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Um Dia a Mais

28.12.15

Dirigiu-se ao amplo armário metálico e retirou do bestiário um casaco de tigre de papel. Ajeitou o gorro preto e olhou-se no espelho. O que aquele espelho renitente devolvia era a pálida imagem de quem acordou desconfiado de que o dia trará algum merecimento, tolhido pelo seu medo de avançar para ele, sem mais nenhuma indumentária que aquela de se apresentar assim ao espelho naquela predisposição sem esperança. Distante daquilo que tinha prometido a si mesmo não ser. 

 

A renovação de um documento. Sabia validar o cartão de embarque. Expunha-se à procura da validação dele mesmo, mas as máquinas de leitura de códigos magnéticos apenas validavam viagens sem qualquer promessa de entretenimento. Não queriam saber da sua validação orgânica. Nem se importavam com o seu desfalecimento. Afrontou o vento e a chuva, com os pés assentes e mais molhados. Nem a repartição estar quase deserta quando a pensava encontrar superlotada, a rapidez do atendimento o fizeram tirar aquele desconforto matinal, daquela irritação escorregadia.

 

A factualidade idêntica aos outros. Não fosse aquele divertimento que o consumia a requerer a validação de si, podia culpar o tempo daquele mal estar. Estava irremediavelmente só com as suas preocupações, centrado em si mesmo. Alimenta-se de si e da carne que faltava por baixo da pele. Banqueteia-se com os disparates no interior da sua caixa, nos temores velados, na indiferença perante aqueles que lhe são estranhos. Foi de novo cuspido para a manhã em desvantagem no resultado, uma sentença desagradável, um nó na garganta.

 

Aceitaria todos os convites para que se produzisse um acontecimento. Os apitos de mudança de número de senha passaram mais rápido do que pudesse prosseguir a análise daquele sentimentos estúpidos e desnecessários, o interior que se revolve em magna a altas temperaturas, um vulcão com vontade de explodir em prol de si mesmo. Tudo o resto são as pontas soltas dos nós corrediços da história e a impossibilidade de incendiar a sociedade, a impossibilidade de percutir o juízo. A sua ronda na orla do incerto. A canoa em que se deixa deslizar, com prováveis quedas de água. O conforto um desgosto. O desconforto outro desgosto.

 

Permeável àquela irritação de horas mal dormidas, em busca de uma paz que só pode ser configurada em enredos decorrentes ao sossego nocturno, no silenciar dos barulhos em si, uma ronda pelos pontos de vigia, o combate desigual dos movimentos revoltosos de lava que se vilipendiam, os planos grandiosos para uma erupção, os desígnios do martírio, a vaidade e a fragilidade, a substância do prazer, a luz do reconhecimento, a água sobrenatural que aplaque a lava e a transforme em esculturas, a lembrar quem as inspirou.

 

É uma hora insólita para se dispor assim àquela inquisição. O dia em que assuntos práticos estão cumpridos com prejuízo do sono. Os olhos preguiçosos da escuridão dos túneis. A contrariedade de recensear tão pouco. Escadas rolantes com música de fundo. O vento a parecer mal, a chuva uma proibição. O dia estar a mais, a noite prolongada em mutilações abstractas. A sede dele. As formas em bruto por lapidar. O desperdício aparente daquele dia tempestuoso.

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