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Conto Os Esfomeados só Pensam em Pão - Albert Cossery, em Os Homens Esquecidos de Deus

 

"Dei-me sempre com pessoas que têm uma concepção original da vida, que não se deixam levar pelo que lêem nos jornais, sabendo muito bem ler nas entrelinhas. Tais pessoas são felizes. Eu fui sempre feliz. Comigo só trago o bilhete de identidade, ou melhor, o cartão de residente. É o único cartão que trago na carteira, não tenho cartão de crédito nem livro de cheques, a vida é maravilhosa, mas é preciso uma pessoa saber desprender-se de tudo isso que desgraçadamente dá felicidade aos imbecis.»

 

Albert Cossery — Magazine Littéraire

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« Não era indiferente ao outro lado. Não ser indiferente e ser capaz de entender o que o outro lado sente ou pensa. O outro lado pode ser uma espécie de inimigo com o qual não pretende bater-se em qualquer batalha. Evitar a guerra é sábio quando se não está em posição de a sustentar. Se bem que todos os cálculos que fazia possam ser enquadrados numa estratégia de guerra, podem ser eficazmente desenvolvido no sentido da diplomacia. Encontra a melhor solução para todos. A diplomacia é a arte de o conseguir. Envolve os mesmos cálculos. Apenas não persegue o esmagamento do inimigo, apenas a boa convivência com ele. Sendo a boa convivência condição para a preservação do que se quer preservar. A qual ocorrera beneficiando os lados antagónicos. »



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01.09.14
«Ora, se estimativas feitas no templo antes da batalha indicam vitória, é porque cálculos meticulosos demonstram condições favoráveis. Se indicam derrota, é porque cálculos meticulosos demonstram condições desfavoráveis. Através de um maior número de cálculos, é possível vencer. Através de um menor número, é impossível. Como é mínima a probabilidade de vitória de quem não faz cálculos alguns! Por estes meios, pode antever-se o desfecho duma batalha.»

A Arte da Guerra
Sun Tzu
Edições Coisas de Ler
Tradução de Luís Serrão (a partir da versão Inglesa)

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Saloio

31.08.14

« Eu! eu que me sagrei mago, que me disse anjo, que me outorguei dispensa de toda a moral, fui atirado ao chão, com deveres a cumprir, com uma ensarilhada realidade a viver! Saloio!» 

 

Adeus
Une Saison en Enfer

Jean Arthur Rimbaud
Tradução de Mário de Cesariny
Assírio e Alvim 

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«...-, foi o próprio Deus que, no termo do seu trabalho, se deitou sob a forma de uma serpente debaixo da Árvore do Conhecimento: foi assim que se recuperou de ser Deus... Fizera tudo demasiado belo... O Diabo é apenas a ociosidade de Deus naquele sétimo dia...»

 

Ecce Hommo - Como se chega a ser o que se é

Frederic Nietzsche

Edições Europa-América

Tradução da versão Inglesa, Ricardo Saló

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«Há muito tempo que ele deveria ter recebido não uma libré, isso é coisa que não existe lá no Castelo, mas um traje oficial, chegaram mesmo a prometer-lho, mas neste capítulo as coisas arrastam-se sempre muito lentamente lá no Castelo, e o pior é que nunca se sabe o que essa lentidão significa, pode significar que o assunto está correndo as vias oficiais, mas também pode significar que ainda não começou sequer a corrê-las, no caso, por exemplo, de quererem que Barnabás continue algum tempo à experiência, e pode significar, finalmente que o assunto já correu todas as vias oficiais, voltaram atrás, por este ou aquele motivo, com a promessa feita, e nunca Barnabás recebe o traje. Sobre este assunto é impossível obter informações mais concretas, ou então é possível, só passado muito tempo. Há entre nós um provérbio, talvez o conheças, que diz: «Decisões das autoridades, são tímidas como virgens.»

Franz Kafka - O Castelo
Edições Antígona
Colecção Não Nobel - Jornal O Público
Tradução de Vinga Martins 

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O Sr. Kafka

26.08.14

As fontes habituais estão secas. Percorridos os caminhos possíveis. Como é que ele se consegue lembrar daquilo tudo. O outro. Aquele que consta da capa. Como é que foi capaz de nunca ter querido nenhum reconhecimento por ter exposto o absurdo de forma normal. Ele levou-o para lá a partir dos seus dias? Certamente. Manhãs de escritório de seguros. O que destruiu pelo fogo era inferior ao que conhecemos?

 

Em procura de fontes alternativas. Desisto a meio do artigo, já tinha passado alguns aspectos. Apesar da biografia individual moldar toda a obra agora não me interessa a biografia. Interessa-me a obra. Acabei por ler o que não quereria por ora, ler. Está lido. Em parte. Convoco o Tom (Waits, não o Consigliere da famíliaCorleone). O que nele me deixa de olhos revirados é a precisão dos pequenos pormenores, que dão toda a realidade a situações que já nada tem de realidade, como todos a olham. Porque as situações são incomuns, ou os resultados esperados pelas acções dos personagens acabam sempre por ser travados pela burocracia ou por outro poder qualquer. Os esforços de K. para chegar à fala com Klamm, como se isso o pudesse redimir da sua situação. A situação ou as circunstâncias sempre a favor de um vento desfavorável aos propósitos dos confusos seres que ali expõem as suas razões.

 

Já tinha lido O Processo, há muitos anos, quando li igualmente A Metamorfose. Lê-lo é sempre avançar para um patamar de onde desejamos, na realidade, que toda a nossa vida não seja uma espécie de engano, em busca duma concretização, duma redenção, duma reabilitação, que não nos está destinada. Apenas porque não. Não porque alguma entidade decidiu castigar-nos de forma exemplar, escolhendo antecipadamente todos os passos. Todo esse destino, embora por vezes pareça alheio de todo ao desenrolar dos episódios, é apenas ditado por todas as escolhas que fazemos, ou são mesmo forças exteriores a ditar toda a sorte de oportunidades que possam surgir. Para mudar. Para mudar mesmo, até de alimentação. 

 

De alimentação intelectual é impossível por ora sair daqui, destes obrigatórios clássicos que faltam para completar o meu quadro de honra. O Panteão privado, será sempre agradável juntar à mesa os Senhores Poe, Pessoa e Kafka, amigos de longa data. Seria mesmo. Do que falariam nem a mais febril imaginação que pudesse convocar, me poderia aproximar deles, não me interessa se génios eles mesmos ou tocados por um génio qualquer. Por um respeito genuíno a quem devo momentos de lucidez ou de insensatez. Kafka poderia ter escrito a história do homem que queria ser vendedor de bolas de Berlim. Também a poderia escrever eu, sem grandes problemas de consciência, uma vez que não tendo comparação, me poderia consolar com a minha versão. Posso-me imaginar na pele dele a escrever a história. 

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Encontrado o tom, não o meu, que não chego a tanto, mas o da sintonização. Tenho portanto o jazz para descobrir. Tudo o que considerem jazz ou não. Que dizem os nomes? Sons ininteligíveis. Que dizem os sons que saem do saxofone de Dexter Gordon? Dizem-me tudo o que preciso saber. Para me preencher momentos, em que bocejar e espreguiçar não chegam, ainda é muito cedo. Está frio para uma manhã de Verão. Já não sei se isso é uma boa desculpa para não sair se realmente só aqui estou porque é ainda muito cedo para outras actividades. Que se lixem as actividades. Fico aqui a modorrar. A tentar surpreender o Corrector. Suspenso por sons grátis em streaming. Com vontade de regressar e começar tudo de novo. Despertador com música certa, pequeno almoço de torradas com manteiga e doce de pêra da Terra Média. Café, sempre o café o e chá, como posso modorrar com tanta eínas a circular? Por isso me espreguiço. Me lembro do Duke. Me censuro levemente os estrangeirismos. Todos. Os do Duke e os do streaming. Escolham uma cidade, escolham, que eu não tenho jeito para isso. Se até para escolher a música me sinto atrapalhado. A tonteria dos alongamentos prossegue, a corrida adiada sine die poderia ser hoje. O condicional é não me apetecer ir para o frio improvável deste Verão titubeante. 

 

Vejo-me perseguido pelos livros. Ainda não acabei de me refazer e já o Castelo se forma em imagens concretas, não dum Castelo, mas dum edifício público, moderno, onde, ao contrário de K., não pretendo de modo nenhum entrar. Se K. lograsse entrar no Castelo talvez concluísse que mais valia não ter entrado. Se bem que entrar no Castelo é sinónimo de garantir segurança para a sua precária situação laboral, é garantir o seu emprego; mais do que apreciar a arquitectura dele e medi-lo palmo a palmo. Isto é, do Castelo pode vir a ordem necessária para que ambos sossegarem os espíritos, sem necessidade de fisicamente lá entrar. 

 

Klamm, apanhado desprevenido, enfrenta a curiosidade de vários aldeões, Todos lhe querem sugar informação pessoal e estratégica. O pobre homem, já sem as luvas, responde como pode. Nada obsta. Há evidentemente aldeões satisfeitos pelo seu ingresso no Castelo. Há outros que trocam para não ir para lá. É um mercado não financeiro de cotas no Castelo. Agora engrandecido com novos casos para Sordini supervisionar, falcão do erro. Klamm não é nada do que sempre se espera em Senhores do Castelo. 

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« Durante muito tempo inobservados, os ajudantes e Mizzi, não tendo, pelos  vistos, achado a acta, quiseram voltar a meter tudo dentro do armário, não o conseguiram, porém, dada a quantidade enorme de actas em absoluta desordem. Então os ajudantes tiveram uma ideia que neste momento estavam realizando: deitaram o armário ao chão, atafulharam-no de actas, sentaram-se depois com Mizzi em cima da porta e tentavam fechá-la assim à força, carregando-a lentamente.- Afinal não chegaram a dar com a acta - disse o regedor. - É pena; mas a história já o senhor conhece, bem vistas as coisas não precisamos de acta para nada, de resto acabaremos com certeza por dar com ela, está provavelmente em casa do mestre-escola, ele ainda tem lá muitas outras actas. »

O Castelo - pág. 85

Franz Kafka

Colecção Não Nobel

Tradução de Vinga Martins

 

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Conto inacabado

07.08.14

Uma incursão em textos com enredo. Um conto publicado aos folhetins, em férias, reunido. Para quem conseguir ler sem desconforto. Por ter sido uma experiência com o mínimo de coerência. A qual me terá custado menos a empreender do que suponha e me deixou com vontade para futuras aventuras.

 

O Fracasso dos Trabalhadores Temporários, conto inacabado.

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