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Sebastião Pombo, depois de sair da esplanada movido pelo hábito, os pés a pousar nas mesmas pegadas do dia anterior, apreciando uma brisa quente de primavera. Indeciso quanto ao que iria jantar, se é que se daria ao trabalho de jantar, sem que lastimasse não o fazer porquanto resultaria da inércia em juntar alimentos. Desejava aborrecer-se sozinho, sem tanto barulho, sem tantas interferências. Ficar esbodegado num sofá a requentar considerações antigas, ao som baixo, para não acordar qualquer fantasma. Era muito consciencioso neste aspecto: não acreditava em fantasmas, mas para o caso de os haver, não convinha ofende-los de modo gratuito. Nem aos anfitriões das esplanadas.  

Ocorre esta narrativa dispersa depois do desaparecimento dos arrumadores de automóveis, os quais nunca haviam regressado para a sua ocupação e sem que alguém se interrogasse mais do que o próprio Sebastião. Aliviado, embora não tivesse automóvel, nem aspirasse a ter. Os dias decorriam modorrentos, numa rotina de repartição com interesses difusos e noites de grato aborrecimento privado, depois do aborrecimento público da esplanada. SP não se julgava com posses para sentir tédio. Isso era demasiado frívolo para ser admitido na sua moral. O aborrecimento como anestesia isenta de impostos, para o sentido invariável da sua vida unilateral, descomprometida e vagamente sonâmbula, sem grande préstimo nem para a nação, nem para as artes. A arte de perpetuar a anestesia, sem se descuidar na imagem, para não o tomarem pelo verdadeiro vagabundo que era. Passava pelas esplanadas como se existisse, mas não pudesse perturbar qualquer ordem estabelecida, por mais absurda que fosse. Praticava com pouco entusiasmo o desprendimento, como se isso fizesse parte do pacote do aborrecimento. Era por isso que a questão de jantar se lhe colocava enquanto se dirigia para casa, uma velha casa de pedra dos ferroviários, junto à linha do comboio. Isolada e sem grandes vestígios de ser habitada.  

Servia-lhe convenientemente para especular pela sua realização ou não, da conveniência da sua preparação e realização, do estado de espírito relativamente a isso e sobre o modo conveniente de colocar a questão, de um modo orgânico ou social, apesar de ser um jantar solitário, ele ainda se julgava pertencer à sociedade. A escolha dos ingredientes ficava reservada para mais tarde. Era demasiada especulação pós laboral e tinha que eventualmente ser enfrentada por etapas, postergando a escolha de eventuais ingredientes conciliáveis para depois de uma tomada de decisão formal sobre o jantar em si. De vez em quando Sebastião Pombo divertia-se, assomava à tona das águas pouco límpidas em que se abrigava, julgava tomar decisões baseadas na racionalidade, sentindo-se confortável nestes preliminares para um jantar que ocorria muito poucas vezes, no sentido clássico de qualquer jantar. Também porque os locais dos seu calçado estavam demarcadas pela repetição da sua deslocação da esplanada do café Sol e Mar, para sua casa improvisada. Nele não residia qualquer angústia sobre pó ou sobre a maneira informal como se organizara, cuidando de mexer o menos possível em qualquer objecto.  

Para além de se esparramar sobre um velho sofá de tecidos de cores vivas e de se demitir de tomar uma resolução tão importante como decidir, assim de repente, se iria ou não jantar. Esperava sempre que a reflexão prévia tomasse uma decisão por ele ou que a decisão se apresentasse tomada. Não contava evidentemente com nenhuma tomada de decisão do seu corpo no sentido de se encaminhar para acções práticas da realização de um jantar, daqueles que se comem com faca e garfo, sentado à mesa. Sem que houvesse uma forte determinação para o fazer. Deixou-se ficar sossegado, a tentar recuperar de todo o esforço escatológico em torno do jantar. Descansava por fim do dia de trabalho na repartição, da observação acompanhada de notas, da esplanada do café Sol e Mar e da parte final daquele dia muito preenchido de todas as insignificâncias que é possível imaginar. Despachadas para as calendas da sua pouca importância. A Sebastião Pombo nunca faltava nada porque fora acostumado a nada desejar. Talvez isso já constasse de forma conveniente no património dos genes que não fosse necessário nenhum catalisador para tanta indiferença perante todos os acontecimentos do mundo. As notas que tirava nem para ele faziam sentido no dia seguinte, como se alguém usurpasse a identidade e com ela se exprimisse, por já não possuir corpo material para o fazer. Agora, confortavelmente alapado no sofá, não precisa de mais nada do que isso. 

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