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A seco e num amanhecer em tudo igual aos demais, não fora não ter que ir trabalhar num dia em que os outros vão quase todos. A Terra Média não é o Vale Fértil, não existiria como existe se dormisse em vez de me levantar bem mais cedo do que hoje, tantas vezes ainda de noite, com a ânsia de construir, de embelezar.

Como todas as boas armadilhas, muitos desses trabalhos de pedreiro, de agricultor de trazer por casa, de inventor de meia tigela, só trouxeram novos trabalhos, a efectuar periodicamente, que se foram avolumando e tomaram o meu tempo.

Até ter começado a libertar-me de algumas dessas preciosidades. Não queria ficar tão triste ante a perspectiva de abandonar a Terra Média; quem se liberta de algo a que se deixou, em certa medida, escravizar (como o vejo agora), ou apaixonar (como o vivi na altura), é sempre ser traumático despedir dos quadros que construí, das árvores que plantei, dos cantos que embelezei. Daí talvez aquela poesia toda em torno de uma maravilhosa colheita de nêsperas.

A única certeza é de que o empurrão dado me obriga a ir para a frente, a tentar equilibrar-me, para não dar com as fuças no chão. De preferência equilibrar-me o melhor possível, sem me estatelar. Não gosto de quebrar ossos, como ninguém gosta.

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