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Sentia-se desorientado. Levantou-se com céu nublado e uma perspectiva do dia. Acordado por um toque de telefone móvel. O tal que o adormecia com música suave. A banda sonora e uma folha ou duas de um calhamaço de um livro recém começado. Gregos e turcos, ou turcos e gregos, personagens secas e irascíveis, carregando ódios seculares, mortes, vinganças, contas para ajustar. Num clima, como habitualmente, favorável a uma lassidão. Admirava os soldados que se batiam em tais condições no norte de África. Os olhos azuis do actor de Lawrence da Arábia. 

Descobre o sol, por entre as nuvens, entra de jorro na janela, tanta luz no exterior a entrar pelas janelas grandes da sala, o coloca-o em deveres, no exterior. As folhas do castanheiro, cheias de de borbotos dos futuros ouriços. Borbotos que cairão um dia destes. Deixar crescer livremente os bambus, rivalizar com o jardim botânico de Coimbra. Deixar que seja a natureza a compor-se a ela própria. Com pouca intervenção. Só com o olhar, como com as nêsperas. 

Pensa mesmo:  O que faço aqui? O que vais fazer lá para fora? Devia... experimentar a lassidão de contemplar. 

Umas horas a praticar a preguiça-reflexão. As folhas ondulam ao vento, está vento, a luz do sol directo foi-se, volta e vai embora de novo, tapada por nuvens baixas. Where Is My Mind volta ao inicio da Sony, preta; de colunas de madeira. Se o aparelho tivesse memória voltaria a 1991...

- Põe essa cena mais baixo, pá! - Os Pixies ecoavam de modo inconveniente, numa instalação obrigatória, que entretanto se havia tornado refúgio. 

A porra da memória sempre a chamá-li para o passado. Voltou ao presente. São rápidas estas recordações. Foi vestir uma camisola polar. E lembrar-se onde tinha posto as calças de treino, que nunca serviram para nenhum treino, apenas de roupagem de fim de semana. Umas calças confortáveis, em azul escuro. Nada daqueles berrantes de ir ao supermercado ao fim de semana.  

Stormy weather, as folhas do castanheiro ondulam, está de novo uma luz tímida. Um pássaro chilreia. A mancha da Minoterie de Matadi, em serapilheira do Congo. O coelho fugitivo em azulejo. A música deixa de se ouvir. Fim de linha. Recomeço de linha. O comboio inter-regional com destino à beira-alta circula com atraso de uma hora.

- Vais viver para uma caverna? - Vou sim senhor, se lá houver som como deve ser! E vegetais frescos. E outras comodidades. TV não é preciso. Uma ligação ultra-rápida de internet também não, uma cama de paletes, um ferro para pendurar camisas ao ar livre do quarto, o essencial. Espartano.


A caverna é apenas um canto que a noite lhe proporciona. Para ter coragem. Para se sentir mais confortável. Para sentir mais prazer, em escrever a coberto do escuro. Do escuro das roupas diurnas. Ficou com o ónus de escolher a própria roupa e de escolher os quadros que não pendura nas paredes. Nas cortinas inter-municipais que não põe nas janelas. Encontrar a afinação da música para a hora do dia, é difícil. Sempre. 

A vida nas cavernas tem as suas consequências sociais. Sem pretender ser associal. O social próximo e necessário. Recolhe-se no canto, a coligir sem método, toda a informação, para se fazer um julgamento, quando não hão há julgamento, apenas consequências naturais, e artificiais. Induzidas por novos tempos. O sentimento geral é um pouco o de Yossarian, - pensa de novo, pensando mesmo: não sabem porque os querem atingir. E de que maneira vão ser atingidos. 

Ele estava a jogar, jogando-o em cartada final, pronto para as piores consequências. Assim ele espera, enquanto outros esperam ainda nas melhores expectativas. Quem não tem nenhuma ou quem tem direito ao lugar, escusa de imaginar. Prepara-se. Embora pouco tenha sido ainda feito. Está a ser feito em preparação. Nada pode ser feito em antecipação. Está tudo dentro dos prazos. São cálculos de volumes. De migrações. De todos os novos cambiantes do horizonte. 

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Motivação. Aproximação. Informação. Clareza. Estamos ao dispor. Ficou a estar ao dispor. Pensa mais uma vez na casa atrelado. Em parques atrelados. De colegas acampados. Umas sardinhadas de integralismo lusitano. Então não?!!!  - Ele vê esse lado para poder gozar com a situação. Para se lhe poder opor com ironia. Podia ser um serviço público de casas rolantes, para funcionários rolantes. A mobilidade transportada por gruas. Ou montadas em reboques. Serviço de tracção pública em prol da mobilidade. Campos públicos de casas rolantes, finalmente parqueadas, na reforma, no pinhal de Leiria.

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Idílica reforma, finalmente pousado num pinhal público. Com a pacatez para ser finalmente rei do tempo restante. E através do evolucionismo, tenta encontrar a saída airosa, a solução adequada. A atitude certa. Permanecer no canto de luz led é deixar objectos em paz. Não gastar energia eléctrica. Não dar cabo das costas. Naquele coberto ficava bem um maracujazeiro. Abrigado dos ventos do norte, e aquele canto em frente podia ser uma estufa de inverno, para ler numa luxuriante floresta, húmida, verde, triste nos dias de chuva e de nevoeiro. Com o som sempre ligado de colunas escondidas, numa nova tecnologia de escolha de música automática, para estados de espírito. Dub de inspiração. Tinha-se esquecido do dub para as noite de pancadaria, as escolhas voluntárias, de exploração, tornavam-se cada vez mais repetidas, a playlist é um caos, de rasganços, de música de encantar, nem que seja tubarões perna-de-moça. 

Mais uma vez, sem ter feito a dança da chuva, se sentia justificado, por estar enfiado a um canto da sala, sempre a verificar as condições meteorológicas. Com tudo calmo, um carro buzina e vai à janela. Eia! Nada se passa. A pasmaceira podia ser naquele idealizado bungalow low cost no pinhal de Leiria, uma zona franca de servidores públicos, em terminal convivência. A fazer balanços nas cadeiras e na cabeça. O céu na terra dos reformados da mobilidade. 

Sabia da insensatez dos propósitos, sobretudo no que tange à intervenção pública neles. Seria sempre a solução não achada, não humana, que se avizinha. Afinal há tantas casas para ocupar. Ainda que se deixem outras desocupadas. Dá-se a sensação de que algo acontece. Registar tais alternativas. Ter até presunção de que alguém pudesse aderir a elas. De facto. 

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