Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]


Ambiente sonoro sugerido: 

AGNUS DEI - Sacred Choral Music - The Choir of New College, Oxford. E. Higginbottom [Full Album]

 

O seu passatempo/contratempo era testar-se ou esgueirar-se ao teste, um teste de adivinhação. Se não podia ganhar, retrocedia, esquecia-se daquele elemento que podia despoletar trechos do filme gravado em si, a propagar lancinantes fotões em imagens de grandes planos até aí nunca filmados. Nesse sentir doentio que procurava desmoralizar ao enfrentar os sorrisos nas fotografias de secagem recente, para os cadernos escritos em caligrafias de vários tipos, como se as letras que enfileirava fossem resultado de um exame doloroso, uma confissão gráfica da emoção, um teste de personalidade para além do seu conteúdo organicamente caótico.

 

Nos trechos musicais que escolhia para sua companhia testa a sua capacidade de os continuar a apreciar, por si só, sem a carga emocional a gangrenar a melodia.  A sua bagagem intacta, sempre pronta a usar, a mudar-se. Um grandioso plano de evasão nunca testado, a não ser in vitro, a evoluir sem instruções. Por sua conta e risco. A indagar onde pode ir sem a ajuda da vida que aquelas recordações evocam. A sede intrínseca dos seres e a água potável que lhes mata a sede, sem caudal suficiente para descer ao vale.

 

Nenhum destes dedicados auxiliares de memória lhe desperta qualquer recordação adversa. Acontecimentos fora do comum, percursos sinuosos o tinham trazido ali. Trabalhosos processos mentais para preservar a conformação aos princípios aleatórios da atracção. Sem qualquer soberania sobre si nem sobre a causa primária de qualquer avistamento de interesse. Ele andava à sua procura. O banco de soba deixou de ser preciso, ele é o soba, mesmo não tendo banco. Ele envolve as claras em castelo de um bolo supramaterial com a colher da língua, julgando fazer amor com as misturas pegajosas dos ingredientes ao acaso, na proporção certa para se comover. 

 

Ele testa os limites ulteriores com disparos sub-sónicos de pura energia da adiada fusão dos corpos, pelas sirenes tresloucadas na noite, pelo vento faustoso a fustigar as vidraças. A dança dos ingredientes certos. A clandestinidade dos amantes. O trovão da iridiscência. O suave restolhar de uma respiração tranquila, sem apneias. Em que os testes foram passados com toda a largura de banda a funcionar, para um ambiente mais refinado. Em que que toda a fantasia é atendível. 

 

 No muro transponível do que não foi feito, numa ponta solta do destino, o teste final da paciência para o homem sábio, sempre lavado, com pouca necessidade de palavras, com o olhar penetrante do passado reconfigurado. Apelos sub-sónicos, descascar vértebras ao corpo, esgueirar-se entre os passeantes, dançar com a mímica certa, com o centro de gravidade radicalmente alterado, em conformação das emoções que se moveram. Um fila de vulcões, um percurso pedestre de cicatrizes. A suspensão do tempo. Agora. 

 

Um tempo novo, sempre tempo, nada mais que isso, o âmago da angustia. O que ele cola na cara das pessoas. Decretado agora, neste sossego absoluto, nesta delicadeza da hora, neste desprendimento a fingir. Embalado por toadas cósmicas. Um filme fetiche. Um almoço de quem não se vê há muito tempo. Uma massagem com óleos essenciais. Incenso das Índias. Velas lacrimejantes. Uma toada dolente das horas em que todos ou quase todos dormem e nas oficinas se ultimam as novidades habituais de nacionalização dos prejuízos, a rima da pilhagem.

 

Concorrência desleal, recursos maximizados, voz de gestão. Voz de emoção absorvida pelo som dos pneus a rolarem na chuva. O vento esgrouviado. Os ingredientes misturados e cozidos, imunes. O desencontro imprevisível deste mapa tão pouco Cor-de-Rosa, esconjurar a noite e os seus protestos alternativos. Queria tão pouco desse muito que paira na floresta inexplorada, no adeus ao cacifo. No olhar interessado, nos dedos treinados, no sonambulismos dos livre-pensadores. No recurso ao pestanejar para comunicar.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)


Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.