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Ainda não descobriu nem quando nem se virá. Não há um dia agendado para isso. Ele convenceu-se de que viria e desde então estava à sua espera, emboscado, vigilante. Quantos Falsos Alarmes soaram desde então. Foram todos falsos alarmes. O hábito dos falsos alarmes consecutivos firmou a ideia de que seriam então todos falsos. A prontidão que pensava dispor era mantida com esse motivo. Falsos ou verdadeiros, estava no contrato que teria que acudir a todos. Sendo assim, será então preferível que os dê a todos como falsos, comparecendo de boa vontade por os saber Falsos e apenas requererem prontidão entre o alarme e o acudir ao mesmo. Um Alarme a sério daria muito mais canseira a resolver.

Em determinada altura um pressuposto Falso, do Alarme ser Falso, trará um verdadeiro. Quando isso acontecer certamente não terá tempo para se lembrar que acabara de deixar de ser Falso o Alarme. Será evidentemente demasiado tarde para acções de fuga. Também está no contrato a assistência a Alarmes Verdadeiros, embora nada garanta que possam ocorrer


Podia até ser bem possível que, instalado no conforto da certeza da Falsidade desses Alarmes (Falsos) se habitue a que seja essa a natureza do seu ofício. Nada garante com absoluta certeza de que ocorrerá algum Alarme Verdadeiro. Supor que sim foi um acrescento clandestino. Permanece o conforto do contrato, assistir a todos os alarmes com prontidão. Assim é avaliado o seu desempenho. Não a resposta de facto a um Alarme Verdadeiro.


A vontade de um Verdadeiro Alarme. Ou capricho. Criou no espírito a ideia de que a verdadeira avaliação seria durante a assistência a um Verdadeiro Alarme. Criou até na ideia que tal ocorrência o poderia fazer-se sentir realizado nesse ofício. Não estava nos seus propósitos desistir só por esse motivo. Esquecer-se da possibilidade seria o desejável. Era outro dos seus trabalhos interiores, que o contrato não previa remunerar. 

 

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A moderna música electrónica não me interessa. Todas essas variantes de trance, de psi-trance e de não sei quê mais, apesar de lhe ter dado em dada altura algum crédito, na época em que fartava de correr, sempre com música nos ouvidos. 

No entanto, mantenho com um festival desse tipo de música, que se realiza em Idanha-a-Nova, durante muitos dias. Toda a minha expectativa seria sempre para me inspirar profundamente, não com algum banho de multidão, mas aquela multidão, cheia de estrangeirada. Tenho curiosidade relativamente a todos esses que possam assim ser designados. É um festival para se estar. Boom Festival

Duas semanas por ali certamente que evoluiriam depressa demais, não me iria sentir prisioneiro, conforme penso que sentiria, apesar de tudo. O regresso à realidade seria sempre muito doloroso.  Uma vez que não tenho possibilidade de viajar e encontrar todos esses estrangeiros, vou ali vê-los. Os artistas que se divirtam e divirtam o público. 

Estaria algures a tentar captar toda aquela gente, a ver se são mesmo estrangeiros, como os designamos, ou o que são, o que comem, que línguas falam.

Num ambiente assim há sempre uma maior descontracção. A tal que pode propiciar todo o tipo de histórias, contadas ou subentendidas. Eu iria sempre nesta missão não secreta, decerto levaria uns cadernos, e não os usaria às escondidas. Um laboratório social, favorável porque somos transplantados para o meio de uma experiência social, num contexto fora da nossa rotina. 

Há certamente, entre toda aquela gente, gente cuja vida é bem diversa das vida das nove às cinco (seis). No meio deles há certamente alguns que poderia ainda observar mais de perto, não receando qualquer contágio, apenas não invadir a privacidade dos seres. 

De qualquer modo tenho uma boa justificação: No tickets at the gate. Não continuam a publicitar um festival que já está esgotado... embora servido por magníficos meios de transporte...

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Soprava uma brisa, que enfunava as folhas da figueira abandonada à sua sorte; ouviam-se crianças a brincar ali por perto, grito de prazer; a aldeia estava aparentemente sem ninguém, mas de onde viera e para onde ia existiam pessoas, embora naquele momento quase que só serviam, com a brisa, para se sentir como no livro e pensar mesmo nestes termos que estava ali o paraíso. Até um pequeno cão pareceu aliviado por o ver quando lhe apareceu à frente. 

O paraíso assim pode estar em qualquer lado, os gritos de prazer das crianças vão continuar a ecoar (cada vez menos), a brisa está por todo o lado e circula livremente por aí. Figueiras e pessegueiros também ainda não faltam, nem cães que fiquem aliviados por nos verem. O paraíso pode ser em qualquer lado. O paraíso é uma a brisa, não tem poiso certo, circula livremente.

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Espreguiça-se, boceja, cospe para o chão. Esfrega as mãos pelo cabelo. Lança baforadas de ar pela boca fora. Ciranda. Abre cortinas e olha lá para fora, como se alguma evidência pudesse dali surgir. Estava com pressa para não ir fazer nada, pois nada lhe apetecia fazer, para além de bocejar, de passar a língua pelos dentes afectados pelo açúcar. As folhas do castanheiro ondulam, com os ouriços jovens, verde claro. Telhados avistados. Pássaros a esvoaçar na erva cortada para impedir outra de nascer. 

O tédio atacava de novo? Naquela manhã de novo nevoenta. Chovia quando acordou, chuva mansa. Não conseguia ficar na cama para além do horário habitual. Tinha aquele nada para ir fazer. Nada de útil. Tinha-se demitido dessa mordomia a si próprio. Não era pago convenientemente. Além disso um mordomo não passa a ferro. 

Depois de terminadas todas as conferências com as pedras, olhava-as com a indiferença. Todas aquelas colagens permaneciam ainda por ali, no limbo milenar do mutismo. Não foram dispensadas, não voltarão ao leito dos rios de onde vieram. Transformadas em aspirantes a qualquer coisa, dependentes dos olhos que os observam. 

Um quarto qualquer com vista para o mar ou para o vulcão seria melhor? Numa casa típica da Madeira ou da Gronelândia. Neste mar onde não acostam navios com esperança, raros e decrépitos barcos de pesca. Carregam com dificuldade a ferrugem e o salitre dos mares já sulcados, com todas as memórias a atrapalhar.  Embora seja preciso desmantelar todos os sonhos iniciados. Deitar fora toda a carga inútil a fim do navio poder flutuar. Esquecer todas as cartas de marear já percorridas, esperar que as que existem não sejam atalhos em alto mar. 

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Contos de Fadas

02.08.14
« Da porta, Sifakas via o trovador subir a encosta, patinhando a neve. Trassaki segurava na mão do avô e seguia também com a vista o estranho visitante. Quando, por fim, Kriaras desapareceu, o velho voltou-se para o neto.- Compreendeste? - perguntou. -Jesus, Creta, o anel de noivado...- Não gosto de contos de fadas - replicou o rapaz. - Já sou muito crescido para isso.- Gostarás quando fores ainda mais crescido - murmurou o avô. E calou-se.»

Liberdade ou Morte
Nikos Kazantzakis
Colecção Não Nobel
Autores premiados pelo Tempo 
Jornal O Público

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Por todos os mamutes domesticados, empanturrados de comida em tempo recorde, que jazem, protegidos por uma fina película de plástico, nos escaparates. E por todas aquelas prateleiras a abarrotar de açúcar e de gordura. Nada como a pureza de uma maçã para representar o conhecimento. Com todo aquele conhecimento, podia escolher. Podia estar a escrever bíblias de enumerações de todos os produtos desnecessários, que alegadamente necessitam de ser consumidos, para garantir que muitos possam também consumir, durante a cadeia, sempre em prejuízo do quem mais trabalho teve. Não tinha que lá ir. A solução bicarbonato de sódio. Não tinha que inalar o fumo para escrever mais uns parágrafos.

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Para quem acaba de descobrir como o homem descobriu a arte. Um filme de animação de cinco minutos. Para quem acaba de descobrir como Aleksa Gajic ilustra, desenho estático a desenho estático, até ser desenho animado, num funil apertado de tempo. Eu já suspeitava que se aproveita de todas as tragédias individuais. Das borboletas da infelicidade (lanças que não alcançam a presa). Reclamava por pão (um lombo de mamute). Tragédias do mais comum, do mais ordinário que continua a haver, em tragédia, em comédia, depende sempre do sentido do humor do resenhado.


Nem todos os afectados por esta tragédia se encarniçam a retratar o mamute, que está demasiado longe para lhe conseguir-mos acertar com a lança, a dar-lhes uma vida nova, a partir dos desenhos. Não haveria já paredes para pintar, em grutas. Não haveria homens para as pintar se as setas não começassem a atingir as presas. Permanece tudo, sobretudo as tragédias que podem dar lugar a artistas.

Os artistas sempre os vi genericamente como uns tesos. Se bem que nem todos os tesos dão em artistas. Fiquei muito surpreendido pela herança que Mário de Cesariny deixou a uma instituição. Um milhão de euros. É uma pipa de massa para um poeta. Resta apurar em que circunstâncias isso possa ter acontecido. 

Mudou a decoração, passamos de cavernas para casas, os ingredientes da tragédia vieram connosco. Os ingredientes somos nós, a luta pela sobrevivência. Já não saímos de lança na mão, saímos de pasta e gravata, tendo como objectivo as garantir pão para a boca.

Tornamos-nos muito mais ambiciosos. Para além do pão pretendemos caçar todos os animais, numa ambição desmedida. Conforme todos os artistas foram construindo belos artefactos, massificados. Não é só deitar o dente a um lombo de mamute que nos anima. São os dentes como troféus de caça, vaidade, ganância, exposição. Tínhamos mesmo que inventar a arte.  

 Como o Homem descobriu a arte - Bitaites

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Foto: Raja Nurshahidayu

Autor: Desconhecido

Distraído como sou, só hoje verifiquei que a fotografia da máquina fotográfica tinha desaparecido do fundo do blogue. Privado das fotos ilustrativas que pude aqui colocar, tenho alguma relutância em utilizar as fotos dos outros. Faço por identificar o autor e de onde retirada. Sem abusar do trabalho alheio. Gosto o suficiente de fotografia para respeitar uma boa foto. Pode demorar muito tempo, para além de outras exigências ao fotógrafo. O tempo que gastamos a olhar para ela e a apreciá-la é sempre inferior ao tempo despendido pelo fotografo, a tirar a fotografia e a partilhá-la. A indicação do Marco Santos, 6 sítios com fotos de qualidade gratuitas, tenho andado a observar o material que lá existe. São fotos que podemos descarregar livremente. Sempre referindo o autor, com os devidos créditos.

Para além de boas fotos, encontrei bons conselhos...

Pixabay - Imagens Grátis.


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Os criminosos a sério nunca se gabam disso. Jamais pretenderão ser condenados. Um criminoso pode levar a mal que lhe chamem isso. Ainda que quem assim o vitupera, esteja convicto que isso define o ser humano a quem catalogam assim.

Ninguém está livre de o ser, tropeçar num crime leve e obscuro. Arraia miúda sem história criminal. Banalidades. Leviandades. Reincidências. Sem direito a umas linhas nas notícias.

Os criminosos a sério causam alarme social. Assustam velhinhas que se benzem. Em vão. Não está prevista nenhuma extinção. Desde os reincidentes aos primários, movidos por instintos que merecem atenuantes, ou não. 

Para estes arranjou-se uma moldura penal e um conceito onde podem ficar classificados. Até se extinguirem os registos. Até que o sofrimento e a tragédia causada sejam esquecidas. Até que cumpram as penas.

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O planeta roda incessantemente sobre si próprio e em volta do sol, todos todos os seres gravitam em torno de outros seres, em sóis de diferente magnetismo, atraídos por quimeras, fugindo ao esquecimento, alguns tentam rodopiar ao som da música, outros rodopiam ao sabor dos venenos que se misturam e lhes tapam os limites estabelecidos, por leis escritas por homens tão falíveis quanto os outros. Há poucos dançarinos a conseguir dançar ao som da profundidade natural deste movimento. Eleitos ou clarividentes. 

Todas essas leis não inventadas, são as que quero respeitar no futuro. As outras respeito-as apenas na medida em que aprecio mais o sossego. Temo-as ainda, por não ter ainda toda a certeza de que sou capaz de me desenvencilhar com as outras. Vencer as resistências de todas proposições falsas que me levaram por onde verifiquei serem becos sem saída.

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