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Óscarland

04.09.14
Afinal não me esqueci de pegar numa pá e de abrir uma cova. Nem me custou estar desabituado a isso. Gostei mais quando abri covas para plantar as árvores todas que já dão frutos. A excepção da alfarrobeira. Ainda bem que mantenho tal capacidade, pois permitiu-me pessoalmente e porque amanhã não posso, abrir uma cova para enterrar o Óscar. 
 
O Óscar veio bastante pequeno, ainda só bebia leite. Foi o primeiro a fixar aqui residência. Esteve sempre cá. Viu tudo o que fiz, é a maior testemunha do trabalho quase escravo que dediquei à Terra Média, a qual se passará a chamar Óscarland, embora não a tenha percorrido sempre toda, pois nunca pude vedá-la o suficiente para isso. Veio para o João ter um cão porque o desejava. Acabou por seu o cão com orelha espetadas que sempre quiz ter. Nunca sonhei que iria ter um amigo, que choro antecipademente, e qual quero poupar o sofrimento, dele e nosso. Tivesse eu quem fizesse o mesmo por mim em idênticas circunstâncias.

 

Correu alegremente centenas de quilómetros comigo, e só ele viu todos os amanheceres e entardeceres que vislumbrei por essa natureza fora. Fugiu algumas vezes quando era mais novo, ficou preso num local, onde o descobri a correr por mero acaso. E se fiz vedações era porque queria as flores e o cão.

 

Foi com ele que dobrei o cabo do medo e percebi podia correr o que quisese, até cair se fosse necessário, pois nunca estaria só.

 

No auge da comoção de abri uma cova para o enterrar. Porra!!! Também não estava à espera e quando assim é, custa muito mais. O facto de morrer quando me preparo para abandonar este local, com uma mágoa grande: ele ficar na posse de quem fica. O Banco nunca entenderá que escrevi o nome numa grande pedra de granito, que serviu outrora para uma parreira, ao lado de um poço onde uma burra andava aos círculos para tirar a água que fecundava estes campos. A merda que existe na cabeça dessa gente é que não serve para o fecundar. Nem para estrume servem. Jamais poderão entender a minha dor, de ter perdido um dos meus melhores amigos, e de ser nesta fase.

 

Que seja, a cova que está aberta, o osso que achei no rio e trouxe para colocar na casa de madeira dele, porque ele também tinha uma casa de madeira pintada da mesma cor desta, e está atado a essa coluna onde consta o nome dele e de que terra falamos. Podem vir arrasar tudo. Podem remover as pedras e os ossos dele, mas ele é dono disto. Acabo de doar a minha parte, a do meu imenso esforço e a parte que coube para a trabalhar, não foi sequer para me gozar dela convenientemente, ao Óscar. 

 

 

Jamais reconhecerei isto como sendo deles. Não lhes serve nada disto. A mim também deixou de me servir. Gostava que o sonho pudesse prosseguir, agora que este actor se vai retirar, ou se quer retirar. A manha deles é imensa e é apenas dum sonho de alguém que eu sentiria resgatado. Desde que o Banco saia daqui, fico quite. 
 
Ando aqui feito escritor à procura da bondade original. A bondade original foi a natureza me ter proporcionado o privilégio de ter como amigo um ser assim bondoso e brincalhão, puro. Apetece-me dizer asneiras. Se nenhum ser humano houvesse neste mundo que precisasse de mim, podia dar a minha vida para ele continuar a correr e a divertir-se, porque é uma semente mais desejável que eu para a criação. 

 

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O Cão, deitado no divã, ocupara a sua cama e naquela noite em que a perspectiva de ter sido atingido irremediavelmente por aquela doença manhosa e subreptícia. Aquela maldita picada de insecto quase que o derrotava de forma infame. As feridas que nasceram de dentro começam a dar-lhe menos coceiras e toma obedientemente os medicamentos, enrolados em fiambre, com alguém a segurar o pescoço, para os comprimidos não caírem ao chão. Gosta de fiambre, não de comprimidos, se bem que poderá associar a tomada do fiambre com um alívio das tormentas que o afligem, das quais só conhecia aquelas feridas que o paralisavam e faziam andar a enfiar o nariz, para se coçar, nas pessoas. Pensaram que pedia festas.
 


Óscar (a fazer planos para o futuro)
 
 

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