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Por obrigação de preencher espaços em branco. Por obrigação de me divertir? O alívio de me martirizar. A vida das pessoas felizes tem história, mas não é para ser contada, não é um passeio inconsequente pela maravilha do ser. Em certo dias é-se leve e descomprometido, faz-se tudo o que se tem a fazer.

 

Os passageiros são informados que por avaria do veículo a viagem termina ali para aquela composição. A avaria acontece numa estação no subsolo, por isso é um incómodo menor esperar pelo próximo. Sai da multidão depois de registar o não interesse dos comentários e coloca-se na zona com menos densidade de apeados, misturados com aqueles que não seguiram viagem. Muitos. Que deixou seguir no próximo transporte que chegou, o qual esvaziou a estação. Ia no próximo, menos superlotado. Encostado ao pilar aguardava isso mesmo, confortado pelo facto da avaria ter ocorrido numa estação do subsolo. De poder estar encostado àquele pilar com meia dúzia de pessoas que tinham procedido de igual maneira.

 

De novo, ainda mais no subsolo, é um outro veículo que chega de luzes apagadas, se imobiliza na estação. Novo aviso de que aquela composição, que já vinha moribunda, seguia sozinha na sua agonia, com as luzes entretanto acesas para uma viagem fantasma em direcção aos cuidados dos mecânicos. Transporte mágico, que não fica especado no meio da via à espera de ser rebocado. Do seu ângulo de visão a configuração da curva logo após a estação pareceu-lhe demasiado sinuosa. É uma escapatória, uma saída de circulação, um túnel de que tinha ouvido falar e nunca tinha visto. No andar intermédio apercebe-se de um ponto multibanco que não constava das suas referências.

 

A sina daquele condutor de veículo de não transportar ninguém, a repetição de avarias semelhantes a proporcionarem experiências de regresso diferentes da rotina, abstraído das pressas alheias, sem pressa para nada, sem ansiedade. É o tempo que lhe pertence. Em dias leves, mesmo que o vento dificulte o andar ou que chova. À porta de casa. Uma extensão das suas pernas, a calhar.

 

Escadas rolantes, música de fundo, pinturas ou vestígios encontrados no subsolo. A diversidade do individual ser humano, as árvores concretas da floresta, a equívoca situação perante o que pode obter deles, se o seu interesse por eles não é um passatempo, um esquema mental para se convencer que tem interesse nas vidas deles. Aquela vida exposta em voz alta na carruagem com lugares vagos uma rudeza, não queria mesmo saber nada daquilo. Tirava-o do seu mundo. Começava a sentir-se castigado pela voz da mulher  quando ocorrera a avaria, uma oportunidade em vez de um contratempo. Uma viagem diferente.

 

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