta, sem esperar que ela seja um sim, ouvir um não deve ser respeitado. Não tem que gostar. Respeitar sim. Serão os reveses a confirmação de que se respeita o princípio de respeitar. Não tinha ficado confortável com a resposta porque se agarrava àquela possibilidade, por ela ser a mais desejável. E não ter mais nenhum igualmente desejável naquela altura, que o confortasse daquela impossibilidade. Tal contratempo leva-o de novo para a dúvida, para o inconcreto futuro, forçando-o a tentar então descobrir a mais agradável possibilidade. A tal que não existia. O elevado número de incógnitas que ainda permanecia não lhe permitia avançar um milímetro. A sensação de que não se avança deriva mais da ansiedade em ver questões concretamente respondidas, nos papeis. As grandes decisões envolvem sempre papeis, minudências, negociações, cedências. Sentia-se pouco confortável com tudo aquilo, aquela teia de complicações criadas pelas sociedade modernas, para amordaçar as pessoas, em contratos que apenas são perpétuos na tinta. Os seres humanos não falham de propósito, são também vítimas das circunstâncias.

 

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Houve então em qualquer altura deste processo. Se é que se lhe pode chamar de verdade um processo. Consumir diesel para se aborrecer o mesmo que em casa? A costumada exumação do prosaico, como se em todas as saídas tivesse que acontecer o improvável. Nem o provável. Aconteceu alguma vez algum evento extraordinário? É bem possível que tais eventos apenas sejam susceptíveis de acontecer nas distracções do cérebro hiperactivo, nos intervalos em que se esquece de orientar as tarefas básicas da vida. Até em função do ambiente, da poluição provocada pela pior "descoberta" humana recente, que veio intensificar toda a barbárie que vinha de trás, agora locomovida. 

 

É bem certo que perco a Viajem do Elefante se me contradisser, preferir o futebol à cultura. É capaz de ser muita cultura para hoje. Dia de separação do lixo em si, o dia da maior angustia, a angustia final, ainda assim. Encaminhados tais desperdícios para a reciclagem é apenas uma fraca penitência para todo a poluição que provoco. E não estou a referir-me ao Pancadaria. Finalmente com o ícone personalizado. O tom de azul é felizmente diferente dos outros. O tempo que demora a insinuar-se nos locais onde deve aparecer retraí-me de mudanças. Neste reino tudo tem que ser de imediato. O imediato perdura? Perdura se for a rotina de comer peixe grelhado. De dizer bom-dia. De gritar golo. Dum olhar se destacar na multidão. O reino do lixo deixou-me de rastos, sem vontade de andar a trepar colinas, quando todo o aborrecimento está aí, totalmente de borla. As noites frias confinam o aborrecimento ao interior. Exteriores desafogados, recuperado todo o espaço, esquecidos os pinchavelhos. 

 

A rede desobrigada de decisões, apenas para o sono recuperador. Permanecem nichos de desordem, cada vez menos, cada vez tudo menos cheios de elementos que podem retirar a atenção do essencial. Do essencial do que se faz com o pouco tempo em que supostamente somos livres, até para nada fazer, nada alterar, nada estragar. A imagem do essencial que aqui me trouxe, restaurada a quase pureza original, se é que há alguma pureza original em algum lado. A maior parte disto não faz falta nenhum. A ideia de fazer arte com lixo é tão tola com de fazer sem lixo. É fazer arte. Se ainda fosse com a do Picasso. Arte no pó amontoado. Todo o excesso removido dá-me ainda toda a confiança de que, apesar de empurrado por mim e pelos outros, posso aqui fazer um golpe qualquer de rins e tudo permanecer intacto, apesar de não estar fisicamente presente. 

 

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Escrever umas frases com aparente sentido. Começar a correr. Deixar de andar e começar a escrever, quero dizer, a correr. É por escrever a correr que tal confusão se pode colocar, mesmo que não haja tempo limite para acabar a prova. A mensagem há muito que passou de prazo de validade, se é que alguma vez padeceu disso. Nenhuma mensagem que possa reclamar ter inventado. Pode ser apenas hábito.O hábito é um passatempo, um entretenimento. Como se isso tivesse alguma importância, em termos gerais. 

 

Não era numa grande tertúlia que apetecia estar. Talvez estivesse melhor a sonhar na rede, com a música de Cinematic Orchestra. Se estivesse lá a sonhar, como tantas vezes fiz, sem resultados práticos de nenhuma espécie. A substituir pessoas por quimeras. Todas as quimeras que, não ultrapassando isso, permanecem isso mesmo. Não chegaram a ser desilusões. Morreram na praia dum esquecimento conveniente. Não adianta insistir com a criação. 

 

A criação não está propriamente à  disposição, para moldar nela quaisquer fantasias. O que me faz realmente falta? Esquecer-me? Deixar andar? Deixar-me embalar por frascos de compota? Quem me dera não ter jeito para fazer tanto, dispersar-me por tantas vertentes. Preciso que comece a fica tudo limpo, desobstruído, para poder movimentar-me sem medo de embarrar em tudo que ainda permanece a atrapalhar o curso dos destinos que ousei sonhar, numa rede, ou em qualquer outro local com ligação ao infinito, ou ao imediato. No imediato pode estar o infinito. Quero lá saber do infinito. O infinito perturbar-me, deixa-me cheio de dúvidas, que não existem na quantidade de açúcar para a compota. 

 

Partir pedra à procura dos sonhos da rede é o mesmo resultado. E quando me refiro a sonhos não me refiro a trabalhos de Hércules. Refiro-me a objectos que podem ser confundidos com sonhos. O sonho através dos objectos é um engano dos antigos, como antigos são os sonhos e a sua permanência não material. Estes sonhos particulares. Creta livre do Islão é um sonho grandiloquente. Dos que se sentem nas tripas.

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«Nossa mente tem uma capacidade incrível de nos manter presos a comportamentos e emoções que não nos servem mais.»*

 

Não penses mais nisso. Afinal as emoções e os pensamentos, apesar de viciarem como droga, não requerem nenhuma acção criminosa para se realizar. Não é crime o consumo de emoções fora do prazo, por repetição, mesmo que isso possa configurar causar mal (genericamente) a si próprio. Nestes assunto da psicologia, muito mais do que da biologia ou da medicina, as soluções são díspares. Estava mesmo a perguntar como é que o eu identifica todos os comportamentos e emoções que não nos servem. Para além da psicanálise, que deve ser caríssima, tendo em conta a qualidade daqueles chaises longue que usam nos consultórios.

 

Boa psicanálise deve ser difícil de encontrar, por isso vale mais, nesse espírito de sintonizar essas escórias da alma, meditar. Tinha que ser, não tenho muito jeito para a meditação, embora seja em conta. Um tapete felpudo, os pés cruzados e ... quando muito confundo estadias na rede com profunda meditação e auto-conhecimento. A rede é uma impostora. Os meus pensamentos lá são iguais aos que tenho noutros locais e a outras horas do dia. Nem me livra de pensamentos dispensáveis.

 

«Já algumas filosofias orientais sugerem que ao meditar nos conectamos com o presente e impedimos nossa mente de vagar em dois tempos que não existem: o passado (origem da repetição) e o futuro (necessidade de manutenção da repetição).»

 

* © obvious: Por que repetimos os mesmos erros - Mônica Montone

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Sendo assim, captei um motivo. A repetição. Poderosa repetição. Repetir-me aqui pode ser encarado como uma forma de meditação. Não proporciona resultados visíveis. Sem vergonha, serve-se a meditação possível. Por causa da repetição da meditação, embora não exista tapete, meditativo, nem esteja naquela posição oriental de meditação (como é bem essa posição?). Suponho que a meditação assim executada seja considerada extravagante e imprópria. À falta de uma chaise longue de psicanalista projecta-se o desejo confessional tendo como base a cadeira de polipropileno preto, tão essencial a esta função quanto a posição para a meditação. Uma almofada pode quando muito representar o tapete. Não o de um ringue, mas o de um distanciamento impossível para uma mente dispersa. Embora não oficialmente reconhecido como a conexão ao presente, a técnica é experimental na cobaia que me transformei, não está tudo registado com clareza. As reticências são daí provenientes. As próximas incertezas e certezas mantém-se num limbo, sem papel carimbado ou protocolo de acerto de relógios. O que vai ainda ser necessário atravessar até ver o horizonte límpido. Uma confirmação. Não há confirmações. Os eventuais guias já se demitiram, fartos de ninguém seguir as suas indicações. Esta é uma viagem que prossegue sem que se possa anunciar o final. Um comboio delirante. Um hiato. Como maquinista posso afiançar que nunca me foram entregues quaisquer guias. Deram-me ordem de partida. Deixei os fantasmas à solta, embora não todos, apenas aqueles que a inábil mão domina. Não tem a itinerância dum circo, apenas a errância do vagabundo. Ninguém espera um Aladino, com uma apetecível secretária, a bafejar sortes e métricas, se bem que por vezes fosse necessário o comprimido azul e vermelho, para mais à frente ambos os caminhos se voltarem a tornar um só. Alarme Falso de escolha, é melhor não querer escolher. Esqueço-me que é apenas repetição. O albergue é modesto e pouco luminoso e iluminado, a preguiça é incipiente. As bolachas desapareceram. Os sons desenham teias de aranha de aquietação. Estarei saciado em conformidade, o tapete do sono sem direito a meditação estende-se. 

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É apenas lixo

24.08.14
Não tinha acordado em grande forma, nem física, nem mental. Tinha vontade de terminar o trabalho que tinha começado, estranhamente não lhe apetecia recomeçar. Empregar a palavra estranheza é apenas para apimentar a não vontade imediata. Vestir roupa de trabalho, colocar o inseparável boné e sujar as mãos. Colocar alguma ordem naquilo, sendo que a natureza é não terem ordem nenhuma. Apesar de todas as tentativas para o fazer. Deitava fora as listas da penúltima mudança de casa. Nada daquilo interessava. Nem as reclamações para os parques de campismo. Nem os planos para uma outra que ali permanecem, em projecto, sem que alguma vez aqueles traços possam ganhar vida. Tudo aquilo deve estar ultrapassado por todos os regulamentos e directivas que entretanto foram inventando. Resmas de papel a quem ninguém vai ligar. Cujo prazo de validade há muito que expirou. Declarações de impostos da idade do papel, "recuerdos". 

 

De tudo aquilo que serviu para sair e conhecer e de tudo aquilo que foi comprado para ali permanecer. Foi o exílio o que ali procurou? Foi um refúgio? Foi uma mistificação? A nada disto vai aquela tralha responder. Serve para o enervar por antecipação e para permanecer ali até que dores de costas confirmem o que os olhos vêm, limpeza, pureza original. Em religião poderia ser pecado. É apenas lixo. 

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Fui impaciente e tentei ir a todos os lados, segui os meus impulsos, sem mapa para me guiar, guiaram-me eles. Sobrevivi a batalhas que no final me pareceram poder ter sido torneadas. Onde ia aprender a arte da guerra senão praticando? As batalhas não acabaram, há sempre uma colina que é imperioso tomar de assalto. Estou mais perdido por não saber mais onde procurar? Estou perdido por deixar de me encarniçar nos vislumbres, que regressam sempre. Regressam nada. Nunca daqui saíram. De vislumbres e de imaginação traída pela falta de maturidade? Tenho sempre tanto que fazer. Continuarei impaciente sob a capa da resignação finalizada. Caminhei com a multidão tempo demais, embora explorasse o erro e persistisse nele, sendo que o erro é a sabedoria quando assim ajo. Se me guio de modo diferente eles não podem dar conselhos úteis. A miragem das escarpas. Tudo o que não consegui imaginar, apesar de todas as minhas diligências. Não me julgo patético por lavar bem tudo pela última vez. Não me chamo patético, chamo-me ...

 

Nem sequer sou esquisito ou excêntrico, confundo-me perfeitamente nas grandes multidões para ouvir o que os indivíduos dizem. Os sons que ressoam dos amplificadores é quase sempre o mesmo discurso e as mesmas canções. De tantas escaramuças em que sobrevivi, aprendi não a calar a revolta, mas em contar carneiros. Nada daquilo com que me tenho revoltado sofreu qualquer beliscão. Prefiro não pegar, permanecer oculto e concentrar-me nos intervalos das gotas da chuva. Encontrar nisso tudo o que preciso para alimentar este novo monstro. Nunca me conseguirei livrar de uns quantos monstros, nem de temores, nem de sensaborias. O que ontem era sensaboria hoje pode ser emoção.  As emoções deflectiram, em lume brando de todas as decisões, não só anunciadas, como as necessárias. De enfrentar pó e o desvario de coleccionar objectos de toda a espécie. Assim todos juntos são o tribunal de júri de todos os erros, embora sejam eles os acusados, por omissão. Terão brilhado de propósito para os meus olhos? Florestas de pedra acantonadas. Caixotes de invenções por realizar. Lixo temporariamente em minha posse. Foi daquilo que andei à procura? Ou andei a esconder-me atrás daquilo tudo?  

 

Todos aqueles papeis amarelecidos, fora de prazo, de actos sem importância. Declarações prescritas. Minudências, planos ainda mais onerados. Para uma prisão doirada? De que fugi ao enterrar-me com a pá que trouxe comigo, cheio de boa fé. Falta-me a bonomia do proprietário. Sempre lutei com uma certa espécie de pobreza, nisso sou tão parecido com todos. Tendo-me julgado livre da pobreza de espírito, eis que a mesmo não tem grande correspondência material. Se nada disto é uma tragédia e não me comporto como tal, é o  preço da minha auto-determinação. Quereria uma refeição mais justa de acordo com o meu esforço, mas ninguém parece interessado. Nem nada de heróico tampouco se desenrola. O herói que havia em mim não era herói nenhum, queriam um herói e escolheram-me, não me ocorreu recusar, por preguiça ou covardia. A mesma que tantas vezes me livrou de apuros. Eu estou em apuros? 

 

Resolvido e nem sequer temerário. Parco em antecipações. Previsões de cinema. De vez em quando lembro-me da Marlene Dietrich e desses sonhos mirabolantes, que gostaria de poder sonhar. Sobre as possibilidades que rasgariam o horizonte. Os sonhos que se guardam para momentos de aflição, quando apenas com eles podemos contar. Vale mais que incomodar a vizinhança. Desde que o sonhos sejam em surdina, sem palavrões. Será até por causa desses sonhos todos mirabolante. Circos faustoso de prazeres adivinhados, cuja materialização jamais ocorrerá, embora nem as rugas de expressão escondam, que continuam lá. 

 

Nada no futuro se adivinha heróico ou magnânimo. Estarei já a temperar-me para ele, evitando olhá-lo durante muito tempo, este presente impresso terá vindo resgatar-me de toda esta embrulhada? Nem fato de gala trouxe, não tinha, nunca liguei a trajes de gala. Lancei aqui âncora e vivo neste barco atracado, longe das emoções das grandes pescarias, da revolta das ondas, ou dos pores do sol de fotografia, reais e eu a pensar que são fotografias. É sempre possível viver com menos. É como o sal. Neste barco eternamente atracado reformulo quase tudo. Sinto alguns pneus a desfazer-se, a recuperar uma elegância que nunca possui, passos hesitantes, satélites de gorduras desnecessárias que se queimam. 

 

Prosa encarniçada ou bem falante. Os vários ângulos de nada em especial. Não vale a pena ter pressa. Apesar de amanhã ser fim de semana. Estou a temperar-me para todas as mudanças não esperando mudar nada, afasto as conjecturas. Felizmente que tudo se pode resumir a um notícia breve, se houvesse notícia. Acontecimentos assim não são notícia, evita-se o desperdício inglório de papel. Quem me dera que a electricidade deste serviço fosse a energia solar. Encontrei a pedra filosofal, a peça que faltava na cabana das luas cheias. Quem quer o incenso d'A Casa, quando há eucaliptos nas redondezas, e sol. Um local propicio a painéis solares? (la se vai a pureza da revolução). Para escrever num teclado ao som de jazz, sob uma luz led. 

 

Permanecem resquícios do proprietário que nunca fui. Fui sempre servo da gleba, orgulhoso da sua escravidão, a ver a rede a ficar mais amarela por causa do sol e as espreguiçadeiras de paletes sem uso. Os meus sonhos de propriedade são estes que construo quando pedalo, um recanto sem ofender a natureza, sem canseiras. Com água corrente por gravidade, é claro. Uma cabana de troncos. Na minha vida esse sonho, apesar de ser um sonho, e de o reconhecer como tal, a mim me bastará se nunca tiver esse recanto. Certo é que não vou afadigar-me para tomar posse dele. Espero continuar a pedalar com o sonho de uma cabana de troncos, de confrontar esse sonho com o concreto de pedra dos casebres abandonados. 

 

Vou subir à montanha, não à principal, nem à mais alta. Empurrado por zelosos funcionários. Ando aqui há demasiado tempo a reflectir, a cirandar, ensimesmado, a pretender andar a ganhar balanço, a curtir desculpas que já metem nojo. Embora lhe possa chamar explicações. A teoria do Big-Bang? Os dias festivos nunca prosseguiram. A imprudência de se festejar por antecipação de modo tão imoderado. Convidaram-me amigavelmente, com firmeza, um sorriso meio feito no lábio. Sabia que o meu comportamento havia de ditar que os funcionários fizessem o convite. Nunca mais me decidia. Agora tenho que ter nervos de aço. Temperados forja em lume brando da reafectações anunciadas.

 

Ainda não é a grande montanha. É um teste à minha actual capacidade. Aos nervos de aço que não possuo, apenas me faz jeito que os pense ter, para encorajar a auto-estima. Para desmistificar mitos a que só eu me prostrei como tal. Esqueci-me, com os esquecimentos possíveis, de que a poluição há muito que afastou Tágides ou artistas a preto e branco, arrebatadas como só um Anjo Azul pode arrebatar-se e a mim coitado, derrotado por uma foto. «Play it again, Sam.»

 

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Seria a hora de efectuar uma viagem rasante sobre a humanidade na face oculta do sol. Não há nenhum veículo com sensores capazes de a fazer. Que eu saiba e sobre esse tipo de veículos sei imensamente pouco, e não lamento nada saber mais. A aeronáutica nunca foi comigo. As asas com que vou são demasiado desvairadas para terem utilidade na aeronáutica. Passar pelo burburinho de cidades improváveis, os céus da arábia em fundo, num café, talvez com um tarbuche na cabeça e barba por fazer. É minha convicção que eles são a outra face de mim. Conhecê-los não faz de mim admirador. O voo rasante prosseguiria para um oriente nocturno de cidades inimagináveis, os confins nórdicos, a estepe siberiana. Muito combustível para tamanhas ambições. Captariam tais aparelhos a telemetria da vida, o índice da felicidade, da resignação, o que é que eles são? São assim tão diferentes para os olhar com desconfiança? Um tarbuche para dizer que vim em paz, apenas para me conceder a entardeceres diferentes. Sem mulher por causa desse hábito de querer trocar a mulher por X camelos. Não iria ao engano. Poderia ficar desenganado. Fui aqui, fui acolá, sem pretexto nenhum. Quem precisa de pretextos para evidenciar não ter feito nada do programado e ter feito o quase nada que precisava de ser feito. As notas sucedem-se, é verdade que me deixo enlevar por elas, as madeiras e os sopros, as cordas e a percursão. A batuta dum senhor que dirige sempre tudo de modo tão perfeito, estou nas nuvens confortáveis ou caio desesperadamente, sem que tal me deixe temeroso pelo destino da queda. É uma experiência do nada. Alguém que nunca viu nem tocou em vidro em toda a vida. As trombetas não anunciam nenhum poder que se aproxime, posso imaginar-me como anjo mal disposto num botequim das Arábias. Arranhava um francês para me entender sobre o açúcar que não quereria no chá. Melhor seria se batesse bolas de ténis contra a parede, ou olhasse para ti como se sempre ai estivesses estado, em segunda linha, a tentar reparar os estragos das dúvidas que ainda não foram respondidas. Ainda não estás aí, para me responderes com a tua presença, mesmo que não desse por ela. Eles é que gostam de missas de finados, dão excelentes obras musicais. Disposições finais concretas. Para quê efabular sobre a caverna, quando é apenas poupança e concentração. 

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