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«Tem sido da tua parte uma má gestão das expectativas. Dedicas-te demasiado à fantasia. A estabelecer cenários, a maturar hipóteses inverossímeis. A antever boas possibilidades, tendo-as como consumadas. O que acontece. O resto é o imenso caudal de suposições sem materialização. Esquece a meritocracia. Esquece a aristocracia, fica entre os teus, aqui podes distinguir-te, auto-distinguir-te, ou extinguir-te, ou ficar estando de partida para o que ainda não aconteceu.»

Dos traços concretos: da gaivota a rapinar o saco do lixo. Do sossego quase absoluto do largo da Lapa. Do contingente de homens que dormem junto à estátua do Pe. Américo, ostensivamente apanhando sol, ou nos bancos do jardim, enrolados, sem mostrar a cara. Da rapariga jovem que fala com uma velhota confusa com alguma dúvida. De um velho revoltado com a sopa e com o preço. -«Onde está toda a gente?» - pergunta-se, distraído de que é hora de almoço de um domingo. Por isso insistem em lhe dizer Bom Dia. 


De vidas que roçam a sua, e se esfumam na multidão, como ele e a dele. Os locais de passagem que envelhecem de recordações. Nada melhor que um solitário na agudez do seu estado, para se ser invadido pela solidão que se espraiava por todo o lado. Nada melhor para um solitário assim querer sair dali para não se deixar contaminar com as emanações daqueles vislumbres. Atravessar praças atrás de praças com aquela sombra pairar sobre si e sobre parte de quem se cruzava na rua. Em se lembrar de novo que aqueles são os quadros (menos coloridos) de Edward Hopper. Desta feita sentia-se parte do quadro, renegando qualquer filiação naquela irmandade. Até onde iria para se esconjurar?

 

- «Com licença, estou de passagem, não quero acabar como vocês...sei lá como vou acabar...»


Os sentimentos mal digeridos. Calcorrear, sem destino, sem um lugar novo onde se esquecesse por momentos de quem era e do que fazia ali. Não sabia o que fazia ali nem sabia quem era, mas tinha que prosseguir, tinha que escolher esta passadeira ou aquela passadeira. O itinerário enfastiante, os passos titubeantes, olhar a perder-se no infinito, vazio. O mais absoluto sem sentido do que fazia sustinha-o numa febre sem temperatura. Aquele estado niilista se repercutir no seu andar, no modo como se orientava, no que se propunha fazer em seguida... 


Um trejeito de fuga, um desamparo menos ostensivo do que aqueles que dormiam nos bancos vermelhos da praça. Pouco do exterior lhe penetrava a couraça daquela preocupação concreta. Daquele incómodo inviolável, que queria ver cessado. Um resposta que obteria sem ser preciso preocupar-se com isso, ainda que naquela altura a frivolidade da sua posse se obstinasse em demandar resposta.

 

AUTO-AJUDA

 

Começa a imergir da encenação do insucesso quando estabeleceu um objectivo a cumprir. Um objectivo exequível. Perdura o dramatismo enquanto a gravidade omnipresente o começa a trazer para o chão firme duma refeição. O jogo que começou  a jogar consigo há muito tempo continua, sem grande afluência. Que as condolências substituam as afluências. Até que esteja arquivado.

 

É-se condenado, sem apelo nem agravo, sem nada para contraditar, perante memoráveis tempos, em que se fez o que nunca tinha sido feito. Servirá de consolo e de desconsolo, de perplexidade, de saudade, de nenhum arrependimento. Nesta Babel que lhe lembra a de Brueghel, o Velho, para dar mais classe ao casario. Onde as pessoas se amontoam, mas não se conhecem.

- Mas não te vais esquecer de nada, pois não? Vais ficar a salivar durante muito tempo? Quem te disse que era aqui que acabava a tua graça? É o modo como viajas que interessa, aprecia na parte disponível. Não esperes que as flores brotem para ti, não desesperes pela vinda de quem não prometeu vir, procura quem queres que venha, não te deixes abater pelo som do elevador.

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