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O primeiro pensamento do dia plasmava-se na tomada de consciência onde se encontrava alojado o seu espírito no termómetro emocional. Enquanto dormia era costume ser mudado de lugar. Acordar com uma disposição diversa daquela que o tinha deixado ao adormecer. As horas de sono que permaneciam no vermelho, em débito permanente, provocando cefaleias. A irritação habitual da água corrente que enchia o autoclismo fez soar o primeiro sinal de alarme. 

 

Desfeito o equívoco sobre o vizinho hipocondríaco, tinha o espírito onde o deixou antes de adormecer. Antes de adormecer cansado por ofício de se exceder na recombinação dos seus átomos, pulverizados por forças estranhas. Todo esse espaço vazio que não é preenchido só por deleites de oficina, altas horas e baixas horas, também por preocupações práticas. Aquele incómodo do autoclismo, ou o ruído provocado pelo elevador. A incerteza certa do movimento das partículas naquele elemento novo. A certeza de que o seu espírito debilitado pela hipersensibilidade se julgava no estado hipocondríaco.

 

Decide não despachar o dia, afastar de si as actividades que não lhe apetecia fazer. Tresmalhado da vida doméstica. Enfiado numa oficina dentro de si, a enformar o destino, a rasgar o véu da vergonha, a reclamar o seu quinhão. Tornara-se hábito contrariar as suas disposições através de jogos em contrário, lutar contra os sentimentos auto-destrutivos, lutar contra o desânimo. Esquecer-se do frio. Das mãos frias que tinham deixado de testemunhar o que faziam numa oficina igual a esta. Noutras oficinas. Noite fora, de madrugada. Ao amanhecer. Com idêntica paixão, com mais dor incontrolada, com muitas perguntas sem resposta. Com menos escudos contra os buracos negros.

 

Esse esplendor vivencial que agora pode evocar é a certeza de que dispõe das ferramentas certas para abordar as peças em bruto que pretende esculpir. Para ele é mais do que tricotar colchas que ficam nas malas, esquecidas. Mesmo sabendo que ao extravasar do seu sentir pode acontecer o mesmo. O contraditório exercido para além do razoável. «São mesmo estes os motivos porque queres fazer isto? Tudo isso não é uma monumental mistificação? Toda a gente mente, para ser feliz, uma mentira aqui, uma atenuante. Aquilo que reclamas saber saberás mesmo, não é só o teu grande ego a tentar propagar-se? Tendência para atenuantes. Agora sou eu que interesso. É sempre? Ou não, depende do Spin.»

 

As oficinas onde deixava indelével a marca dos seus sentimentos, em terapia auto-administrada, de recurso, renascida por acidente. O equilíbrio que os excessos do sentir deformam, a carga em excesso que é absorvida, o restabelecimento da harmonia. O mundo refinado nas obras que nascem. A sua luta contra os desígnios que a espécie tece. «Não jaz morto, nem arrefece»*. São a sua glória e a sua perdição. Que prosseguirá, mesmo que não tenha acólitos. Que os modos como pode curar-se tem vários caminhos já percorridos, para desbravar múltiplas valências ainda por evoluir. O homem da eterna esperança. Do eterno anseio. Salta de um livro em andamento para a poeira dum filme do Oeste realizado em Espanha, exorcizando a queda, a tentar levantar-se com toda a dignidade.

 

Os vários registos em que os seus sentidos tinham sido enfeitiçados permaneciam intactos. A chama arde, numa alojada numa caverna inacessível da sua mente. Sabe que tristeza se escoará pelo ralo dos dias à medida que a observação e a introspecção (A Experiência da Criptoméria), entretanto refinada, lhe dão mais domínio sobre sobre os seus sentimentos, que a sua intuitividade começa a estar sempre certa. Que os poros abertos dos sentidos lhe trarão novos entusiasmos, pueris ou efémeros, profundos ou decepcionantes. Os seres raros para tentar descortinar na imensa babel da mente humana e dos registos em que vivem. Sobe escadas sem dificuldade desde que saiba a quais deve subir. Escadas ou montanhas. 

 

* verso de O Menino da Sua Mãe - Fernando Pessoa

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