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um dia mais novo

31.07.14
Ocasionalmente via a fotografia dela naquele mural. Não era preciso aparecer a fotografia dela para se lembrar. Lembrava-se dela sem ser recordado por uma foto. As suas rotinas não se cruzavam. Vivendo perto era como se vivesse na Austrália.


Quando via a foto nunca se passava nada de especial, para além da nostalgia que a sua observação lhe provocava. Um sentimento qualquer que permanecia igual desde o dia em que o sentira. Um sentimento agradável, portanto. Por isso estimava-o. Por todas as promessas e possibilidades que continuava a encerrar. Por isso não o deixava galgar mais do isso, poluindo-o com possibilidades ou imaginando qualquer futuro.


Era o género de sentimento que o podia acompanhar toda a vida. Que ocorreria a intervalos anárquicos, como ocorrem todas as lembranças. Era sempre aquele verso de um poema de Sam Sheppard.


«eu vejo-te quando tu não sabes que estou a olhar
e cada olhar que te roubo
deixa-me um dia mais novo»




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Para ser ouvido ao som de O Falcão, dos Xutos e Pontapés

Às vezes se diz muito não dizendo, lugares comuns, o trânsito, o tempo. não é atitude, é apenas não dizer, começamos por onde?

Logo pela perguntas profundas, porque não havemos de ir direitos ao assunto? Queres ser feliz? Então anda. Deixa lá os falcões: são de papel. É apenas o vento que os faz esvoaçar.

Como as folhas de papel celofane que a miúda do Sam Sheppard tentava domar.

Andei a levar biqueiros, fui contra tantas paredes, dobrei esquinas para becos sem saída, formação profissional para a simpatia, fui sorrateiro pela zona histórica.

R. João das Regras.

Eu não, não sou capaz dessas finezas, dessas subtilezas. Não é um palco e é. Somos verdadeiros e embelezamos o corpo e a conversa.

Não falta nada, estando tudo iluminado e ciente, não é um epitáfio que cinzelo.

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Aqui, muito no fundo da terra funda
neste bar de rock provinciano
Lou-Ann morde o microfone
Cospe os blues
ao longo da longa noite húmida.


25/10/80
Austin, Texas
Motel Chronicles, Sam Sheppard

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Andas aí pelo éter, como gosto de chamar a essa intangível realidade. Devia acreditar que há uma terra da Internet, mas  para isso tinha que ser uma personagem do Sam Sheppard. E não estou para isso.

Isso é seguro, vejo-te que andas por aí. Só não descobri ainda, nem nenhum caminho marítimo para algum site marado, nem sei se os astrolábios que os Chineses me venderam valem alguma coisa nesta navegação.

Por vezes, pensando nisto e naquilo, esbarro em objectos, porque nessa altura não deve limites para o vislumbre que tive. Por vezes é algo simples como achar um carregador de qualquer coisa (o da apafusadora demorou aí um mês ou dois...teria aparecido mais cedo se fosse necessário...).

Até me apetecia de chamar aos visitantes meus velhos, como forma de ilustrar uma convivência antiga, mas isso são apenas já os dedos a pensar por mim.



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e neste fim de noite, a noite das noites, a 6ª feira. Eu que não acredito na divisão artificial do tempo e que o tenho em conta como sendo uma das coisas mais valiosas que tenho. 

E tento fruí-lo o melhor que posso. Hoje sinto-me literalmente agarrado ao teclado, até o fogo está quase meio apagado, uma música maviosa cantada por uma senhora, umas guitarras e não se vê o fogo e parece que isto é outra versão daquele conto do Sam Sheppard em que o tractorista fica preso num tractor no meio da imensidão do milheiral e é agarrado por uma núvem garra.


E dou sonoros espirros e troco de posição as pernas (todas elas perniciosas) e tenho um copo de vidro de com resto de chá de hortelã pimenta. Fresca. Apanhada e posta na água quente. Dizem que faz bem a constipações. Quem me manda a mim andar descalço a absorver toda aquela humidade. 

Comida o reforço (não em forma de ração de combate), nas anteparas deste submarino, com o periscópio recolhido, perco-me em livros e músicas e os bonecos/bombeiros tombados à espera de se perfilarem...

E aqui me refugio a pensar na felicidade dos outros, por vezes. Tenho a veleidade de pensar que posso, com um boneco, fazer mais do que que fazem Damiel e Cassiel ... 

Algo na minha mente céptica que me quer fazer acreditar que eles andam por aí, e já agora que não levam a sérios os "maus pensamentos", aqueles que se torna necessário falar deles em voz alta para expor toda a sua falta de senso.


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...

20.04.13
Se ainda aqui estivesses
Pegava em ti
Abanava-te pelos joelhos
Soprava-te ar quente nos ouvidos

Tu, que escrevias como uma pantera
Que mal entrou nas tuas veias
Que sangue verde
Te afogou nessa inapelável condenação

Se ainda aqui estivesses
Arrancava-te o teu medo
Deixava-o dependurado
Em longas serpentinas
Retalhos de pavor

Virava o teu rosto
Para o vento
Encostava as tuas costas contra os meus joelhos
Beijava e trincava a tua nuca
Ate que abrisses a tua boca para esta vida.

31/1/80
Homesteady Valley, Ca

Sam Sheppard - Motel Chronicles 

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Não olho para ti
como se fosses uma aventura
és agradável à vista

ando a deitar-te um canto do olho
a tentar sentir as vibrações
que emanas

mas tudo isto é apenas
poesia trivial

a que pensamentos posso
chamar meus aliados? (1)

a que sentimentos posso 
chamar meus aliados?

a que esperanças em ti
ou todas as outras 
que me povoaram
não necessariamente
muito

alguns devaneios, tantos devaneios,
tantos que isto pode parecer Paris
nos anos trinta e o Henry Miller
e os outros todos a delirarem
mas só na frugalidade
das provisões que tinham

não é minha que quero que sejas
quero que caminhes ao meu lado
quero os anos de ensino
a mostrarem o caminho certo
até ti

não sei quem é o ti 
sei pouco, sei nada

as boas vibrações, a confiança,
a sinceridade

abrandar o meu bio-ritmo
caminhar furtivo?
procurar pelos caminhos
de quê e o quê?

Deixar-me estar,
provocar ondas, 
deixar boas pistas sem querer
querer aliás ser é apanhado
semear coisas boas

pegar na cestas das flores
e atravessar com ela
a chover a rua
delicadeza
com a senhora que as vende


[Obrigado V... por essas atitudes inspiradoras]

(1) 3.30 da manhã - Sam Sheppard - Motel Chronicles


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Insónia

07.04.13

Motel Chronicles - Sam Sheppard

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Sam Sheppard, Lua Falcão

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Chove a potes de novo. Começa a ser água que dá fome. As sementeiras não se podem fazer, os poços ameaçam transbordar, e pouco se pode fazer, em face das condições atmosféricas nada pode ser feito.

Relativamente a muitas outras coisas também não. Ou acreditamos que não.
Nunca pusemos em causa.

Faço diariamente perguntas sobre variadíssimos  assuntos que às vezes parece que é uma perseguição, o tal mito do  Homem Renascentista ou os esquemas mentais que um tipo dum conto do Sam Sheppard (que correm sempre um pouco mal...).

É higiene ou é fuga para a frente manter a curiosidade em altas rotações? É mesmo verdade que ajuda a manter as sinapses em forma, como os músculos nos desportistas?

Ainda há bocado estava todo satisfeito com uma imagem gravada numa pedra e que me pareceu logo um crocodilo. Andava à cata de imagens baris das gravuras de Foz Côa e aquilo pareceu-me bem. Até corria bem e tinha uma frase do tipo: crocodilos no Douro?.
Mas não, a imagem era dum lago na Síria ou assim.

Já devo ter tropeçado umas quantas vezes (sempre mais que as que quero) mas isso é porque não tenho um tipo que faz o trabalho de rever um livro antes de sair para a tipografia. 

Bom, coincidências ou não, literariamente dá muito jeito que o veículo ressuscite neste dia... quaresma bem difícil essa, de abstinência, mas o convento foi uma oficina de automóveis onde aprendi, a par com um videos, o completo funcionamento físico (isto é, visionar o funcionamento físico das peças e conseguir extrapolar o que fazem e como se comunicam entre si. Isto é notável?

Não de todo. Hoje toda a gente tira a carta de condução. Ensinem tudo isto nas escolas. Desde cedo. E teremos melhores condutores e melhor aproveitamento do cérebro das nossas crianças.

É um pouco triste saber-se de Filosofia de História e não saber atender um telefone ou fazer qualquer outra coisa de útil para nós, para o outros, para o bem de toda a gente. Ensinar às crianças coisas mais úteis, que lhe sirvam na vida em sociedade. 

Tudo isto correu assim porque tive um professor de filosofia na Escola Secundária em Abrantes que nos disse que aquela disciplina não era para sermos filósofos, era para aprender-mos a pensar com a nossa própria cabeça. Grande lição de vida levei então (levei mais felizmente, não se apoquentem).


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