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«Estavam sempre a perder os acres em patéticas circunstâncias porque o pai velho já não podia trabalhar, a amável filha estava em decadência e o malvado credor ou o malvado lord estavam prontos a aferrar os acres ou a virtude da filha. Os pobres, para os românticos, nunca eram urbanos nem industriais; o proletariado é um concepção do XIX, talvez igualmente romantizada mas totalmente diferente.»

 

Capitulo XVIII
O MOVIMENTO ROMÂNTICO
Bertrand Russel
História da Filosofia Ocidental
Círculo de Leitores
 

 

Não tinha pedido nada disto. Calhou comprar aquele volume a baixo custo numa loja de antiguidades. De ter apreciado o estilo simples de escrita do autor da tal história. A CONQUISTA DA FELICIDADE é um livro que posso aconselhar qualquer um a ler, porque retira dele algum conhecimento para lidar com essa questão. De o considerar um observador bastante objectivo e equilibrado. Estive à espera que  o vendedor/comprador fosse ver quanto custava. O livro ainda está ligeiramente húmido. O tempo que faz não ajuda nada. Deitei fora acapa lustrosa com a cara de um dos tipos de que fala, que conheço, eu já vi aquela cara em  algum lado. Verifico através do link que fiz um bom negócio (sem pensar nisso, apenas na vontade de comprar e de ler aquele livro se o preço fosse acessível às possibilidades. E que apenas preciso de um conselho de quem sabe tratar de livros, para o livrar da humidade (um micro-ondas? - É melhor não!!!). Tem agora uma respeitável capa de cor castanha sem nada. Por ser um livro que se pode ir lendo e de consulta, convém ter uma boa encadernação. Gosto de boas encadernações. Se os livros o justificarem, evidentemente. É sempre um critério acessório, isso da encadernação.

 

 

O Capítulo que deu cabo de tudo 

 

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Quando a realidade extravasa os piores cenários começa a confundir tudo. Esta realidade aprisiona-me num sentimento de derrota, de exclusão. Tiraram a caneta ao Escrivão. Há um mês ria-me ao fim da noite com este episódio, longe de imaginar que me iria acontecer o mesmo. Aqui o episódio romanesco aterrou-me como realidade. É quanto basta para explicar a angustia e o torpor (isentos de impostos).

 

Um Escrivão sem caneta

 

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Isto tanto dá para a Selecção Nacional como para os Organizadores do Mapa Judiciário:

 

«Por isso quem conhece o inimigo e se conhece a si mesmo em cem batalhas nunca será derrotado. Quem não conhece o inimigo, mas se conhece a si mesmo, terá iguais probabilidades de vitória e de derrota. Quem não conhece o inimigo nem se conhece a si mesmo será derrotado em todas as batalhas.»

 

A Arte da Guerra
Sun Tzu

Edições Coisas de Ler
Tradução de Luís Serrão (a partir da versão Inglesa)

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Se esta inconclusiva questão do sentido da vida não tivesse sido inventada e disseminada pela humanidade, certamente toda a gente que padece de tais preocupações dormiria muito mais descansada. De certo modo, a humanidade delegou nos filósofos essa tarefa. -«Eles que endoideçam a pensar nisso!».

 

Há no entanto uma franja de indivíduos que por sua conta e risco, ignorando os conselhos paternos, se embebedam de livros dos filósofos e não sendo filósofos, ainda assim se deixam perpassar pelas interrogações da imaginação deles, ou da lógica. 

 

Não é certo que as respostas dos filósofos sejam certas, se é que são respostas, se é que não são evidências e lhes colocam as perguntas. E neste dissecar nada concluem. Muito menos poderão concluir os que não tem sequer essa qualidade, apenas detendo a de vítimas de perguntas nunca respondidas, de modo satisfatório e universal. 

 

Nesta orla me sinto eu enrodilhado por questões dessas, sem as ferramentas de análise dos estudantes, ou a autoridade dos filósofos, apenas com a agonia de umas perguntas e de umas miseráveis respostas. Por isso pergunto coisas muitas vezes, demasiado humano para lhe poder responder. Suficientemente humano para as poder sentir, em contradição com toda a prática. 

 

Nesta orla porque é um território semi-sombrio, propício ao recolhimento, fora do bulício das grandes ideias (as que aqui aparecem são mais do que suficientes), me resguardo do desconhecimento apenas por embaraço, não porque todo esse conhecimento das grandes ideias, para além de me poder fazer capotar de vez, possa ter alguma resposta válida para as minhas questões da orla da filosofia.

 

E por ser uma espécie de território neutro, uma zona de ninguém, uma faixa de permissividade antes da total liberdade que pretendem ser as grandes ideias. Ou de total escravidão. Por mais filósofos que possamos ser jamais nos libertaremos do demasiado humano. 

 

O corpo que concede asilo a essas actividades é material e sujeito às desventuras. Aos desgostos de toda a ordem. Nesta orla nem todos os que lá andam me interessam. Isto é um jogo? Tenho que os ler todos? Ou escolho os certos? E os outros? Se acolho uns e outros não, já não é universal a paisagem. Vejo-me no descaminho do subjectivismo.  

 

Não há nenhum proveito muito concreto. Divirto-me com isto, enquanto me divertir posso justificar andar por aqui na orla. Na orla da decadência? Onde está a decadência? Nas grandes ideias? Do outro lado?

 

O outro lado é a realidade simples da vida. Da esfregona e do cão doente. De me sentar ao fim do dia e pensar nas pouquíssimas vezes em que me permiti ali estar a gozar a sombra, a conversar, a olhar desinteressadamente para o quintal. 

 

Então tenho que lhes agradecer? Foi tudo por prever o pior e por o pior ainda não estar oficialmente afastado de nada. Disso não interessar assim tanto porque não depende de mim. Ando às voltas com o meu tempo. Esta mobilidade estonteante de pessoas e bens. As ordens superiores de um simulacro bem mais manhoso que Salazar, bem mais insensível a pessoas. Seja então. O que faço no tempo deles, eles que me digam, não vou à procura das ordens que é suposto receber. 

 

Do meu tempo se formou esta entrada na orla, e mesmo de nós o que nos pertence? Não damos ordens aos nossos órgãos, não escolhemos a personalidade, a perenidade do corpo assusta. Contaminar o cérebro com este tipo de ideias é mesmo o que quero? Que valem elas ali ao lado? Aqui ainda posso regressar ao modo simples de usar os neurónios para sobreviver condignamente e empanturrar-me de qualquer coisa depois de jantar. 

 

Quando se escolhe fazer alguma coisa, embora as razões tenham em conta as circunstâncias o aconselharem, posso julgar-me livre porque ao decidir assim porque não me obstinei numa luta que sabia antecipadamente perdida. Posso ter algo que legitimamente posso ganhar. O tempo. O que vou fazer dele, logo se verá. Posso regressar da orla enfadado a esconjurar tentações, sem intenção de regressar. Posso embrenhar-me no outro lado ainda mais questionável das grandes ideias que não ajudam nada a ter pequeno-almoço para tomar. 

 

Não estou disposto a passar fome por isso. Nem as grandes ideias, para além de não serem para todos, salvarem a humanidade deste divertimento que vamos mantendo. Estar aqui permite-me isso. Não é expectável experimentar lobotomias para reverter a contaminação do espírito por ideias desnecessárias, é por isso que aqui me mantenho, equidistante de umas e outras, neste solipsismo corrente. O que faço aqui?

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A mendicidade é uma fatalidade que atinge pessoas. Diz-se atingir porque os desapega, contra a vontade, dos bens, serve para que se classifiquem na classe dos mais desgraçados do mundo. Que se possa imaginar que sejam os seres mais desprotegidos e carentes à face do planeta.

 

A mendicidade é um sonho, é um sonho para mim. É um sonho porque está longe do meu estado actual. É um sonho porque ainda não consigo desmaterializar-me o suficiente para isso. Sei que não. É até um daqueles sonhos que não foi sonhado. É um sonho acordado. É a ideia mais revolucionária que até hoje me foi dada a conhecer.

 

Afirmei que a mendicidade está longe, embora não tão longe como possa querer pensar, uma vez que Bancos e Estado, para citar dois magnos contribuidores para a miséria universal, se encarregam de facilitar o caminho. E como a minha força de vontade não é nenhuma porque não considero nada confortável a mendicidade, tenho este sonho. 

 

Ajuda-me a acreditar que há uma via para fugir a estes filhos da puta todos, para me rir deles, talvez perguntar-lhes se me querem despentear? Eu não quero resolver problemas nacionais, muito menos mundiais. O asco que cada vez mais todas essas organizações me metem é um problema pessoal. Nunca gostei deles.

 

Cometo erros quando me apaixono. Cegam-me, ou não me cegando, impedem-me de agir. Apaixonei-me por um monstro e fiz-lhe as vontades todas. Só isso pode explicar ter caído assim nas garras dele. E nesta parte deveria acusar-me a mim. Mas não acuso, afinal sou a vítima, ou não? 

 

Começo a acreditar que a única maneira é mesmo essa, visto também não me interessar a emigração, mesmo tendo em vista a mendicidade. É proibida na Noruega, por exemplo. Em Londres colocam picos para não dormirem à porta daqueles apartamentos janotas, por cima dos logótipos dos serviços financeiros. 

 

Podia ainda emigrar para algum país dos mais pobres e viver por lá. Os miseráveis não tem para dar ou para lhes ser tirado, vivem livres desta corja que atormenta o espírito, sobretudo. A carteira também, evidentemente. Tudo muito.

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...

31.08.14

Tendo então Deus, para gozar do duro trabalho da criação, achado tudo tão maravilhoso e perfeito, sabotou o próprio plano para se divertir. Deus gosta de se divertir. Se ainda não fomos varridos da face da terra, será porque continuamos a divertir o Criador de forma competente. Não conhecendo eu os Seus critérios, pelos meus o desempenho é excelente. 

 

Esta lógica da batata temporã pode conhecer outras interpretações. Talvez a ociosidade daquele sétimo dia e o modo como se manifestou tivesse condenado Deus a aturar-nos para sempre, em vez de se divertir.

 

Dirvertir-se um dia, depois da semana de trabalho, é reconfortante. Fazê-lo todos os dias subsequentes da criação até agora pode ter-se tornado tortura de Poe. 

 

Tem ainda o poder de nos arrasar e acabar com a tortura do extravagante espectáculo que lhe oferecemos, que pode divertir um dia, mas cansar depois disso.

 

Esqueço-me que Deus se gosta de Divertir e que depois de ter alcançado a beleza, a perfeição, mergulhou no tédio e sabotou a perfeição com esse propósito. Não quero que pensem que tento dizer que o belo e o divertido não se conjugam.

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Mendigo altivo

29.08.14

Para alguns florescerem tem que existir tipos como eu. Certamente que sim. Mas para ostentarem tanto poder não pode ser apenas à minha custa. Tem que se basear na existência de incontável gente como eu. Daqueles que nunca fazem bons negócios. E se alguma vez fizeram algum, do ou dos que puderam ter feito, foi por sorte. Por acaso. É por esta universal inabilidade para negócios que grassa desde sempre, a acreditar nos relatos, que resulta a desigualdade entre a sociedade. Embora haja outras. Esta dos negócios não foi sempre assim reconhecida numa classe, mas a rapaziada esfalfou-se a fazer negócios com o trabalho dos outros e conseguiu ganhar nome de classe própria. Também pode ser a isto que Darwin se referiria com o determinismo, agora não em bicos de pássaros, mas na geral condição humana. Abuso do que não sei para invocar e cuspo nomes para dar crédito às minha palavras. Para isso parece que tenho algum jeito. Todo o crédito do Pancadaria poderá ser assacado ao facto de não me render um tostão. Conserva a pureza intocada das fantasias. Das maluqueiras. Em vez de fazer canoagem ou para-quedismo. 

 

Já me conformei com esta inabilidade há muito. É por isso que fujo dos negócios mais que o diabo da cruz. Todos esses números da grande farsa que decorre, os folhetins são diários. Tornou-se tudo uma complicação. É sempre assim. Números são doces para bolsos gulosos. Atraem gente de todo o lado. Os abutres já se notam ao longe, já lhe senti o esvoaçar despreocupado. Ele há-de cair. Está maduro, pensarão eles; não pensando como nós, mas voando despreocupadamente, sabendo que é apenas uma espera, como tantas, em busca de alimento. Estes abutres tem esta conotação negativa porque se referem a outros, que embora esperem que a presa caia de madura, apenas se querem saciar. Estes querem um banquete. Quereria eu um banquete destes? 

 

Não tenho nada ensaiado para a circunstância. Depois de ficar maduro para o bico deles nada do que diga terá qualquer importância. Não vieram por aquilo que eu digo, vierem em busca de me debicar sofregamente as cartilagens. Talvez me comam os olhos.  Tudo porque não me adaptei às novas condições do progresso material, do dinheiro de plástico, dos nomes pomposos que significam mais um assalto ao bolso. E tudo porque cada vez mais abomino a opressão material, quando ela se materializa em pecado capital, eu que não acredito em tais pecados como capitais, apenas como insanidade ou como defeitos da criação, seja quem for que possa reclamar a autoria. 

 

Se fossem Deus mesmo, poderiam reclamar directamente a humanidade como criação, sem se envergonharem de alguns maus funcionamentos. Eu não reclamava e até sou um pouco desleixado nisso. E nos negócios, dirão outros, cuja sacra aura dos negócios deixa em sentido. Com os sentidos em pleno alerta. Deve ser por ser distraído que me arruíno nesses negócios em que intervenho. Não que queira retroceder ao caminho do Bem, dos negócios, dos naperons, dos sorrisos de conveniência. Sem ser por nenhuma razão em especial. Por ser mau dançarino em certos ritmos e nos outros não valer nada. Triste e patético. Pau mandado de si. 

 

As mortes que sucedem na vida assustam enquanto não as encarar de frente e com o mínimo de dignidade, uma vez que ela é certa, ter medo dela é apenas o gozo supremo que lhe poderia proporcionar. Estou aqui com os abutres já não muito longe, mas esse gozo de me debicarem os olhos aterrorizados de medo, não lhes vai ser concedido. Se algum dia cair na mendicidade vou ser Altivo, muito mais altivo do que alguma vez fui até então.

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Os dias na Terra Média decorrem sob um sol envergonhado. Não há nenhuma azáfama, pois os objectos vão sendo encaminhados de lá para fora segundo um critério de necessidade. Devem ser por isso os últimos a colocar num hipotético local de destino, os que agora saem. Hipotético uso de alguns deles não está previsto. 

 

Decorre paralelamente, sem qualquer apoio dos fundos Europeus, uma experiência que consiste para o Agriscritor em se privar do uso de todo os objectos que não julgue essenciais à sobrevivência, mantendo um padrão mínimo, é certo, de objectos. Não se trata de nenhuma experiência zero, do tipo final, como um sem abrigo. Por ora, as experiências de Orwell e outros contos são o suficiente para saber que não deseja tal experiência, nem mesmo como experiência. Seria exequível requerer um ano sabático. Seria para isso mesmo, visto não dispor de outros rendimentos. 

 

É uma experiência séria. As suas conclusões podem dispensar o esquecimento ao que está arrumado para trás. A experiência determinou mesmo que desta vez nem haverá inventário por caixa de papelão. Das essenciais para as dispensáveis. O trânsito é suave para que tudo possa ser então esquecido. A vontade de esquecer os actos preparatórios, em si  é enorme. Pode ser confundida no Agriscritor como sendo ansiedade. Quer chegar ao ponto do essencial e assim experimentar mesmo não o valor em si dos propósitos, mas a maneira como reagirá, um ser humano em concreto, a isso. As teorias precisam do corpo dele para provarem a sua eficácia individual.  

 

Tais pertences não são nem aqui nem serão noutro local, necessários. Aqui já não são aqui necessários e o espaço que libertaram gradualmente começaram a dar-lhe um prazer que não havia previsto, como se confrontado com a simplicidade e o espaço livre que enchia cada parede, ditasse já a certeza de que ali não fazem falta tais objectos. Tal percepção não fora prevista no início da experiência. Uma adaptação caseira das teorias de Albert Cossery, muito a propósito, o apelidado Voltaire do Nilo a inspirar uma experiência com pretensões sociológicas, embora a única sociedade abrangida pelo estudo fosse a própria pessoa que a realizava. 

 

Contenção de custos é também uma maneira de desprendimento. Desprendimento inspirado na teoria por Cossery, na prática pelas circunstâncias. As tais que também concorreram para que aproveitasse circunstâncias adversas, para lhes procurar encontrar um sentido útil, até uma descoberta acidental, uma janela para outro patamar. Uma lição. Para evitar repetições? Ou dar curso a outras. O Agriscritor também se apercebia que ao despedir-se assim, é porque tinha confiança que as conclusões  que a experiência irá ditar para a acta, serão próximas das que formulou, em segredos de polichinelo.

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