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«Esta terra firme de recordações». Amplas avenidas. Volumetria de edifícios de arquitectura agradável, em tons claros de cinzento e amarelo. Desenhada a esquadro. A aparição de um local de outras circunstâncias, um local amplia evocações em roda livre. 

 

Na praia estavam três ou quatro adolescentes, brincavam de vez em quando com a luz do telemóvel, o mar estava calmo, o nocturno com laivos pouco nítidos de rosa ao fundo do porto. As luzes das novas urbanizações. Uma enorme árvore de natal com luzes brancas numa sala, num quinto andar. Ao fundo descortina-se a enorme rede escultura da rotunda. «As recordações são um mau favor ao momento. A nostalgia. Pretendem para o presente aquilo que se viveu. Como se o presente comportasse a possibilidade daquilo acontecer de novo. Uma ratoeira. Uma ilusão mascarada. Uma metáfora sem comparação passível.»

 

Aquela terra firme e lustrosa serve para recordações de entardecer, para devaneios pós laborais, a meia hora sacramental do passado. A meia hora inopinada do presente, em que é possível ir ver o mar numa caminhada sem pressa, a observar o exterior, em que se procura caracterizar o local tão fielmente quanto possível. Meia hora pós laboral no local do laboral. Sem atender ao relógio. O mal estar provocado pela emboscada de uma tarde do passado recente. 

 

O rapaz monta-se na parte de trás exterior da carruagem e segue com a viagem, com ar prazeirento. Estudante tribais entoam canções desconhecidas, batem nas paredes e penetram na cabine de trás, desocupada, em anúncios sem sentido. Dizem obscenidades. O auto termina com o cheiro de sapatilhas descalçadas. 

 

«Vem a limpar os dentes com a língua? Ah! Está a comer uma bolacha de água e sal». Alta, loira, pelos quarenta. Com modos delicados a comer a bolacha. Lábios pintado de vermelho. Vestida de preto. «Não procures o olhar ostensivamente, subrepticamente tenta perceber algum interesse...». Nenhum indicio de que tal interesse em si estivesse a ocorrer, observou dissimuladamente o rosto da desconhecida. Uma desconhecida com o interesse estético conveniente, aquele que funda devaneios. A parte agradável da viagem. «Vai-se sentar no lugar onde eu estava, uma última oportunidade...». Encosta-se à guarnição metálica para enrolar um cigarro e lança um último olhar. Naquele momento pode acontecer uma qualquer coincidência cósmica, ou um equívoco. 


Nada acontece de anormal com o transporte a seguir viagem; Enrola o cigarro com alguma dificuldade, fuma metade dele, toma consciência de que lhe não dá prazer nenhum fumar aquele cigarro e deita-o fora na erva do campo de futebol abandonado. Ao lado, depois de uma ribeira com choupos sem folhas, em cujos troncos florescem eras, estão as instalações de um centro de detenção juvenil, onde em certos dias se percebe que jogam futebol. Visível só o conjunto de edifícios e uma casa apalaçada que parece destoar do conjunto. 

 

Proveitoso todo o périplo fora da rotina, que os eventos se podiam descrever, porque acontecidos em público. Que a parte disponível que aconteceu se pode reproduzir numa crónica dos dias. A crónica exterior e a crónica de uma personagem demasiado colada ao seu criador. 

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