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recomendo a companhia de 

Wagner - Der Fliegende Hollander (The Flying Dutchman)

 

Quando, no Departamento de Vida Sonâmbula receberam a cópia audio das conversações do cidadão Luís Sedas, procederam como habitualmente, registaram a entrada e colocaram uma etiqueta código de barras no invólucro negro contendo a gravação. Depois disso seria colocada no dispositivo que a levaria para ser escutada pelo «Pedro Nunes» o mega programa que registaria todos os dados da gravação e produziria dados estatísticos, elaboraria um relatório, que seria depois analisado pelo Psicólogo. 

 

O Psicólogo mandava arquivar a maior parte dos registos. Nos que prometiam interesse ou divertimento despachava para o cidadão visado fosse investigado pelo Pedro Nunes, na sua exaustiva pesquisa pelas bases de dados existentes, públicas ou particulares. O programa tinha ordem de intrusão na esfera íntima do cidadão, com poderes equiparados a juiz. O resto, eram insípidos registos de vozes atormentadas com as situações mais triviais. Com toda a espécie de hipocondríacos e de sensíveis. De incompreendidos. A gravação de Luís Sedas interessara ao Psicólogo: aquele cidadão escondia alguma rebeldia sob a capa dos seus problemas pessoais. Poderia ser aquela personagem interessante que sempre desejara estudar por ali. Ao mesmo tempo que justificava a sua manutenção no lugar, sem alarmar ninguém com todo aquele rol de infelizes que o Pedro Nunes lhe endossava. 

 

O Mega-Programa também sentenciava para o arquivo a maior parte daquela tralha sentimental que tinha que analisar e da qual tinha que produzir dados estatísticos sem qualquer interesse prático, que assinalara em Luís Sedas um alvo de interesse. Na sua missão aparentemente comandada de programa informático não registou o nascimento de uma ferramenta nova: a curiosidade específica por aquele caso, como se prometesse divertimento no meio daquela funções monótonas de produzir estatísticas. 

 

Efectua cálculos para determinar a possibilidade da pessoa por trás daquela gravação poder voltar à sua esfera investigatória, com a ordem do Psicólogo. Poderá então proceder a minuciosas buscas nas bases de dados existentes. Reunir toda a informação disponível, elaborar um retrato psicológico do investigado. Fornecer a mais detalhada informação biográfica, registos de hospitais, fichas bancárias, mensagens de correio electrónico trocadas... uma selva de dados onde escava toda informação, como faz com todos os cidadãos que são trazidos de volta ao seu conhecimento por recomendação do Dr. Loppo de Tunes, o Psicólogo. 

 

Para o cargo de Psicólogo eram escolhidas as personalidades de vastos conhecimento de psicologia, psiquiatria, neurologia. Eram seleccionados pela variedade dos seus estudos e pela acutilância das suas observações. Participavam da elaboração da saúde pública mental e as suas decisões eram irrecorríveis na sua esfera de competências.

 

No entanto, até que a imensidão de gravações chegue aos ouvidos do Psicólogo, Luís Sedas acabará o seu dia, começando o próximo sem vontade nenhuma de requerer a não contagem daquele dia como vivido. A actualização de software para executivos produziu nele o efeito desejado e não mais se lembrará do dia de ontem de forma tão negativa como o viveu, razão para se atrever a solicitar o livro de reclamações. A advertência de que a gravação da sua conversa iria ser enviada para aquele departamento desconhecido das Entidades Oficiais, denominado de Vida Sonâmbula, era dispicienda face ao despertar para o dia de labor. O estado de espírito automático era o de energia e leveza, de vontade de colaborar com os restantes Colaboradores, sem aquele negrume do dia anterior. 

 

Tais Estados de Espírito eram reforçados com a detonação de substâncias no cérebro que os propiciavam. Tais substâncias eram colocadas na alimentação e aguardavam no receptáculo a activação por ordem do Estado de Espírito. O Departamento de Saúde levava muito a sério a sua missão de manter os indivíduos saudáveis e razoavelmente medicados para que a sociedade não albergasse a violência. Mas também não gostavam muito dos Criativos, daqueles que resistiam para além das medidas preventivas de saúde pública, e pretendiam incendiar os semelhantes com ideias libertárias de prazer sem limites e felicidade. Por isso tinham enviado para ali aquela gravação. 

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