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barba

01.09.14
Cofiar a barba deixou de ser um acto de literatura ou de alguém conhecido, para entrar no círculo da minha posse. Uma posse que se esvai quando a barba é cortada, embora permaneça sempre a lembrança dessa experiência, mesmo que a posse, isto é, poder dispor a seu bel prazer, tenha desaparecido com o corte dos pelos. Mesmo que se imite o gesto nunca a sensação lá estará, ou que se recorde com precisão toda a experiência, nunca será a mesma coisa que a experiência. 

 

Servirá a lembrança viva para alguma coisa, quando se deseja cofiar a barba, porque sim, e não existe barba para cofiar? 

 

e não existe barba para cofiar?

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Para Fanecas Eustáquio, a arte de bem viver tinha no expediente de saber aproveitar uma das suas mais altas criações. No geral e para todas as circunstâncias. Se ia a um local distante e tinha que resolver dois assuntos, não ia duas vezes, tentava ir uma vez e resolver os dois, de preferência satisfatoriamente. Ou três, os que requeressem a sua resolução. Os que fosse possível resolver. 

 

Assim procedia no aproveitamento dos lixos domésticos, aproveitando o orgânico do lixo para compostagem. A arte da vida numa vida enfeitada e rotinada para encaixar em princípios de equilíbrio. Se tinha um ramo de flores para entregar a alguém que não estava, não o ia deitar fora, valia o sorriso de outra pessoa. Fanecas gostava de ser magnânimo. Era capaz de ceder um pouco do seu conforto para compensar algumas das trapalhadas que fizera na vida. Não sendo as decisões que contam, terá sido a maneira como as terá executado, que foi atabalhoada e aumentou a extensão dos danos. Tomara resoluções firmes quando já era esperado que não o fizesse, embora o horizonte dessa decisão tivesse pairado desde sempre. O Fantasma que atormentava Antígona. A quem atribuía toda a culpa dos seus dessa decisão. Uma Antígona de empréstimo, para dar respeito à personagem e lhe conferir a aura de importância que passa a desempenhar, merecidamente, nesta história.

 

Na procura do caminho desconhecido para a felicidade, ou para a perdição, Fanecas procurava as leis não reveladas dessa arte de viver, como o caminho para ela. Maximizar o proveito. Proveitos não materiais. Na sua ânsia de descobrir traía-lhe as previsões. Esqueceu-se que os sarilhos, as confusões, os imbróglios, também se juntariam por defeito de para lhe travarem a paz de espírito. Agora tinha-os todos ao mesmo tempo a pedir aquilo que julgam ser o seu quinhão.  Agora tinha diante de si, não uma amador do proveito, como ele, mas um verdadeiro profissional, de linhagem, para lhe cobrar um Sonho que lhe havia cedido. Aquele mundo que Deus tinha inventado para se divertir estava ali a pedir-lhe contas. 

 

Foi quando se viu assim num imbróglio que conheceu o outro lado dos resultados desta proposição do aproveitamento. A sua vida imitava a literatura? De repente era a sua vida que podia inspirar  uma opereta, com todas as contradições que se apresentam aos homens e mulheres. Com todas as teias de fatalismos de pessoas cientes dos seus propósitos. Pessoas capazes, no entender dele, de passar fome para manter algo que considerem precioso. Afinal ele era mais desprendido mesmo do que julgava. Da fome desprender-se-ia sem dificuldade. No entanto, não podia naquela opereta, deixar que o papel fosse o de ficar recordado como o estroina, o bronco, ou como alguém que fora magnânimo com aquilo que não tinha ganho com o seu esforço. Antígona culpava o Fantasma de lhe arruinar o Sonho.

 

Fanecas não insensível ao ponto de não reconhecer que a forma como executava as suas decisões causava grandes desgostos aos outros. Querer ser magnânimo seria a forma encontrada por ele de demonstrar o verdadeiro desejo de paz, de resolver tudo. De ficar quite a quem tinha reconhecido causar mal. Mas isto é uma opereta e fazê-lo ia ter o efeito contrário em outras pessoas a quem tinha igualmente causado desgosto no passado. Contradições entre o que sentia e pensava, insanáveis. 

 

Não existe a possibilidade de alterar o modo como as outras personagens sentem os desgosto que lhe provocou. Nem a leitura que fazem dos seus comportamentos. Ele é apenas uma personagem. Apenas o Autor tem possibilidade de o fazer. Esse nunca fala com ninguém e pedir-lhe uma alteração de uma linha no guião não é provável. 

 

Antígona vê a janela de oportunidade de causar dano ao fantasma. Numa luta tão feroz quanto subtil. Ataca de surpresa, usa de prerrogativas conseguidas pela aliança com o Vencedor. Aquele que vence sempre, por isso tem esse nome. Ao mesmo tempo aproveita e atinge Fanecas arrebatando-lhe o Sonho, quando ele o mostrava para o tentar passar a alguém capaz de o sonhar. Ele que oferecera de boa fé o que tinha em prol dele, e agora via a amabilidade transformada em golpe de teatro, a personagem atingida pelo desgosto tentava voltar, reclamando o que não era dela, ou cobrando a afronta. O seu aparecimento súbito faz parte da trama genial do espectáculo que é a vida. O actor convocado para suprir a falta, o Porteiro, ou o Ponto, não sabem o guião, como habitualmente, sabelo-ia o Actor se fosse a participar deste espectáculo hoje. A sua contribuição para a trama será sempre condicionada pela suas próprias limitações de não-actor. 

 

Aquilo que parecia ser um acto simples de desprendimento e de mudança do curso da vida, assumia os tais contornos complicados que dão profundidade a esta narrativa. Eleva-se à categoria de ópera pela intensidade dos sentimentos primordiais que convoca, mistura o material e o intangível. E tem o ritmo dramático certo para que as personagens sintam a gravidade do momento. Nem que seja por respeito ao Fantasma, não aqueles que guiam noite fora Fanecas na procura de uma solução para o bem de todos e adormecer na angustia do insucesso, mas um Fantasma que só existe nos relatos indirectos de Antígona, no qual Fanecas não crê, embora leve muito a sério que ela acredite.

 

Poder ressarcir os ofendidos podia ser um acto de libertação, se o poder para isso residisse na sua vontade. Fanecas temia que o seu comportamento futuro, no papel que desempenhava, fizesse dele cada vez mais o tipo que mantém o interesse em alta, que provoca terramotos com as decisões. Quando nunca tinha pedido tal poder. O Ponto fora repescado à última da hora para desempenhar este papel, ainda estava atónito pelo rumo do guião. Não augurava bom futuro àquela personagem, no sentido de acabar redimido do sofrimento causado devido à sua inabilidade para se adaptar ao mundo, nomeadamente este da ópera. 

 

Ele quando muito gostaria de ser o Ponto ou de fazer limpezas. Ver-se assim cooptado de surpresa para tão altas performances. Ter que enfrentar o poder renovado de Antígona, que reclamava compensação pelos danos sofridos, conivente com o Vencedor, o impávido de serviço. Aquele que não altera a beática atitude de descontracção, sereno assistente a toda a trama, porque sabe que qualquer que seja a sorte do personagens, fica sempre sempre a lucrar. É por haver assim personagens nas óperas e indivíduos, na vida real, que alguns florescem tanto e há tanto tempo. 

 

Fanecas sentia-se duplamente penalizado. Por pertencer aos que iriam sempre perder e ter a consciência amarga disso. E por saber que naquela conjura o Vencedor iria por trair igualmente o sonho dela, depois de darem cabo do Sonho de Fanecas. Desconhecia neste ponto do enredo todas as motivações de AntígonaAs que estavam para além das  que eram notórias e não precisavam de ser anunciadas. Daquelas que nem ela teria consciência de animarem os seus firme propósitos. Sendo uma situação com várias incógnitas, chegava a temer que o Autor lhe destinasse um acto tresloucado, para conferir emotividade à narrativa. 

 

Fanecas podia ficar refém da motivação de lavar a sua honra. Embora não fosse muito dado a dar importância a alguns chavões, o facto de se sentir atacado de surpresa e do inimigo ganhar vantagem por ora levava-o a defender-se como podia, esperando que Antígona não quisesse com aquilo que considerava lavar a sua honra, despoletar nele um desejo insensato  de deixar aquela vida de arrumador de pessoas atrasadas para figurar entre os homens ridículos que se desgraçam com atitudes imprensadas, em que deitam tudo a perder, vítima da capacidade que o mal tem para animar as pessoas para si de maneira inopinada. Temia pela sua capacidade de resistir. De não ser capaz de manter-se na órbita da racionalidade e da auto-preservação. Já que não capaz de levar por diante nenhuma filosofia de vida, prática, que o conduzisse a uma existência pacata de coleccionador de cicatrizes. Conformava-se, cansado já desta trama, nesse destino de velho cão briguento que lambe as feridas, no descanso de ter abandonado as aventuras em que se metia, passado o tempo em que as energias desordenadas o tinham como presente em todas as batalhas, valessem ou não a pena. Precisará este cão de ter memórias para se distrair, enquanto lambe as feridas. 

 

Neste ponto, em que todos os cenários estão lançados, Fanecas permanece ainda assim confiante de que escapará a um desfecho dramático. Que não tem o poder de remir um mal sem desencadear outra sorte de acontecimentos, de indefiníveis contornos, a perpetuar danos irreparáveis com a sua conduta. Sente-se no meio de uma luta que não convocou, para a qual não se preparou. Os seus sentidos estão apurados agora, uma vez que as ameaças são ameaças reais, daquelas que provocam sensações indesejáveis nas tripas (ou arrepios de frio violentíssimos), e não quer fornecer ao mundo o espectáculo da sua idiotia. O facto de sentir aquele ataque como traiçoeiro, pica-lhe o orgulho que ainda sente. Um orgulho que lhe parece legitimado pelo esforço árduo de enriquecer aquele Sonho que é última réstia de verdade que existe nele. Terá que impedir que façam do seu Sonho uma arma.

 

Querer à viva força um Sonho, na sua essência, legítimo e verdadeiro, para o transformar num pesadelo era, ainda assim, coisa que os fracos recursos de que Fanecas podia empregar, tentava utilizar para impedir, custando-lhe não a honra, mas mais dissabores mais prosaicos. Fanecas convocara a sorte. Tentara ainda passar o testemunho do Sonho para alguém o sonhar como ele desejaria ter sonhado. E ao mesmo tempo livrar-se de vez dessa tirania do pesadelo que agora se avizinhava. Pudesse ele não ter medo de pesadelos. Quem tem medo de Antígona?

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Os dias na Terra Média decorrem sob um sol envergonhado. Não há nenhuma azáfama, pois os objectos vão sendo encaminhados de lá para fora segundo um critério de necessidade. Devem ser por isso os últimos a colocar num hipotético local de destino, os que agora saem. Hipotético uso de alguns deles não está previsto. 

 

Decorre paralelamente, sem qualquer apoio dos fundos Europeus, uma experiência que consiste para o Agriscritor em se privar do uso de todo os objectos que não julgue essenciais à sobrevivência, mantendo um padrão mínimo, é certo, de objectos. Não se trata de nenhuma experiência zero, do tipo final, como um sem abrigo. Por ora, as experiências de Orwell e outros contos são o suficiente para saber que não deseja tal experiência, nem mesmo como experiência. Seria exequível requerer um ano sabático. Seria para isso mesmo, visto não dispor de outros rendimentos. 

 

É uma experiência séria. As suas conclusões podem dispensar o esquecimento ao que está arrumado para trás. A experiência determinou mesmo que desta vez nem haverá inventário por caixa de papelão. Das essenciais para as dispensáveis. O trânsito é suave para que tudo possa ser então esquecido. A vontade de esquecer os actos preparatórios, em si  é enorme. Pode ser confundida no Agriscritor como sendo ansiedade. Quer chegar ao ponto do essencial e assim experimentar mesmo não o valor em si dos propósitos, mas a maneira como reagirá, um ser humano em concreto, a isso. As teorias precisam do corpo dele para provarem a sua eficácia individual.  

 

Tais pertences não são nem aqui nem serão noutro local, necessários. Aqui já não são aqui necessários e o espaço que libertaram gradualmente começaram a dar-lhe um prazer que não havia previsto, como se confrontado com a simplicidade e o espaço livre que enchia cada parede, ditasse já a certeza de que ali não fazem falta tais objectos. Tal percepção não fora prevista no início da experiência. Uma adaptação caseira das teorias de Albert Cossery, muito a propósito, o apelidado Voltaire do Nilo a inspirar uma experiência com pretensões sociológicas, embora a única sociedade abrangida pelo estudo fosse a própria pessoa que a realizava. 

 

Contenção de custos é também uma maneira de desprendimento. Desprendimento inspirado na teoria por Cossery, na prática pelas circunstâncias. As tais que também concorreram para que aproveitasse circunstâncias adversas, para lhes procurar encontrar um sentido útil, até uma descoberta acidental, uma janela para outro patamar. Uma lição. Para evitar repetições? Ou dar curso a outras. O Agriscritor também se apercebia que ao despedir-se assim, é porque tinha confiança que as conclusões  que a experiência irá ditar para a acta, serão próximas das que formulou, em segredos de polichinelo.

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A única pureza original a que pude, no meio disto tudo, deitar o dente, literalmente, foi a um cachorro quente de salsicha comum. Nada obsta que tal cachorro me tenha saciado a fome e o gosto. Nem nada obsta que a tal pureza exclua cachorros do menu, nas letrinhas miudinhas de seguros, da bula. Afinal a recordação daquelas panelas de ferro, da chanfana cozinhada com calor de lenha sossegou-me quanto à parte material que é conveniente. A parte da fome é inevitável, o gosto da combinação e as reminiscências em que comia cachorros ao fim da noite, que o dia começa quando acordar daqui a bocado. Estes cachorros quentes de salsicha comum não me parecem já materiais, evocar a satisfação com os comi e tê-la podido ter, é o bastante para me ter aproximado de uma qualquer pureza original. Comendo cachorros quentes nada extraordinários. Enquanto me leio informação sobre Rafeiros Alentejanos. Apenas considerações sobre cursos para cães perigosos me fez quase resvalar para o demoníaco. Um rafeiro Alentejano dorme de dia e de noite vela pela guarda do seu espaço. Ainda bem que estão despertos de noite. Boa companhia para colóquios, um olhar tranquilo, confiante. 

 

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Ainda não descobriu nem quando nem se virá. Não há um dia agendado para isso. Ele convenceu-se de que viria e desde então estava à sua espera, emboscado, vigilante. Quantos Falsos Alarmes soaram desde então. Foram todos falsos alarmes. O hábito dos falsos alarmes consecutivos firmou a ideia de que seriam então todos falsos. A prontidão que pensava dispor era mantida com esse motivo. Falsos ou verdadeiros, estava no contrato que teria que acudir a todos. Sendo assim, será então preferível que os dê a todos como falsos, comparecendo de boa vontade por os saber Falsos e apenas requererem prontidão entre o alarme e o acudir ao mesmo. Um Alarme a sério daria muito mais canseira a resolver.

Em determinada altura um pressuposto Falso, do Alarme ser Falso, trará um verdadeiro. Quando isso acontecer certamente não terá tempo para se lembrar que acabara de deixar de ser Falso o Alarme. Será evidentemente demasiado tarde para acções de fuga. Também está no contrato a assistência a Alarmes Verdadeiros, embora nada garanta que possam ocorrer


Podia até ser bem possível que, instalado no conforto da certeza da Falsidade desses Alarmes (Falsos) se habitue a que seja essa a natureza do seu ofício. Nada garante com absoluta certeza de que ocorrerá algum Alarme Verdadeiro. Supor que sim foi um acrescento clandestino. Permanece o conforto do contrato, assistir a todos os alarmes com prontidão. Assim é avaliado o seu desempenho. Não a resposta de facto a um Alarme Verdadeiro.


A vontade de um Verdadeiro Alarme. Ou capricho. Criou no espírito a ideia de que a verdadeira avaliação seria durante a assistência a um Verdadeiro Alarme. Criou até na ideia que tal ocorrência o poderia fazer-se sentir realizado nesse ofício. Não estava nos seus propósitos desistir só por esse motivo. Esquecer-se da possibilidade seria o desejável. Era outro dos seus trabalhos interiores, que o contrato não previa remunerar. 

 

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Fui impaciente e tentei ir a todos os lados, segui os meus impulsos, sem mapa para me guiar, guiaram-me eles. Sobrevivi a batalhas que no final me pareceram poder ter sido torneadas. Onde ia aprender a arte da guerra senão praticando? As batalhas não acabaram, há sempre uma colina que é imperioso tomar de assalto. Estou mais perdido por não saber mais onde procurar? Estou perdido por deixar de me encarniçar nos vislumbres, que regressam sempre. Regressam nada. Nunca daqui saíram. De vislumbres e de imaginação traída pela falta de maturidade? Tenho sempre tanto que fazer. Continuarei impaciente sob a capa da resignação finalizada. Caminhei com a multidão tempo demais, embora explorasse o erro e persistisse nele, sendo que o erro é a sabedoria quando assim ajo. Se me guio de modo diferente eles não podem dar conselhos úteis. A miragem das escarpas. Tudo o que não consegui imaginar, apesar de todas as minhas diligências. Não me julgo patético por lavar bem tudo pela última vez. Não me chamo patético, chamo-me ...

 

Nem sequer sou esquisito ou excêntrico, confundo-me perfeitamente nas grandes multidões para ouvir o que os indivíduos dizem. Os sons que ressoam dos amplificadores é quase sempre o mesmo discurso e as mesmas canções. De tantas escaramuças em que sobrevivi, aprendi não a calar a revolta, mas em contar carneiros. Nada daquilo com que me tenho revoltado sofreu qualquer beliscão. Prefiro não pegar, permanecer oculto e concentrar-me nos intervalos das gotas da chuva. Encontrar nisso tudo o que preciso para alimentar este novo monstro. Nunca me conseguirei livrar de uns quantos monstros, nem de temores, nem de sensaborias. O que ontem era sensaboria hoje pode ser emoção.  As emoções deflectiram, em lume brando de todas as decisões, não só anunciadas, como as necessárias. De enfrentar pó e o desvario de coleccionar objectos de toda a espécie. Assim todos juntos são o tribunal de júri de todos os erros, embora sejam eles os acusados, por omissão. Terão brilhado de propósito para os meus olhos? Florestas de pedra acantonadas. Caixotes de invenções por realizar. Lixo temporariamente em minha posse. Foi daquilo que andei à procura? Ou andei a esconder-me atrás daquilo tudo?  

 

Todos aqueles papeis amarelecidos, fora de prazo, de actos sem importância. Declarações prescritas. Minudências, planos ainda mais onerados. Para uma prisão doirada? De que fugi ao enterrar-me com a pá que trouxe comigo, cheio de boa fé. Falta-me a bonomia do proprietário. Sempre lutei com uma certa espécie de pobreza, nisso sou tão parecido com todos. Tendo-me julgado livre da pobreza de espírito, eis que a mesmo não tem grande correspondência material. Se nada disto é uma tragédia e não me comporto como tal, é o  preço da minha auto-determinação. Quereria uma refeição mais justa de acordo com o meu esforço, mas ninguém parece interessado. Nem nada de heróico tampouco se desenrola. O herói que havia em mim não era herói nenhum, queriam um herói e escolheram-me, não me ocorreu recusar, por preguiça ou covardia. A mesma que tantas vezes me livrou de apuros. Eu estou em apuros? 

 

Resolvido e nem sequer temerário. Parco em antecipações. Previsões de cinema. De vez em quando lembro-me da Marlene Dietrich e desses sonhos mirabolantes, que gostaria de poder sonhar. Sobre as possibilidades que rasgariam o horizonte. Os sonhos que se guardam para momentos de aflição, quando apenas com eles podemos contar. Vale mais que incomodar a vizinhança. Desde que o sonhos sejam em surdina, sem palavrões. Será até por causa desses sonhos todos mirabolante. Circos faustoso de prazeres adivinhados, cuja materialização jamais ocorrerá, embora nem as rugas de expressão escondam, que continuam lá. 

 

Nada no futuro se adivinha heróico ou magnânimo. Estarei já a temperar-me para ele, evitando olhá-lo durante muito tempo, este presente impresso terá vindo resgatar-me de toda esta embrulhada? Nem fato de gala trouxe, não tinha, nunca liguei a trajes de gala. Lancei aqui âncora e vivo neste barco atracado, longe das emoções das grandes pescarias, da revolta das ondas, ou dos pores do sol de fotografia, reais e eu a pensar que são fotografias. É sempre possível viver com menos. É como o sal. Neste barco eternamente atracado reformulo quase tudo. Sinto alguns pneus a desfazer-se, a recuperar uma elegância que nunca possui, passos hesitantes, satélites de gorduras desnecessárias que se queimam. 

 

Prosa encarniçada ou bem falante. Os vários ângulos de nada em especial. Não vale a pena ter pressa. Apesar de amanhã ser fim de semana. Estou a temperar-me para todas as mudanças não esperando mudar nada, afasto as conjecturas. Felizmente que tudo se pode resumir a um notícia breve, se houvesse notícia. Acontecimentos assim não são notícia, evita-se o desperdício inglório de papel. Quem me dera que a electricidade deste serviço fosse a energia solar. Encontrei a pedra filosofal, a peça que faltava na cabana das luas cheias. Quem quer o incenso d'A Casa, quando há eucaliptos nas redondezas, e sol. Um local propicio a painéis solares? (la se vai a pureza da revolução). Para escrever num teclado ao som de jazz, sob uma luz led. 

 

Permanecem resquícios do proprietário que nunca fui. Fui sempre servo da gleba, orgulhoso da sua escravidão, a ver a rede a ficar mais amarela por causa do sol e as espreguiçadeiras de paletes sem uso. Os meus sonhos de propriedade são estes que construo quando pedalo, um recanto sem ofender a natureza, sem canseiras. Com água corrente por gravidade, é claro. Uma cabana de troncos. Na minha vida esse sonho, apesar de ser um sonho, e de o reconhecer como tal, a mim me bastará se nunca tiver esse recanto. Certo é que não vou afadigar-me para tomar posse dele. Espero continuar a pedalar com o sonho de uma cabana de troncos, de confrontar esse sonho com o concreto de pedra dos casebres abandonados. 

 

Vou subir à montanha, não à principal, nem à mais alta. Empurrado por zelosos funcionários. Ando aqui há demasiado tempo a reflectir, a cirandar, ensimesmado, a pretender andar a ganhar balanço, a curtir desculpas que já metem nojo. Embora lhe possa chamar explicações. A teoria do Big-Bang? Os dias festivos nunca prosseguiram. A imprudência de se festejar por antecipação de modo tão imoderado. Convidaram-me amigavelmente, com firmeza, um sorriso meio feito no lábio. Sabia que o meu comportamento havia de ditar que os funcionários fizessem o convite. Nunca mais me decidia. Agora tenho que ter nervos de aço. Temperados forja em lume brando da reafectações anunciadas.

 

Ainda não é a grande montanha. É um teste à minha actual capacidade. Aos nervos de aço que não possuo, apenas me faz jeito que os pense ter, para encorajar a auto-estima. Para desmistificar mitos a que só eu me prostrei como tal. Esqueci-me, com os esquecimentos possíveis, de que a poluição há muito que afastou Tágides ou artistas a preto e branco, arrebatadas como só um Anjo Azul pode arrebatar-se e a mim coitado, derrotado por uma foto. «Play it again, Sam.»

 

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A música ouvia-se na rua. Sem incomodar, mais porque aquela janela se encontrava aberta. Para arejar a casa arejava o exterior de árias de música de missa. Não incomodava os vizinhos, que ao lhe atribuírem tal nome a colocaram de imediato na categoria do sagrado. O sagrado nunca incomoda. Quem passava se não gostava depressa deixava de escutar. O que os vizinhos ignoravam era que aquela música era apenas uma porção de CD que havia encontrado na sala daquela casa, quando a alugara. Ali os encontrara, com uma camada de pó que escondia as capas com fotografias de orquestras, reunidas em semi-círculo em volta do maestro. Vestidos de fraque os homens e as senhoras de vestido de noite. Aquela música etérea, aos poucos foi subornando os ouvidos dele com as suas variações de violinos. Assustava-se com o ribombar dos bombos nas partes mais empolgantes. Como mais nenhuns CD possuía acabara por se acostumar àquela música, quando se preparava para jantar. Por hábito colocava àquela hora sempre uma música mais calma, a fim de comer distraidamente. Não tinha igualmente na sua posse uma televisão, cuja falta não lamentava. A distracção com que comia era apenas porque a comida não boa o suficiente para se distraísse a saboreá-la.

 

Nessa noite, enquanto a sinfonia se desenrolava, olhou para o chocolate, colocado em cima da mesa, na parte não coberta pela toalha de jantar, que consistia num tabuleiro de self-service. O facto de ali ainda se encontrar significava que ainda não havia sido entregue. Devia colocá-lo num local mais fresco. Não era necessário aprisioná-lo no frigorífico. Tentou encontrar um local mais fresco que o tampo da mesa, o qual permitisse que ficasse sempre visível. Decerto que tinha uma destinatária tal chocolate. Tal receptora era apenas um vislumbre na cabeça dele. A sua existência reclamava do chocolate o combustível para persistir na sua memória, uma vez que nem sequer sabia se a voltaria a ver, quanto mais oferecer-lhe aquele chocolate barato, de arroz tufado. O destino mais que certo seria saboreá-lo numa noite de tédio mais acentuado. Ao som dum violino mesmo o chocolate barato pode saber como chocolate Belga. 

 

O facto de o ter comprado, quebrando a norma do aproveitamento, significava que não era um alimento de sobrevivência. Era uma dádiva. Um dádiva possível, para tornar mais plausível a possibilidade de um novo encontro. Uma espécie de reza, uma vela que se acende por um desejo. Não desejava nada mais do que não se sentir preso a qualquer pessoa ou entidade (o contrato renovado por dele se terem esquecido é a maior demonstração do desapego contagiante que dele emana, como não se lembrava de contratos a termo certo e renovações dos mesmos, fica provada a concretização dos seu não desejos, na generalidade.

 

Tinha começado a existir o desejo de oferecer aquele chocolate. Os cabelos pretos, lisos e o vestido vermelho bem delineado tinha sido a causa de tal ocorrência. Olhando de novo o chocolate percebeu que lhe tinha nascido um desejo. Um desejo de oferecer um chocolate (dos mais baratos) a uma rapariga de vestido vermelho e cabelo preto. Ocorre-lhe que tal rapariga, por tal efeito nele ter provocado, assim vestida, iria considerar um pouco estranho tal humilde oferta. Talvez desdenhasse dela simplesmente. Isso não seria bom para o resultado final da oferta, por isso impunha-se acautelar uma não aceitação de tal oferta ou uma aceitação amorfa, mais por educação ou timidez, que por considerar a oferta relevante. Urgia pois encontrar um sortilégio para propiciar que o chocolate fosse entregue, de preferência com um sorriso genuíno de prazer por retribuição. 

 

Nisto gastou evidentemente, algumas noites, enquanto a memória perdendo nitidez, apenas um vestido vermelho e uma cara com cabelo preto, os óculos pretos. Era jovem, duma juventude à qual não lhe era possível determinar o número de anos, ou a sua experiência não lhe conseguia que ajuizasse convenientemente. Numa noite em que todos os pensamentos e planos que urdira lhe pareceram todos do mais falível, sendo o maior falhanço a rapariga nunca mais ter aparecido, decidiu-se e comeu metade do chocolate, com arroz tufado, estratégia usada no dia seguinte, uma vez que o estado de espírito prosseguia igual, e provavelmente prosseguiria na noite seguinte, agora já sem chocolate e sem ter visto a rapariga do vestido vermelho.

 

Na terceira noite, já sem a companhia do chocolate para o martirizar daquele capricho de comprar chocolate barato para uma desconhecida, ocorreu-lhe que apesar da rapariga nunca mais lhe ter aparecido e mesmo que aparecesse já não teria chocolate para lhe oferecer, permanecia o desejo de lho oferecer. Apenas isso. Era por isso que era um desejo. Nada, no mundo real, poderia garantir a sua concretização, no entanto, ele não se abstinha daquele propósito. Isto era de certeza romantismo. Dele podia ter algum receio, não de algum desejo que pudesse estar subjacente ao desejo de oferecer o chocolate, pela rapariga em si. Nada disso se misturava nestas elucubrações. Apenas a constatação daquele desejo se manter, apesar da sua impossibilidade de concretização. 

 

Nesse dia deitou-se perplexo. Não tendo sido a conclusão a que havia chegado, ao fim do terceiro de reflexão e por coincidência ou não, no dia em que deglutira a segunda parte daquele enigma, em forma de chocolate, que o tinha impedido de adormecer tranquilamente. Deixou uma semente de dúvida acerca do regular funcionamento das leis pessoais que influenciam os homens e de alguma forma explicava alguns comportamentos aos quais tinha dificuldade em atribuir um motivo justificado. Havia pois desejos a intrometerem-se na ordem natural das coisas. Aquele fora o desejo de oferecer um chocolate, barato, de arroz tufado.

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É certo que se cansava por vezes de todo aquele burburinho, os perfumes, os casais a discutir, as crianças com birras e os adultos senhores e senhoras do seu nariz. Lembrava-se do ambiente tranquilo do matadouro da freguesia, dos campos verdejantes ou amarelecidos do horizonte, do vento, das águias altaneiras que sobrevoavam a imensidão. Nessas alturas evocar tais paisagens ajudava-o a abstrair-se daquele circo que por ali andava, sem apresentação formal dos números, o bilhete a factura da sorte. O inevitável cartão de desconto.

 

 

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Novo Banco. A simplicidade quase pueril do nome demonstra que os homens das contas não estão preocupados com palavras bonitas. Pudera. Este banco, o Banco Bom, tem um irmão gémeo que é agora a ovelha ranhosa desta nomenclatura. O Banco Mau. 

A um depositante o menos que interessa é o nome do Banco. Quem se preocupa com pormenores destes não tem lá nenhum. Ainda não. O que vão fazer as pessoas neste Banco Mau, para além de gerirem Activos Tóxicos? 

A simplicidade da escolha do nome do Novo Banco deve significar uma demarcação com a poesia que se tem instalado no sistema de usura universal. Activos Tóxicos? Será que naqueles relatórios cheios de contas, de colunas, de somas, e de tudo o resto que é lá descrito, aparecem os activos tóxicos assim descritos? Existe um nome bem mais comum para isso, e todos sabem qual é.

O Novo Banco continuará a esmifrar toda a gente que lhe caia na teia. Faz parte da natureza de ser um Banco, um Banco saudável, que cresça, com boas cores (o verde garrafa já era...). É contra natura querer que um banco não queira esmifrar quem lhe cai na teia. Isso é do conhecimento geral, embora toda a gente se esqueça disso, a avaliar pelo número daqueles que se deixam urdir por essa teia. Alguém se escandaliza com o comportamento dos crocodilos?

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Não sei se é exequível exprimir a matemática das emoções. Seria um equação com demasiadas incógnitas. Não há incógnitas que batam esses super-computadores. Cientificamente isto nem chega a ser um absurdo. Deve ser uma impossibilidade. Serve apenas para recrear as palavras, por forma que não fiquem sempre gravadas da mesma maneira, onde quer que o sejam. Isto é mesmo tudo a fingir. Nunca dissequei completamente nenhuma emoção. É uma cirurgia delicada. As emoções são voláteis. São exímias guerreiras, como aquelas dos filmes, que dão voltas no tecto e surpreendem o adversário em posição desvantajosa. São guerrilheiras, são insubmissas, são selvagens. Emboscam tenazmente, provocando pesadas baixas. 

Muitos que as tentaram capturar sucumbiram, ora aos seus encantos, ora ao sofrimento dos seus ataques, constantes ou não. A muitos parecem não desviar um cabelo; que se sabe disso? Que é que eu sei disso? Outros ficam agonizantes, em expectativas de uma remissão ou rendição que nunca mais surge. Emboscados no tempo do que fazem e do que podiam ter feito, enquanto estiveram prisioneiros de todas elas ou de uma. Melhor do que matemática de emoções, previsões de sarilhos no ADN. Os fármacos mais potentes, impotentes. 

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