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«Ele diz: «Não amo mulheres. O amor está por reinventar, sabemo-lo. Às mulheres só interessa conquistar uma posição segura. Uma vez instaladas nela, coração e beleza são postos à margem: só um frio desdém permanece, alimento do casamento de hoje. Ou então vejo mulheres nas quais brilha a estrela da ventura e de eu poderia fazer excelentes camaradas. Estas, são devoradas em primeira mão por brutos sensíveis como fogueiras...»

 

Uma Cerveja no Inferno

Rimbaud, Jean Arthur

Tradução de: Mário de Cesariny

Assírio & Alvim

 

 

Alguém como eu tem que viver com isto. A mistura inevitável da literatura e da vida. Com as  devidas consequências. Creio que cada vez uma e outra já não se distinguem. A minha literatura não provém da mais nada senão da vida, da minha vida. Por isso a confusão não deve ser censurável. 

 

Tenho imenso desgosto por admitir que pensarei  o mesmo que Rimbaud e para minha consolação tenho também a certeza de que isto não é uma verdade universal. Nem todos têm sobre isto os mesmos propósitos de aventura do poeta. Do poeta que Rimbaud foi, do poeta acabo por ser. A categoria não é apenas para quem escreve versos rimados ou desesperados, é para uma maneira mais forte de viver. Mais sentida. Cada um tem os sentires que lhe destinaram. Cada um tem toda a legitimidade para os defender, porque são apenas seus. É com eles que atravessam a vida. 

 

Deste determinismo ninguém escapa. Nem evidentemente, à critica exterior, a qual tem pouco valor porque não muda a forma de sentir de ninguém. Com o tempo, os mais perspicazes aprendem a domar a predilecção. A esconder o que foge da norma. A fugir à censura e à incompreensão. Tudo se pode tornar aparentemente mais suave. Mais rotineiro. A conformação sobrevirá para muitos. Outros permanecem nessa orla da dúvida, num cepticismo racional, permitindo-se a equacionar a consumação do improvável. Quando o improvável acontece sempre.

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