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Faz com que se realize aquilo de que se lamenta não fazer. Correr. Molhar os pés no mar. Improvisar uma concha de água com as mas para aspergir as narinas atormentadas. Observar o reflexo prateado do mar mesmo em frente de si, aquela luz suavizada a diferir a pujança do sol. O número atómico do seu ano de vida. Prateado como aquele mar que o enfeitiça, as ondas a rebentarem a espuma dos seus dias, a consolar os surfistas. O desejo de se banhar ali já.

 

Demasiada multidão, apesar da multidão preencher o quadro, para que não pareça sozinho e desprotegido. O que interessa é o mar e a sua magia, o seu poder, os reflexos de prata que julga destinados a si, um encontro que o bramir das ondas garante ser real, o cheiro a iodo e todas as promessas que o a espuma das ondas lhe podem insuflar. A sua companhia o suficiente para não se sentir só. Um grampo espetado mais acima, rumo à liberdade.

 

Anda por ali muita gente. Olhares interessados em conversas que se desenrolam. Em corpos que não escondem a sua solidão, como o dele, reconfortado pelo encontro com o mar prateado. O telefone está desligado e mesmo que estivesse ligado não receberia nenhuma chamada, ansiedade de aparelhos. Contradição de estados. A cicatriz mostra-se edificada, lavrada sem remissão nos local próprio. Demasiado recente, conformada no meio termo da racionalidade.

 

A multidão de corredores trá-lo definitivamente à realidade, de se conformar que aquela angustia do aparelho desligado lhe tomou a dianteira. Que aquela gente que vai correr para a São Silvestre é diferente dele, não só porque não vai correr, renitente em ter que pagar para o fazer, em percursos e horas não estabelecidos por ele.

 

Ele corre contra si mesmo. Contra o desfalecimento, para preservar a graça dos neurónios, para se expandir na solidão onde tudo capta. Sem dramas, com o desprendimento daquela multidão que se dirige para os Aliados para correr dez quilómetros. Com isto quererá manter-se à parte, no seus desafios pessoais, na esfera das suas sapatilhas sem plano de treino. A ansiedade do fim da viagem, o transporte a abarrotar, ruas fechadas ao trânsito, carros policiais a fazer de zero-zero. A vontade de regressar ao ponto fixo e improvável. As intersecção a azul no mapa. Elevadores.

 

Os reflexos do mar prateado a razão de tanto barulho, um local propício a confrontos com importância. A natureza de novo, o que está no sentido rarefeito dos dias. A tomada desligada do supérfluo, o non-sense da liberdade. Os deveres em ordem. A mania de tentar impressionar, de ser objecto de escultura em si. A pendência das acções, a inutilidade superveniente da lide.

 

Mais um grampo, a conformação daquilo que é, necessariamente fora do rebanho, ultrajado pelos insensíveis. O percurso sinuoso e obscuro. A tenda armada desde sempre no deserto da sua noite. À espera de uma desconhecida, à espera de um homem sábio, providencial, que espera ser ele num amanhecer qualquer, sem melros na geada ou com melros na geada, com elas e eles aninhadas numa costela, desprendido de tudo, sujeito a tudo, agora que a cera secou, que o que sabe ainda não lhe serve para nada.

 

Que se deixe enlouquecer pelos violinos, a desmentir que seja só prosápia. Ténues ligações se estabelecem, ruídos do exterior, sons de vozes. Os dias flamejantes de todas as descobertas, de toda a embriaguez da atracção mútua. Prega mais um grampo no auto-conhecimento, não tem feito outra coisa, prega mais um grampo na aceitação sem revolta, na purificação dos ideais, na respiração com cheiros. Naquilo que pode fazer por ele em vez de andar a fazer pelos outros. Quantos grampos são necessários até chegar ao lugar do homem sábio? Quantos grampos para um aconchego?

 

Se pudesse descontrair-se mais naquela queda que ainda estava a ocorrer, podia apreciar melhor a deslocação. A queda não o vai matar nem dar cabo dos ossos mais do que daria uma mudança de móveis. A queda a libertação do estado anterior. Falta limpar o pó ao gorro improvisado. Estabelecer um perímetro, erguer a tenda, aquecer as rações, actualizar as anotações. Esquecer as agruras do mau feitio, aquecer as mãos na chávena de café, fumar um cigarro devagar. Deste lugar sem nome. Adorar uma Lua fratricida. Mais um trecho conveniente na deserção. A abdicação. O sentido mais profundo por revelar, sem nenhum tipo de pressentimentos, intuição mortificada, um som fátuo de elevador, um automóvel no asfalto, uma premonição, uma torneira que pinga. Um latido do passado.

 

O lugar confortável do medo,onde germina a semente não especificada. O pé posto de qualquer sucesso é uma prévia passagem pelos percurso do erro. O engano da carne? O fulgor da química? As cores quentes do desejo, sempre. É isto que quer festejar, a fluência dos sentidos, a amabilidade das palavras, o gosto pela aventura, a sedução, o inesperado. Elixires e notas quentes ao pequeno almoço. Tardes sonolentas da rede de conhecimento mútuo. Luas-de-mel. 

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