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Sala de Espera

23.12.15

O mundo hospitalar contém-me. Todas as evocações esquecidas, não vertidas. É verdade que sou demasiado frágil, disperso, preciso mais de um anjo da guarda do que de um mordomo, mais de um contabilista do que de um curandeiro. Esse homem sábio sou eu nesse estado, ainda não apareci, não me vou entronizar como homem sábio antes de o ser. Nem pintar o cabelo de azul.

 

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Na rua retomo que existe algo mais que esta entropia. Não me interessa o vosso vozeiral, os vossos assuntos práticos e inadiáveis. O vosso movimento as decorações de natal, vivas. Para suspeitar que sou real. Como real é esta chuva. Para descortinar lugares físicos para a plausibilidade dos movimentos. Para deixar de fungar, elanguescido nesta poética de pacotilha, sexo tântrico noite adentro, salas de espera, cirurgia sem anestesia.

 

Começa numa esplanada à beira da saúde, recomeça neste aquário de sala de espera. A corda mais esticada, os cheiros exauridos. A chuva lá fora sossega a pressão arterial, suave e menos cáustica que as cavernas de som e a caverna real. Uma fogueira sempre acesa. Acordar cedo para ver os melros na geada, no seu bailado de acasalamento. Acordar-me para deixar de fungar. 

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