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Caixote n.º 1

 

Reprodução escrita das interacções que o cidadão Luís Manuel Lourenço Sedas efectuou com as Entidades Oficiais em 28Dec_17:45.

 

- Bom dia. Quero fazer uma reclamação.

- Bom dia. Daqui é da Secção de Pecados Mortais, vou encaminhá-lo para o departamento adequado. O Departamento do Quotidiano. Um momento, não desligue.

- Bom dia, de onde fala?

- Do Departamento do Quotidiano, em que lhe posso ser útil?

- Quero apresentar uma reclamação: quero o meu dia de volta.

- Como assim? 

- Quero o meu dia de volta. Esta chuva e o vento não me deixam ir lá para fora passear. A falta de sol dá-me cabo dos nervos, acordei mal disposto. Por isso que que este dia não seja considerado. Não há condições para o assinalar como vivido, nada ainda aconteceu para que possa declarar-me a viver, neste dia.

- A sua queixa não se enquadra no objectivo deste departamento, não temos jurisdição sobre a contagem de tempo. Aconselho-o, sem qualquer promessa de que lhe irão resolver o seu problema, que contacte o Observatório da Existência. 

 

[...]

 

- Bom dia. Observatório da Existência, em que posso ser útil?

- Bom dia, quero apresentar uma reclamação, quero que este dia seja considerado sem efeito. Que não conte como vivido. 

- Muito bem. Terá que apresentar um pedido formal, descrevendo com pormenor os motivos do requerido. Deverá ser escrito em linguagem sem caracteres SMS, em língua nativa. Depois será apreciada pelo nosso comité. Alerto-o para o facto de o requerimento ser apresentado depois da meia noite. O dia ainda pode ser preenchido com algo que o demova da sua reclamação. Temos imensos pedidos que não tem fundamentação e por isso são indeferidos. Mas representam uma sobrecarga inútil para o sistema. O uso indiscriminado do direito de queixa tem vindo a ser dissuadido.

- Muito obrigado pelos seus esclarecimentos, assim farei. Gostaria de poder desistir de dar o dia como perdido, mas como vou viver na metade que me resta o que poderia viver no dia completo? 

- Deixe-me perguntar, o seu órgão de Estado de Espírito já foi actualizado para a versão de Inverno?

- Não. Costuma ser automático. Este Inverno não me lembro... Pois, falta aquele ambiente que é fornecido na versão de Inverno: Aconchego à Lareira. Podia ter-me ajudado hoje, com este dia horrível, com a decepção de encontrar uma Repartição vazia, ter sido logo atendido. Não fui assaltado na rua, ninguém me dirigiu obscenidades no metro e cheguei seco a casa. Levei a chave de casa. Até arranquei um sorriso a uma Colaboradora do Fornecimento. Apanhei a roupa antes de começar a chover.

- Deve apresentar um pedido urgente através da linha SOS deste Departamento, para que seja actualizado para a versão de inverno. Esse estado de espírito, em férias, como refere, podia bem resolver-lhe a angustia que sente. 

- Assim farei, mas não acredito que me vá salvar o dia. Apesar de tudo ter corrido bem, dentro daquilo que pode correr bem, permanece esta sensação de que o dia não presta, que o tempo não presta, que eu não presto. Se isto continuar vou recorrer à ajuda em tempo real da Meditação Omnipresente, talvez me tire deste paradoxo em que os estados de espírito me aprisionam. Tem havido falhas na concepção desses programas, linhas incompletas. Basta o exemplo do Mar Perto de Si, que já não oferece a essência correspondente. Os programas de Culinária Para Cidadãos não tem sido actualizados. Um cidadão conta com dias difíceis por estes dias.

- Registamos a suas impressões. O programa automático da entoação detectou alteração na sua voz e activou a gravação para posterior avaliação dos Assuntos Internos. Se pudermos fazer alguma acção para melhorar os serviços de informação, faremos. Nada podemos intervir quanto à programação. Isso é com a Informática Celestial, a corporação que ganhou o concurso público quinquenal dos Estados de Espírito.

- De qualquer modo, obrigado. Pelo menos poder trocar estas impressões com um serviço tão prestável deixou-me menos apreensivo. Talvez o efeito dure cinco minutos. Obrigado e bom dia.

- Bom dia. Contacte-nos sempre que precisar. Estamos aqui para o informar.

 

Notas escritas residuais para arquivo morto. Segue uma cópia para o Departamento de Vida Sonâmbula, com o presente relatório ditado, a fim de serem analisados os registos audio das interacções em si, em busca de tendências para o impossível, para formulação de desejos para além do razoável (segundo a tabela, em uso e aprovada, de António Damásio) ou para desejos de abandono das funções laborais. Para ser rentável, o cidadão tem deverá manter as condições mínimas de laborar até aos 80 anos de idade. Recomenda-se o envio expresso da actualização de Inverno, com a versão executiva, do programa Aconchego à Lareira. O cidadão deve ser mantido quente e absorto de pensamentos negativos, no seu período de lazer, com vista a compensar os desequilíbrios dos da sua espécie, associado a desequilíbrio sazonal, provocado pela quebra de produção de luz natural.

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